A Banhos em Budapeste

Circuito de natação na piscina coberta do hotel Gellert.

Circuito de natação na piscina coberta do hotel Gellert.

Talvez pareça estranho que a imagem mais presente na minha memória, da visita recente à capital da Hungria, seja precisamente o período que estive nas piscinas termais do Hotel Gellért. Pode ter sido apenas pelo descanso proporcionado depois das deambulações pela cidade e suas atracções, ou devido ao calor ter apertado naqueles dias de verão, mas mergulhar o corpo dentro de água retemperadora, num sítio diferente, ajudou-me a sentir bastante melhor.

Budapeste tem mais fontes termais e medicinais do que qualquer outra cidade do mundo. São 118, que jorram mais de 70 milhões de litros de água todos os dias, a temperaturas que vão dos 21 aos 78ºC. A escolha é vasta, pois há 15 banhos públicos e vários privados em hotéis da cidade. A opção pelo histórico spa do Hotel Gellért foi fácil. Apesar de se pagar, à entrada, cerca de 15 euros, é público, tem piscinas interiores e exteriores, sauna e muito espaço para estender a toalha ao sol, ou ao abrigo do dito. Além disso, é um complexo diferente, mais atraente devido à sua arquitectura arte nova, conservada desde a abertura do hotel, em 1918, apesar das diversas modernizações que foram sendo feitas.

Vista sobre o Castelo de Buda, para lá do rio Danúbio

Vista sobre o Castelo de Buda, para lá do rio Danúbio.

A panorâmica

O cansaço acumulado dos primeiros dias de Budapeste tinha a sua razão de ser. Logo no primeiro dia tínhamos subido à Citadella, no lado de Buda do rio Danúbio, para observar a vista da cidade. O caminho ingreme, por veredas que cortam o interior do parque verde, dificultou a jornada, principalmente em dia soalheiro. Mas o prémio valeu a pena, uma panorâmica quase circular de uma cidade que parece mais bela dali.

Nos cinco dias que estivemos em Budapeste, o suficiente para ter uma perspectiva da vida da cidade e dos seus principais atractivos, foram várias dezenas de quilómetros feitos a pé, por opção, dado que a capital da Hungria tem uma rede de transportes públicos bem organizada, com metro, eléctricos e autocarros que passam a tempo e horas, com uma frequência de poucos minutos. É fiável, fácil, organizada e amiga de quem quer usufruir dela, bem distante do que acontece em cidades como Lisboa ou no Porto, onde os transportes não passam a horas e se leva muito mais tempo para fazer percursos semelhantes.

Segundo a National Geographic, o eléctrico dois é um dos 10 que proporciona melhores cenários de viagem do mundo. Outro é o 28, de Lisboa.

Segundo a National Geographic, o eléctrico dois é um dos 10 que proporciona melhores cenários de viagem do mundo. Outro é o 28, de Lisboa.

O eléctrico dois

Uma viagem que repeti várias vezes foi a do percurso de rio do eléctrico dois. Vale a pena apanhá-lo no largo onde fica a Assembleia da República Húngara, cuja beleza é reconhecida e vale uma visita, e percorrer, durante alguns quilómetros, a margem de rio. Na volta o melhor mesmo é parar no mercado central da cidade, cuja construção data do início do século 20. A visita é obrigatória durante a manhã, pela arquitectura do espaço e para uma vista às bancas.

Comprei, como não podia deixar de ser neste país, algumas embalagens de paprika. Mas também há vinho (o inevitável Tokai e outros), pastéis e rebuçados, enchidos e o resto que é costume encontrar em mercados. No andar de cima, que é parcialmente um bazar de vários tipos de “trapos”, há também várias casas de petiscos que vale a pena experimentar.

Cenas de um casamento em frente à igreja de Sto. Estevão.

Cenas de um casamento em frente à igreja de Sto. Estevão.

