Belmonte, vila museu

Belmonte, terra onde religiões convivem há séculos.

A primeira memória que tenho desse dia é a da camada de gelo que envolvia os vidros do meu pobre carro. É verdade que a previsão nocturna apontara para  -2ºC de temperatura mínima, e que a viatura tinha ficado voltada a norte, ou seja, com o vidro da frente voltado contra o vento predominante. Mas ninguém prevê tal coisa quando está de férias.

Como perante o inevitável, o melhor é raciocinar, foi o que fiz. Pus o carro a trabalhar, liguei a ventilação em direcção ao vidro e fui encher uma garrafa de água de litro e meio que estava no porta-bagagens. Depois despejei, aos poucos, o líquido no pára-brisas, enquanto as escovas limpa vidros se esforçavam por remover a camada de gelo.

Não contei foi com a temperatura exterior, demasiado baixa para as minhas mãos desprotegidas. Quando senti que os dedos estavam quase a transformar-se em pedaços de gelo, pu-los a apanhar o calor da ventilação do carro. Com um pouco de paciência, e mais umas idas lá fora para continuar a obra, os vidros foram ficando transparentes, em condições para serem usados. Estávamos na Guarda, por alcunha a cidade do gelo, a única capital de distrito que ainda não visitara em Portugal. Nesse dia preparávamo-nos para uma pequena viagem de descoberta a Belmonte, única terra da ibéria onde se manteve alguma da cultura e tradição hebraicas, entre o século XVI e a actualidade.

Vista para o horizonte nas muralhas do castelo.

Paisagem bela e agreste

O dia, apesar de frio, estava límpido, o que deixava ver uma paisagem beirã bela e agreste, que me atrai e nunca me cansa, colorindo o caminho até ao destino. Depois de uma pequena volta de carro, pelo interior, à procura do melhor poiso para o automóvel, deixámos o dito protegido pelos contrafortes das muralhas do castelo, e fomos captar as primeiras imagens da terra e da paisagem em volta, incluindo a Serra da Estrela, orlada de branco nas zonas cimeiras.

Perante o frio ventoso que fazia, a primeira resposta que dei à senhora que estava na bilheteira do castelo, quando sugeriu um bilhete conjunto para todas as atracções da terra por algo mais que 10 euros foi não. “Nem pensar! Ficar ali um dia inteiro ao frio?!”, pensei para mim em modo rebelde. A perspectiva era de um dia entediante. Mas não foi isso que aconteceu.

A visita ao castelo e as duas pequenas exposições no seu interior pouco interesse tiveram, até porque uma delas nem iluminada estava, o que não deixava ver, em pormenor, o conteúdo interior das vitrines na semiobscuridade. Depois foi a despida igreja de Santiago e Panteão dos Álvares Cabral, onde nos entretivemos a ler um pouco da história da família e acerca do responsável pela frota que descobriu o Brasil. Para temperar o ambiente mortiço valeu-nos um local de idade avançada que estava numa das salas, a do mausoléu de família, que nos foi contando como era a sociedade de Belmonte antes e actual, e a sua relação com os seus judeus.

História contadas na primeira pessoa no Museu Judaico de Belmonte

Já um pouco mais inspirados, encaminhámo-nos para o Museu Judaico, para viajar um pouco no tempo da vida de uma comunidade que ultrapassou, com o conluio dos seus concidadãos, ordens de expulsão e perseguições a que outros foram sujeitos, e à descoberta dos seus objectos, tradições e cultos. Gostei, em particular, de estar ali a ouvir e ver, num grande ecrã de parede, alguns membros da comunidade, parte dos quais partiu recentemente dali para Israel, em busca de uma vida melhor.

