Amor e umas Cabanas (de Tavira)

Agora que ninguém nos ouve: o meu marido ainda está fora de jogo a discutir a derrota do Vitória na Supertaça, os meus filhos, cansados de um dia de praia, a bater novamente com a cabeça no arroz de lingueirão, a minha amiga a photoshopar as fotos em biquíni para partilhar no Facebook (que por esta altura se transforma em Assbook). Tinha prometido nunca mais voltar a Cabanas de Tavira em Agosto e cá estamos nós outra vez. Um ano inteiro a sonhar com as férias. O adeus à rotina. As brincadeiras espontâneas com os filhos que adoro mais do que tudo no mundo. Andar de mãos dadas com o amor da minha vida. Tão bom…

E tão mau, agora que ninguém nos ouve.

 

Cabana tavira

O raio da rotina atracou-se a nós, tal como aquela tia avó tão chata que até o tio avô decidiu partir mais cedo para o paraíso. É de braço dado com ela, e não com o amor da minha vida, que tenho agora de passear à beira mar, com água pelos tornozelos por causa das varizes. E os meus queridos filhos, quando acabo de lhes barrar a pasta factor 50 já só me apetece fechá-los na tenda que o vizinho do lado decidiu montar quase em cima de mim. A tenda, o dia todo vazia, está para nascer o puto de três anos quer estar das 11 às 17h quieto na penumbra. Os quinze dias em Cabanas de Tavira estão esquematizados ao milímetro numa aplicação (grátis) para iPhone: segunda vamos à Noélia, quarta é dia de pataniscas de polvo no Ideal e sexta não podemos deixar de ir tirar uma selfie ao Pedro. Às oito de todas as manhãs tenho de me apresentar no Alisuper, se quero apanhar pão fresco, e meia hora depois já estou a hostilizar as crianças para se irem vestir, sim em férias também têm de lavar os dentes, e não, não podem ver televisão porque a mãe quando era pequenina não via televisão nas férias. Além disso os ecrãs são prejudiciais à saúde, foi o que disse o Dr. Eduardo Sá. Já as bolas de Berlim, que comemos todos os dias às cinco da tarde, são altamente saudáveis (e tu, magra do chapéu ao lado, pára de me provocar com a salada de quinoa e o batido verde, ainda te engasgas com as bagas goji). Quando a mãe era pequenina, comia sempre bolas de Berlim nas férias e está aqui com genica suficiente para servir de bengala à tia avó no passeio das seis tarde. Rápido que às sete temos de apanhar o barco, para tomarmos todos banho (tambem há uma aplicação – grátis – para iPhone para cronometrar os banhos, pois somos 10 para um só poliban), para conseguirmos mesa e pataniscas no Ideal. Às nove já estaremos a desfilar na marginal, um cafezinho, um geladinho, uma caipirinha na loucura das loucuras. Mas, amor, bom bom era empandeirar a avó para um Don Juan. O quê, as velhotas inglesas já os fisgaram todos para a noite de karaoke no Sports Bar? Ok, um Dom Rodrigo vai ter de servir…