As Presidências Europeias de Portugal: 1999

A segunda presidência portuguesa: sucesso externo, pântano interno

Em 1999, António Guterres podia ter sido presidente da Comissão Europeia. Recusou porque era primeiro-ministro e o candidato do PS às eleições legislativas desse ano, tendo no entanto sido alcandorado à presidência da Internacional Socialista. Segundo um perfil de Ana Sá Lopes, “na campanha eleitoral desse ano acaba a confessar, em roda privada, que o lugar que verdadeiramente lhe pode vir a interessar será o de alto-comissário da ONU para os Refugiados. Era um “sonho”, dizia na altura, que correspondia às suas preocupações humanitárias, que tinham começado na juventude, no apoio aos desalojados das cheias do Tejo de 1968”. E de facto, em 2005 Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, nomeou-o para este cargo. Este facto revelava o prestígio e o networking internacional de António Guterres.

António Guterres foi, juntamente com Tony Blair e Gerhard Schröder, um dos protagonistas da “terceira via”, uma doutrina que, no final da década de 90, colocou a esquerda moderada no poder um pouco por toda a Europa. Foi o responsável pela adaptação do PS a um país que já não demonstrava excessiva reverência para com os valores tradicionais da esquerda.

António Guterres começou por brilhar no conselho europeu de Madrid, quando fez uma intervenção em que, relativamente ao euro, parafraseia as palavras de Cristo ao apóstolo Pedro sobre a edificação da Igreja Católica: “Euro, tu és euro e sobre ti edificaremos a Europa”. A partir daí, foi ganhando influência nos conselhos europeus, bem como junto de Tony Blair, então primeiro-ministro do Reino Unido, e de Bill Clinton, então presidente do Estados Unidos. Este foi fundamental quando em Agosto de 1999, após o referendo em Timor, as milícias organizadas pelo exército indonésio devastaram a cidade de Dili pois António Guterres conseguiu convencê-lo a passar de uma atitude de não-intervencionismo para uma condenação da Indonésia e apoio às Nações Unidas que dirigiam o processo pós-referendário. O primeiro foi crucial na aprovação da Estratégia de Lisboa, durante a presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2000.

A um mês do fim da segunda presidência portuguesa da União Europeia, Mário Soares escrevia, “a presidência portuguesa (…) que foi esforçada e exercida com reconhecida competência, corre o risco de se diluir sem quase deixar marca”, apesar de reconhecer que “muitos no estrangeiro a elogiaram, com excelentes razões. Entre outros, do lado fronteiro do Atlântico, o próprio Presidente Clinton, com palavras muito lisonjeiras para Portugal e nomeadamente para a iniciativa do Conselho Extraordinário de Lisboa que obrigou a União a debater questões tão actuais e concretas como o emprego, a ‘nova economia’ e a revolução informática numa sociedade de conhecimento – a sociedade, cheia de contradições, que está a emergir e a afirmar-se, nas regiões desenvolvidas, no século que iniciamos”. Para o futuro ficou o que se chamou a Agenda de Lisboa, estratégia deliberada durante o Conselho Europeu de Lisboa de Março de 2000, com o objectivo de tornar a União Europeia (UE) na economia mais competitiva do mundo e alcançar o objectivo de pleno emprego até 2010 e que assentaria em três pilares. Um pilar económico que devia preparar a transição para uma economia competitiva, dinâmica e baseada no conhecimento, sendo prioritários a permanente adaptação e evolução da sociedade de informação e a incidência na investigação e desenvolvimento.