A viagem do rio

Um pouco abaixo, optámos por entrar primeiro no Ecomuseu do Zêzere, instalado na antiga Tulha dos Cabrais. Apesar de a hora de almoço se aproximar a olhos vistos, a simpática responsável pela bilheteira deixou-nos entrar, e até voltar após o imprescindível cumprimento do horário da pausa de repasto. O pequeno museu e a sua zona de exposição foram vistos, com a leitura de tudo o que estava escrito nas paredes, no espaço de meia hora que tínhamos. O filme que faltou, foi usufruído após o repasto.

Levou-nos através do percurso do rio, desde o vale glaciar da Serra da estrela onde nasce, até ao rio Tejo, à beira de Constância, onde desagua, mostrando-se as suas paisagens, a ligação com as gentes, os seus animais, as suas plantas, e a sua grande albufeira.

Pedro Álvares Cabral, filho pródigo da terra.

Na sala da viagem da descoberta do Brasil, podem reviver-se momentos de acalmia e tempestade do percurso

Nada disso nos cansou e apenas ficámos com mais vontade de entrar no Museu dos Descobrimentos, em frente, intrigados principalmente por ver o que fazia um espaço daqueles numa terra tão pequena como Belmonte. É, afinal, uma viagem à história do achamento do Brasil, e não só, porque nos revela também um pouco do que era a sua população antes de lá chegarem os portugueses, as suas paisagens, os seus animais e as suas plantas. Mais uma vez fiquei por lá mais do que esperaria, a ler um pouco sobre a vida a bordo, a viver momentos ficcionados das acalmias e tempestades, a olhar algumas das reproduções do que se passou.

Museu do Azeite de Belmonte.

Réstia de sol

Foi um tempo bem passado, mas era urgente sair dali para ver o que nos faltava, o Museu do Azeite. Em boa hora o fizemos, porque vale e pena a visita, pelo menos para quem estudou, há muitos anos, o ciclo da extracção de azeite, como eu. Mas é pena não haver, ali, uma explicação mais pormenorizada sobre o que se passava naquele lagar para leigos, na altura em que estava em pleno labor. Nem tudo é perfeito, mas este espaço museu está mesmo bem recuperado. Lá fora, uma réstia de sol iluminava a paisagem, deixando ver, em baixo, o rio Zêzere caminhando pelo vale em direcção à sua foz. Era tempo de voltar até à Guarda, devagar para usufruir, com tempo, das paisagens de terras onde vale sempre a pena ir.

Contactos
Museu dos Descobrimentos
Rua Pedro Alvares Cabral, nº 68
Telefone: 275 088 698O Museu dos Descobrimentos/Centro de Interpretação “À Descoberta do Novo Mundo (DNM)” pretende dar a conhecer o feito de Pedro Álvares Cabral e explorar a história do Brasil, construída através de uma extraordinária convivência de culturas.
Ecomuseu do Zêzere
Rua Pedro Álvares Cabral
Telefone: 275 088 698
Museu do Azeite
Largo Bombeiros Voluntários 129, Belmonte
Telefone: 275 088 698
Museu Judaico
da Portela 4, Belmonte
Telefone: 275 088 698
Igreja de Santiago e Panteão dos Cabrais
Largo do Castelo, Belmonte
Telefone: 275 088 698
Restaurante Casa Castelo
Largo São Tiago 17, Belmonte
Telefone: 275 181 675

Foi o nosso lugar de repasto para almoço. Um par de imperiais acompanhou a salada de atum com maionese bem fresca e apaladada, e salada de polvo com que ornamentaram a mesa. Depois foi a vez de cabrito e batatas assados no forno, que emparceirou lindamente com um tinto reserva de 2011 da Quinta dos Termos, um achado no seio de uma pequena lista de vinhos bem seleccionados da Beira Interior. Serviço familiar e simpático.

Hotel Vanguarda
Av. Monsenhor Mendes do Carmo, Guarda
Telefone: 271 208 390

Já lá tinha estado quando participei no júri do Concurso de Vinhos da Beira Interior, Escolha de Imprensa 2017. É um hotel simpático, suficientemente confortável e de fácil acesso, com boa relação qualidade/preço. Por isso, voltei.