O meu roteiro de Banguecoque

Bailarinas em cerimónia religiosa

Bailarinas em cerimónia religiosa.

Cinzenta, mas colorida, Banguecoque é uma cidade de contrastes, de edifícios e centros comerciais ultramodernos e de casas decrépitas, de trânsito caótico e de metros eficientes e confortáveis. É, sobretudo, uma cidade de pessoas, que vale a pena percorrer para sentir os seus cheiros e a sua comida, os seus recantos mágicos, a sua vida.

Pode originar um embate inesperado em quem ruma até este lado do mundo e não faz uma preparação prévia em relação ao que vai encontrar. Não foi assim connosco. O hotel onde ficámos, o Pachara Suites, foi seleccionado nos mapas da cidade disponíveis na Internet e nas ofertas que os motores de busca oferecem pela sua localização, próxima de uma estação de metro aéreo, Nana, e de uma das principais artérias comerciais da cidade, a estrada Sukhumvit, que toma outros nomes no caminho pela cidade. Fica numa ruela paralela, onde não eramos incomodados pelo ruído.

Num dos extremos tinha uma perpendicular, aparentemente de comércio, pejada de restaurantes. Mais tarde, quando chegámos, verificámos que era também um dos pólos de atracção de homens europeus de meia a muita idade, sozinhos, pela oferta de bares cheios de mulheres, e talvez travestis. Ao percorrê-la senti-me, por vezes, figurante num documentário sobre turismo sexual.

Para além disso, a rua era a miscelânea de oferta do que se pode encontrar em Banguecoque, incluindo supermercados, farmácias, diversos restaurantes de oferta variada, comida de rua, incluindo sumos, fruta, e pratos cozinhados, que podiam ser colocados em sacos de plástico para levar para casa, lojas tradicionais e de massagens.

Como queríamos fazer pelo menos uma massagem nesta viagem, escolhemos, daí a uns dias, a que tinha as massagistas com uniformes mais apresentáveis e não nos demos mal. Saí de lá sem a dor de costas que me atormentava há alguns dias, em parte por causa de andar sempre de mochila às costas.

 

A casa Jim Thomson

No primeiro dia, como chegámos cedo e não tínhamos passeio programado, fomos visitar a casa de Jim Thomson, apenas a três paragens de metro aéreo da estação de Nana. Criada por este arquitecto e colecionador como casa de habitação, foi construída a partir da junção de seis casas de campo, adquiridas em mais do que o sítio. Feita de madeira, e decorada com móveis e artefactos que Thomson foi coleccionado ao longo da sua vida, vale bem a visita, que é guiada. Mas façam-no de preferência em inglês. Com o tempo, fui descobrindo que na Tailândia não valia a pena tentar fazer visitas em línguas como o espanhol ou o francês, pois os guias, apesar de poderem ser bastante conhecedores e informados, não se expressavam convenientemente nelas.

 

Os centros comerciais

À saída fomos na boleia grátis do museu até à estação de metro aéreo mais próxima, para o primeiro pulo até ao complexo de centros comerciais, na Rua Rama 1, a continuação da estrada Sukhumvit, facilmente reconhecível pela presença permanente do metro a tapar a vista de céu. Entrámos no Siam para dar uma vista de olhos e descobri uma área de restauração com tudo para me fazer feliz, menos os preços dos vinhos, uma exorbitância neste país.

Após um arroz frito com uma cerveja Chang, marca que se tornou a minha preferida nesta viagem após ter provado a sua rival local, Singha, e a Tiger, da Malásia, voltámos para o hotel, num percurso de meia hora pelo passeio. Ainda parámos para apreciar uma cerimónia hindu e apenas tivemos de nos desviar, de vez em quando, de motorizadas que fugiam ao trânsito compacto. Foi algo que nos fomos habituando nos passeios pela cidade.

Mais tarde descobri que nas imediações do centro comercial de estreia ficam vários outros, de grandes dimensões. Um pouco antes era o Siam Paragon, que cito não por albergar o Sea Life Banguecoque ou nele desfilarem as marcas de luxo, incluindo automóveis como Maserati e Bentley, que estavam lá expostos para quem os quisessem. Foi sim pelo seu supermercado alimentar, de fazer luzir os olhos para quem gosta, como eu, de coisas de mesa. Bem perto fica o MBK, que pratica preços populares e mais se assemelha a uma feira de rua, principalmente à medida que se vai caminhando para o interior de alguns dos seus andares.

Depois de ter experimentado comida de rua e em alguns restaurantes de aspecto mais ou menos duvidoso, com experiências menos gratificantes em termos de impacto na nossa fisiologia, apesar dos seus aromas e sabores serem agradáveis e tentadores, decidimos, devido à diversidade e qualidade da sua oferta, voltar, sempre que pudéssemos, às praças de restauração, onde as comidas foram sempre agradáveis e a um preço que oscilou entre o correspondente a um euro e 7,5 euros por pessoa.

As frutas e os vegetais estão à venda por todo o lado

As frutas e os vegetais estão à venda por todo o lado.