Em Budapeste gostei, em particular, do circuito grátis (é diário) iniciado em frente à Basílica de Sto. Estevão, que nos guiou por histórias desde a fundação da Hungria pelos tártaros até à actualidade, e do ponto de partida à Igreja de S. Matias, no cimo da colina do castelo sobranceiro ao rio Danúbio. A visita ao interior do templo é paga, como acontece com quase todas as atracções da cidade. Mas vale a pena pela decoração magnífica.

Bem perto fica o antigo hospital subterrâneo/bunker da cidade (sziklakorhaz.eu), agora um museu a muitos metros abaixo da superfície da colina. Retracta cenas das condições ali vividas durante a Segunda Guerra Mundial, e vale muito a pena para quem gosta de história, apesar de as reconstituições serem algo impressionantes.

Ruszwurm Cukrászda, um lugar imperdível para os amantes de bolos.

Ruszwurm Cukrászda, um lugar imperdível para os amantes de bolos.

Pausa doce

Depois de algum tempo debaixo do chão, sentimos necessidade de fazer uma pausa. A guia tinha-nos indicado a pastelaria Ruszwurm Cukrászda como uma das mais antigas e tradicionais da cidade, e decidimos lá ir para um momento com os doces.

O dia era de estio, como os outros, e tínhamos de subir mais algumas dúzias de degraus colina acima. Mas lá fomos em demanda do sítio. Com duas pequenas salas decoradas com antiguidades e uma mão bem cheia de bolos e pastéis irresistíveis, valeu a pena o esforço. Optei, para não arriscar, por um apfelstrudel (torta de maçã) na companhia de uma limonada gigantesca, e não me arrependi, apesar de ter ficado de olho nas opções atractivas de chocolate das minhas parceiras.

Outro dos lugares onde me lembro que comi bem foi no Bistro Rézangyal Ring, perto do hotel onde estava. Tinha também o preço mais barato de cerveja húngara Dreher Classic, a que mais bebi neste país, 400 florins (1,3 euros) por cada meio litro. Boa comida local, bem composta e temperada, com diversas opções de escolha, a maior parte bastante tragáveis. Gostei, em particular, do seu goulash. Um dia aventurei-me, e decidi usufruir da companhia de um Janus Pont 2013, um Pinot Noir da região de Villány, e não me arrependi. Apesar de ser maduro e apresentar alguns sinais de evolução, fez boa companhia a um prato de enchidos regionais. Ao todo, pagámos, nessa noite, 27 euros para três pessoas.

O Museu da Hungria

Entre as muitas deambulações que tivemos em cinco dias de Budapeste, ia de novo ao Museu da Hungria, onde a história deste país é bem contada para leigos, desde os primórdios até aos tempos mais próximos. Pena é que a versão em inglês das placas esteja colocada demasiado em baixo nas paredes, o que dificulta a leitura e foi-me tirando a paciência para fazer mais vénias. Por isso, no final da visita alheei-me do que ia sendo contado nas paredes e dediquei-me apenas a olhar os objectos expostos, juntando-me à maioria.

À espera da aula de ioga na Ponte das Correntes.

À espera da aula de ioga na Ponte das Correntes.

A ponte das correntes

Em Budapeste também voltava a fazer a travessia da Ponte das Correntes sobre o rio Danúbio, a mais antiga. Quando lá estive, a ponte estava fechada ao trânsito devido a obras na linha dos eléctricos. A animação era permanente, não só devido à passagem de pessoas e bicicletas, ou àqueles que se empoleiravam nas suas estruturas (vi, inclusive, um casal que lá fazia um piquenique), mas também por eventos que lá se realizavam, como uma tarde de ioga para milhares que encheram o asfalto da ponte na minha última tarde de Budapeste. Estar ali, no meio do rio, a olhar o movimento das embarcações, os edifícios históricos que ornamentam as margens e, sobretudo, a sentir o movimento de pessoas e bicicletas, é integrar, num momento, a vida desta grande cidade.