Aventuras de um português em Pequim, em boa companhia

A entrada da Cidade Proibida.

Estar em Pequim foi surpreendente por diversas razões. A primeira foi a sua modernidade, que se sente nas ruas amplas, bem delineadas, nos seus jardins harmoniosos, em muito do seu património edificado. Se não fosse pelos rostos das muitas pessoas que vi em todo o lado, poderia estar numa qualquer capital moderna da Europa, talvez mais bem organizada, mas gigante e bem mais poluída. Depois foi a sua comida, tão diferente da “chinesa” que existe por cá, onde os doces e salgados se misturam, se abusa por vezes do picante, se come sopa e outros pratos ao pequeno-almoço e, ainda mais estranho, não há pão.

Cidade Proibida e Muralha da China

Nas mesas, vi quase sempre chá, por vezes oferecido, ou cerveja para companhia do repasto, as bebidas mais habituais deste povo. Mais estranho ainda, foi ver poucos rostos indo europeus, ou de outras origens do Mundo, mesmo em locais tão atractivos como a Cidade Proibida ou a Muralha da China. Estive pouco tempo, é certo, na capital da China, até porque não fui lá de visita turística. Mas ao contrário de muitos dos outros locais onde fui, e talvez porque senti que necessito mais tempo para a sentir melhor, fiquei com vontade de lá voltar.

Não sei se foi pela emoção, ou simplesmente pela má vontade do meu corpo em relação a percurso tão moroso, mas a viagem entre Paris em Pequim, de 9h30 entrecortadas por duas refeições, uma delas com direito a champanhe para abrir o apetite, foram pouco dormidas e desconfortáveis. Como sempre, nestes voos mais longos, aproveitei o tempo acordado enquanto a maioria dormia como justa, para fazer alguns exercícios de alongamentos e dar dois dedos de conversa com quem tinha insónias, como eu.

Na realidade, não havia razão para a falta de sono, pois ia mais uma vez participar, como membro do júri, no Concurso Mundial de Bruxelas, onde gosto de estar presente pela oportunidade de provar vinhos de regiões diferentes do mundo, pela seriedade e profissionalismo da organização, e por poder conhecer e conviver com pessoas vindas das muitas faces da Terra. E esta viagem tinha ainda o aliciante de podermos dedicar um pouco de tempo a Pequim, capital da China, e à sua descoberta.

Mas o tempo de sobra em relação ao evento e actividades paralelas não era muito. Por isso, e com a ajuda inestimável da minha cara colega Maria João, com relacionamentos firmados em visitas anteriores na capital chinesa, lá se organizou, por cerca de 50 euros por cabeça, uma excursão vespertina à Muralha da China e outra, também à tarde, à Cidade Proibida, a uma casa de chá e ao propagandeado melhor Pato à Pequim da cidade, no restaurante Da Dong.

A Muralha da China coberta pela neblina.

A verdade é que as visitas foram fascinantes, porque é sempre emocionante estar ali, a descobrir locais e edifícios da história da humanidade, tão longe do nosso cantinho peninsular. Mas o pouco tempo e a multidão, sempre presente num local tão populoso, tiraram um pouco o prazer à visita, que queria mais demorada. Talvez por isso decidi, logo na Cidade Proibida, o primeiro local visitado, que tinha de voltar, para estar mais tempo e sentir melhor Pequim. E é o que farei. De qualquer forma, e com a ajuda da nossa inexcedível guia, Sofia, fui conhecendo hábitos e costumes dos Ming e dos Qing, as duas dinastias que reinaram na China a partir daquele conjunto de edifícios, desde o início do século 15 ao início do século 20.

980 edifícios

Ocupando mais de 72 hectares, o complexo de palácios que constitui a cidade púrpura proibida tem 980 edifícios e mais de 8 mil salas. Ou seja, muito para explorar. Enquanto o percorria aprendi um pouco sobre quem tinha acesso à “cidade”, ou acerca da quantidade enorme de concubinas que cada imperador tinha. Eram tantas que algumas nem chegavam à fala com o monarca em exercício.

Depois cerca de 1 hora de passeio pela “cidade”, embarcámos de novo no transporte, a caminho da Beijing Wuyutai Tea, porque era essencial trazer, pelo menos, um pacotinho de chá da China. Se não, parecia que não tínhamos lá ido. Optei por 100 gramas de chá de jasmim, com um cheiro tão agradável que decidi colocá-lo à mesa-de-cabeceira para me embalar as noites. E não resisti a provar um gelado de chá de flor de chá. Bastante aromático, e seco no final, ajudou a despertar o palato para a degustação do pato.