Vendedoras no mercado flutuante de Damnon Saduak

Vendedoras no mercado flutuante de Damnoen Saduak.

Na cidade velha

Outro dos pontos altos da visita foi a excursão guiada aos templos do Buda Dourado (Wat Traimit), Buda Reclinado (Wat Pho) e Buda Esmeralda (Wat Phra Kaew) e ao Grande Palácio. Construído no século XVIII, este complexo albergou durante 150 anos a família real, a corte e parte do governo e é, hoje, um dos principais, se não o principal, centro espiritual da Tailândia.

Para além da beleza da arquitectura e da decoração externa dos diversos edifícios, permite avaliar a perícia e capacidade artística dos artesãos tailandeses. É nele que fica o Templo do Buda Esmeralda, um dos mais consagrados do país. Tal como em todos os outros, as pessoas não podem permanecer no seu interior sentadas ou deitadas. Apenas de pé ou de joelhos, em sinal de respeito pelo lugar.

Em qualquer dos sítios visitados, foi difícil de parar de disparar a máquina fotográfica, não só pela beleza dos edifícios e dos seus pormenores, mas também pela decoração dos seus jardins e pela diversidade de pessoas de todas as origens que os frequentavam, desde turistas a devotos, orando junto dos túmulos, das capelas, em frente às estátuas de Buda, de pé ou de joelhos, queimando ou não incenso, juntando as palmas da mão em frente em sinal de respeito. Também havia quem tirasse fotos nas poses mais diversas e artísticas possíveis.

Wat Pho

Templo do Buda Reclinado, Wat Pho.

Turistas e tailandesas tiram fotografias m frente ao Palácio Real

Turistas tiram fotografias em frente ao Palácio Real.

Uma ida ao museu

Uns dias mais tarde, e porque gostamos de saber um pouco mais da história dos locais que visitamos, voltámos à zona para irmos ao Museu da Tailândia. Tentámos, primeiro, ir a pé até lá. Mas era dia de Buda e, ao que parece, as tropas ocupavam os templos do Buda Reclinado e do Grande Palácio. Pelo menos foi isso que nos foram dizendo vários tailandeses, que procuraram desviar o nosso passo estugado para a estação de barco e o ferry boat pelo caminho. À terceira, já convencidos, fomos até à estação de ferry boat de Sathon, acessível directamente a partir da estação de metro aéreo de Saphan Taksin.

De lá apanhámos um dos barcos, que nos deixou, sete paragens depois, no terminal de Tha, perto do Grande Palácio. Umas centenas de metros mais tarde, e após atravessarmos mais uma feira de rua densa e termos resistido, mais uma vez, aos chamamentos dos motoristas de tuk tuk e de táxis, a maior praga da cidade, chegámos à porta do museu, onde demos um passeio memorável pela história dos tecidos, dos móveis, dos objectos e dos símbolos da Tailândia. Mais demoradas foram as visitas ao espaço dos carros funerários reais, de decoração intrincada e bela e folheados a ouro, e a uma casa tradicional de madeira.

A volta levou-nos de novo ao barco, com paragem para comprar uma pequena placa com a imagem de Buda. Chegados ao cais, e após travessia de novo pelo estreito corredor deixado pelos mercadores, por ali ficamos até vermos que a multidão se dirigia ao barco que ia para jusante do rio, para voltarmos ao local inicial.

Arranha-céus edificado aos ziguezagues

Arranha-céus edificado aos ziguezagues.

Sala de jantar ao ar livre da Torre Lebua, com vista sobre Bangecoque

Sala de jantar ao ar livre da Torre Lebua, com vista sobre Bangecoque

O último passeio a pé

Sem outras alterações de maior para além do fluxo e refluxo de passageiros e das baforadas de fumo intoxicante que subia ao ar de cada vez que a embarcação parava e partia de cada cais, fomos observando as margens do rio, já que era o último final de tarde que passávamos em Banguecoque. No terminal de Tha, miramos de novo a torre Lebua, recordando os cocktails pagos a peso de ouro no seu Sky Bar, esforço necessário para usufruir da melhor vista da cidade.

Tal como noutros dias, embrenhámos na cidade, na amálgama de pessoas e barracas de vendedores que preenchiam mais intensamente os passeios nesse dia, arremessando-nos, de forma aventurosa, nas passadeiras de cada vez que queríamos atravessar a estrada, pois os carros até paravam mas as bicicletas e motos nem sempre o faziam.

Mais uns passos, mais um pormenor. Era preciso parar para ver a vendedeira de líchias e romãs, a de banana frita, o de t-shirts, o de tecidos, a das sopas. Também para olhar para a beleza de cada altar para os espíritos, ou para a forma como uma arranha-céus subia em ziguezague para os céus, com o guindaste, no topo, a afirmar que aquilo ainda não tinha terminado. Após cinco dias vividos intensamente, incluindo excursões imperdíveis a Ayutthaya, antiga capital do reino tailandês e ao mercado flutuante de Damnoen Saduak, era hora de repousar antes de ir para Pukhet, para a paradisíaca praia de Kata, cuja história contarei no episódio seguinte.

Fotos: José Miguel Dentinho