Anda tudo aos Gambuzinos!

Houve um tempo não muito longínquo onde imperava a criatividade na invenção de passatempos e brincadeiras. Quem não se lembra das partidas entre adolescentes que consistiam em “apanhar Gambuzinos”? Sim, Gambuzinos eram animais fictícios, monstrinhos, nocturnos e ariscos, que se caçavam em grupo.

Os seleccionados para o efeito eram, decididamente, os caloiros ou os mais novos e inexperientes, que tinham como missão encontrar Gambuzinos pela noite fora, normalmente numa mata, bosque ou um parque escuro, recorrendo a um apito especial, com a finalidade de os atrair para os colocar num saco. Invariavelmente os sacos voltavam vazios porque, pese embora o ruído contínuo dos apitos, os Gambuzinos teimavam em não aparecer. A caça infrutífera terminava quando o “apanhado” atingia o limiar do pavor de estar à noite, sem luz, no meio de um bosque, horas a fio e muitas vezes ao frio. O jogo também acabava sempre que os mais velhos se fartavam.

Décadas depois, repete-se a história. O Gambuzino chama-se Pokémon Go e é um jogo electrónico, que consiste em caçar com um smartphone criaturas virtuais de realidade aumentada, tendo sido desenvolvido através de uma parceira entre a Niantic, Nintendo e The Pokémon Company para as plataformas iOS e Android.

Constitui já hoje a maior febre mundial dos últimos tempos que inundou as redes sociais, tendo ultrapassado o sucesso do fenómeno Candy Crush e, na verdade, já se dedica mais tempo a apanhar monstros do que ao Facebook. Dados analíticos da SimilarWeb referem que há praticamente tantos caçadores de monstros quantos os utilizadores do Twitter. Numa semana abriram esta aplicação cerca de 6% dos todos os utilizadores de Android, adivinhando-se um número semelhante para o iOS. É tal a projecção do Pokémon Go que a Arábia Saudita, regendo-se pelas rigorosas leis islâmicas, já o decretou como “jogo proibido”, intitulando-o de “anti-islâmico” e “demoníaco”, porque as criaturas com poderes poderão “ocupar” lugares santos, incluindo mesquitas.

Enquanto isto, em Portugal, a PSP publica na sua página oficial de Facebook uma série de conselhos para os jogadores do Pokémon Go, de onde se destacam os seguintes:

  • esteja sempre atento ao que o rodeia
  • observe o meio envolvente
  • não cace sozinho, cace em grupo ou aos pares……
  • não entre em propriedade alheia ou áreas de acesso restrito….

É, pois, uma caça muito igual à dos Gambuzinos, com as seguintes nuances:

  • o apito foi substituído pelo GPS
  • quem caçava Gambuzinos era obrigado a fazê-lo; ao invés, os caçadores dos novos monstros fazem-no de livre vontade.

A culpa não é do Pokémon Go. Também não é do Marketing, que mais não faz do que estudar tendências para o fenómeno tribal assente no divertimento. A culpa é exclusivamente dessa estranha espécie que é o ser humano!

 

Livro Recomendado
Tribos, Seth Godin