Aeroportos

Tive o privilégio (sim, nos tempos que correm qualquer movimento fora de um raio de 50km de nossa casa é um privilégio) de andar de avião nestas férias.

Foram 18 meses sem entrar num aeroporto, sem comprar um bilhete para voar, sem fazer um check-in. Até desaprendi a fazer malas – sempre consegui pôr a minha vida de 8 ou 10 dias numa mala de mão e numa mochila, mas desta vez tive de ir tirar o pó às malas de porão.

Quando era pequena, o meu pai também viajava muito e a minha mãe dizia-me que ele aproveitava tudo, até os aeroportos. Eu também sempre fiz por isso. Eram momentos em que estava sozinha mas nunca me senti só.

Antes, era capaz de fazer oito voos, ou mais, num só mês. Comprava os bilhetes online, fazia o check-in online, chegava num dia, partia no outro. Entrava no aeroporto como se fosse a minha casa, ia direta ao portal da leitura dos códigos de barra “fast”, cumprimentava como conhecidos os funcionários do aparelho de raios-x. Descia as escadas e encontrava a minha prima, que trabalha no local,  conversávamos um bom bocado e eu seguia para a porta de embarque. Mas antes enchia a mochila de revistas e jornais, passava na sapataria do calçado confortável, comentava o que havia de novo com a rapariga da loja, se comprava alguma coisa ela guardava e deixava no “pick-up” das chegadas, para o meu regresso.

Gosto muito de aeroportos. Tinha rotinas e pontos chave das minhas viagens. Chegar ao terminal satélite de Madrid ao domingo à noite, e jantar uma tábua de queijos e presunto com um copo de vinho tinto antes do voo da meia-noite para um destino qualquer da América do Sul. Em Santiago do Chile, o meu telemóvel reconhecer a senha do wi-fi automaticamente no restaurante onde passei horas a fazer relatórios (sempre fui com muita antecedência apanhar os voos. Só perdi um.) Acompanhei as obras no aeroporto de Milão, sabia onde estavam as farmácias, perdia horas a ver os novos livros nas livrarias internacionais. A loja da Zara no aeroporto de Barcelona era (não sei como estará agora) a melhor de todas as da marca, com peças que só encontrava lá. Fiz muitas compras de aniversário em aeroportos, percorri muitos quilómetros, corri muitas vezes até portas de embarque. Mas do que gostava mesmo era do movimento de pessoas, o frenesim de uns para cá outros para lá, o barulho das rodas das malas no chão rugoso, o tilintar dos copos e dos talheres nas zonas de refeição, o apitar das compras a passar nas caixas de pagamento, os sinais sonoros para “do not leave your luggage unattended”. Os fatos, as roupas, os cabelos, as feições de gente tão diferente e tão igual, os encontrões, as filas onde se conversava com as pessoas, as portas que se abriam para um novo destino.

Nesta minha última viagem, com os aeroportos por onde passei quase vazios, quase sem filas, com lojas ainda fechadas, não se via o meu sorriso porque tinha a máscara, mas, para além da alegria de voltar a lá estar, foi a sensação de regresso. Um regresso a um tempo indefinido, talvez menos movimentado, mas um regresso.  De chegadas e partidas.

 

Inês Brandão é fundadora e Global Business Manager da Frenpolymer. Leia mais artigos da autora aqui

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