A sua casa estará sendo derrubada por uma onda de lama em 30 segundos…

– Queremos estar alertando, senhora, que sua casa estará sendo derrubada por uma onda de lama em 30 segundos…

“Esse momento vai nos trazer muitas lições, mas não quer dizer que o que fizemos não esteja correto”.

Esta frase que aqui ressoa foi dita pelo presidente da mineradora Samarco, Ricardo Vescovi, ao comentar o rompimento de duas (em três, locais) barragens de rejeitos da empresa, havido anteontem no distrito de Bento Rodrigues, município mineira de Mariana, que, no entendimento do promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador do Núcleo de Conflitos Ambientais do Ministério Público de Minas Gerais foi “… o maior dano da história do nosso estado”.

Já para a advogada especialista em Direito Ambiental Mariangélica de Almeida, a Lei 12.334, que criou a Política Nacional de Segurança de Barragens, falha da definição dos instrumentos de alerta em casos de emergência: “… a lei facilita a omissão. O uso de sirenes é preciso em situações como essa…”.

Não vamos nos alongar na narrativa do desastre ambiental e humano porque a imprensa o está fazendo a contento.

Relevante para este OCI é afirmar que a presença de alguém com perfil clássico de public affairs no board da empresa talvez evitasse a tragédia anunciada. Mas, não… economiza-se. Faz-se pelo menos, brinca-se com a sorte. Aposta-se.

Acabo de rever o “case” da Enron (no – ótimo – documentário “The smartest guys in the room“, que tornou pó uma sólida empresa (na qual tive a oportunidade de trabalhar) – a Arthur Andersen – e as falas dos executivos que traíram a confiança pública no episódio de sua falência são terrivelmente similares à fala do Sr. Vescovi.

Enquanto não houver EM TODAS AS ORGANIZAÇÕES do porte da Samarco, ou seja, de operações que colocam em risco populações de cidades inteiras (como é o caso de Angra dos Reis, com a Eletronuclear, e Volta Redonda, com a CSN, por exemplo – esta recordista em multas e contumaz em “não conformidade ambiental”) a figura do ombudsman (que representa, nas empresas, o escrutínio do outsider), com poderes para interferir na gestão das mesmas, desastres ditos “naturais”, mas inteiramente fabricados pelas mãos humanas acontecerão. E a imprensa continuará publicando “notas” e transmitindo “o profundo pesar” de gente inescrupulosa, mentirosa, capaz de economizar com o básico para aumentar os lucros do trimestre e seu bônus de performance.