No Da Dong, que fica no quinto andar do Centro Comercial Jinbaohui, cabem certamente algumas centenas de pessoas. Tem mesas bem-apessoadas, de tal forma que coubemos todos os 14 comensais numa, e à vontade. Para a mesa vieram 4 Patos à Pequim, de pele estaladiça e carne delicada. Depois de uma sopa de ossos das aves, quentinha mas pouco interessante, para terminar, lá fomos todos para mais uma hora de viagem para o hotel, para a pernoita.

Cores da culinária chinesa, no Royal Gastronomy Museum.

Na tarde em que fomos à Muralha da China, foi necessário mais outra hora para nos levar ao sítio. Como habitual, uma névoa persistia sobre o céu, cobrindo e acinzentando a paisagem para além da centena de metros, abafando as tonalidades de verde que se adivinhavam da presença da floresta, e a possibilidade de ver o percurso insinuante da muralha pelas colinas que se vislumbravam. Ainda tentei, como alguns dos meus colegas, subir os degraus amplos e desordenados da muralha mais próxima. Mas tinha acabado de almoçar, e o esforço não me pareceu valer a pena, pois nunca iria conseguir tirar uma foto de jeito de paisagem, apenas cansar-me. Por isso fiquei por ali, em amena cavaqueira com o João Paulo e a guia, trocando informações sobre hábitos e costumes de Portugal e China, e olhando a multidão que subia e descia a muralha, de forma mais ou menos ortodoxa. E não me dei mal, porque o espectáculo foi deveras interessante. Desde o pai, que desceu os degraus aos pulos com o filho de dois ou três anos, sem se espalhar, e aterrou perto de nós são e salvo, apesar das expectativas contrárias de quem ali estava, até às senhoras chinesas de aldeia, que desciam de costas, todas as formas de galgar ou descer eram possíveis, e o uso dos quatro membros uma constante.

A azáfama da Muralha da China.

Depois de algum tempo, e já com quase todos os portugueses descidos sãos e salvos, fui dar uma volta até às lojas do recinto, tirei algumas fotos ao seu templo, e abanquei, nas mesas exteriores, para mais uma cerveja, a meias com o Pedro. Soube aos néctares dos deuses para apaziguar a sede e o calor.

Sedas, recordações e petiscos

Naquela altura já decidíramos que queríamos ir de novo ao centro de Pequim, em vez de comer ali perto, como estava inicialmente combinado. Depois de outra hora, pois tudo fica aparentemente a uma hora de distância em Pequim, parámos no bairro tradicional mais próximo da Praça de Tianamen, onde mora a nossa guia, no distrito residencial de Dashilan e deambulámos à procura de chás nas diversas lojas especializadas que havia por ali, sedas, e outras recordações e coisas de petiscar.

Tai Chi pela manhã antes do Concurso Mundial de Bruxelas.

Não resisti a uma das micro espetadas grelhadas à beira da rua, e só cometi o erro de deixar que o cozinheiro a rebolasse no tempero picante, que estragou um pouco as sensações do gosto, pelo carácter explosivo na passagem pela boca. Conduzidos por Sofia, a nossa guia, ainda fomos comer a um restaurante local, onde ela costuma ir com os amigos, que infelizmente não recordo o nome. Mas como fiquei com os contactos dela, espero lá voltar na minha próxima aventura em Pequim. A verdade é que, sem este pedaço de fim de tarde noite, neste bairro antigo da cidade, não traria comigo a mesma sensação de ter estado na China, e a mesma vontade de voltar.

O chef das Espetadas no Bairro de Dashilan.

Duplings a acabar de fazer, perto de Tiananmen.

 

Contactos úteis:

Da Dong

Segundo várias, listagem de críticos gastronómicos, é um dos 10 melhores patos à Pequim da capital chinesa. Para companhia, é melhor optar-se por cerveja local, que custa 2 euros, ou chá, já que os vinhos razoáveis da carta começam nos 40 euros.

Morada: Loja F do quinto andar do Centro Comercial Jinbaohui, 88 Jibao Jie, Distrito de Dongcheng

Tel.: +86 105 169 0329

 

Beijing Wuyutai Tea

Há muitas lojas de chá espalhadas por Pequim, dada a natural apetência pela bebida do povo chinês pela bebida. Indico esta, pois foi lá que comi o gelado de chá, coisa que não vi em mais lado nenhum.

Morada: Rua Dongsi Norte

Tel.: +86 400 610 1887

 

A Guia

Sophie Yang Jing

Tel.: +86 187 0143 0822

Wechat (O chat de origem chinesa): sophie158106567794

e-mail: sophie33312@163.com