2004 Durão Barroso troca Portugal pela Europa

Em 2004 disputou-se em Portugal a fase final do Euro em futebol e que levou a uma manifestação lúdica de patriotismo, incentivada pelo selecionador brasileiro Luiz Felipe Scolari, com as bandeiras nacionais desfraldadas em tudo o que fosse janela numa demonstração da capacidade da China fabricar e distribuir produtos a preços baixos. O evento, disputado em dez estádios recém-construídos, foi um sucesso embora a seleção nacional tivesse sido batida pela Grécia na final em Lisboa. Por sua vez, a economia portuguesa regressava ao caminho do crescimento com o PIB a aumentar 1,1%, valor próximo da queda registada no ano anterior. No entanto, este valor era desolador porque ilustrava a interrupção do processo de convergência real da economia portuguesa, que depois de ter abrandado durante a década de noventa, foi interrompido a partir de 2000. Ao mesmo tempo que continuava a ter uma das mais baixas taxas de crescimento da União Europeia, acentuando a divergência face aos níveis médios de rendimento per capita na Europa.

A 13 de Junho de 2004 realizaram-se as eleições para o Parlamento Europeu em que o PS venceu com 44,5% dos votos, depois de um episódio trágico que foi a morte do seu cabeça de lista, Sousa Franco, durante a campanha eleitoral, ficando o PSD/CDS-PP com 33,3%. E foi nessa noite que Durão Barroso confidenciou a Pedro Santana Lopes que o seu nome circulava como candidato a presidente da Comissão Europeia em substituição de Romano Prodi. No entanto, o líder do Governo e do PSD não queria que a substituição desse lugar a eleições antecipadas pois, como mostravam os resultados das europeias, a coligação governamental apresentava sinais de grande desgaste. Tornou-se público e oficial a candidatura de Durão Barroso e a 1 de Julho de 2004 Pedro Santana Lopes tornou-se líder do PSD.

Como isto iniciou-se um baile de sombras entre os partidos governamentais, o presidente da República e os partidos da oposição em torno de um silogismo: “a coligação no poder afirma pretender cumprir o mandato e apresenta Pedro Santana Lopes como substituto do primeiro-ministro; Durão Barroso condiciona a ida para Bruxelas à não realização de eleições antecipadas e apoia o nome indicado para seu sucessor; a oposição em peso pede eleições antecipadas”, nomeadamente o PS, escreveu o historiador António José Telo no volume II da História Contemporânea de Portugal. O presidente Jorge Sampaio optou por nomear Pedro Santana Lopes primeiro-ministro em Julho de 2004 impondo a garantia que de que não haveria mudanças nas principais políticas do anterior governo, sobretudo porque, como referiu no seu discurso, o país não poderá “suportar qualquer deriva eleitoralista”. Como escreveu António José Telo, este gesto permitiu a Jorge Sampaio, “garantir simultaneamente o afastamento do líder mais forte do PSD para Bruxelas, a renovação da direcção do PS, a criação de um executivo dependente de Belém e, como uma cereja a coroar uma sobremesa, dava-lhe maior protagonismo na parte final do seu mandato”.

Retirada de Guy Verhofstadt abriu caminho a Durão Barroso

Em 2004, a União Europeia começara a discutir a sucessão de Romano Prodi, que presidira à Comissão Europeia de 17 de setembro de 1999 a 22 de novembro de 2004. O candidato proposto pelo então presidente francês, Jacques Chirac, e pelo chanceler alemão, Gerhard Schröder, o primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt retirou a sua candidatura depois de ter havido oposição maioritária à sua indigitação. Nessa altura começou a tomar forma a candidatura de Durão Barroso, como o diário Público antecipava a 22 de junho de 2004: «Durão Barroso emerge como o grande favorito à sucessão de Romano Prodi». A 26 de junho, Bertie Ahern, o então primeiro-ministro irlandês que presidia à UE, anunciou que os 25 líderes dos países pertencentes à UE tinham encontrado o sucessor de Romano Prodi. Nesse mesmo dia foi anunciado que Durão iria deixar o governo e aceitar o cargo de presidente da Comissão Europeia.

Nessa altura, o historiador António Costa Pinto escreveu: «se estiver sentado em Bruxelas no próximo mês, Durão Barroso será o maior caso de sucesso de um político português na cena internacional. Ponto parágrafo».

A 29 de junho de 2004 Durão Barroso dirige-se aos portugueses: “Entendo que um político, ao assumir responsabilidades no seu país, assume igualmente responsabilidades no plano da União Europeia. Nada do que é europeu nos é estranho. Nenhum líder nacional se deve furtar a dar o contributo que lhe seja pedido para a construção de uma União Europeia cada vez mais forte, cada vez mais coesa e mais justa, mais interveniente na cena internacional.

Portugal deve muito à Europa. E quando esta pede a colaboração de um português para uma missão importante, Portugal não deve dizer que não. Mas tomo esta decisão também com a certeza de assim servir o interesse de Portugal. O lugar de Presidente da Comissão Europeia é certamente o cargo mais relevante que qualquer português pode desempenhar no plano europeu e internacional.

A construção europeia é essencial para a afirmação do nosso projeto nacional. As questões europeias, hoje mais do que nunca, são uma dimensão permanente da nossa vida coletiva e já não apenas um aspeto da política externa portuguesa. Servir o projeto europeu é também servir Portugal”.

Em 17 de julho de 2004, o Primeiro-Ministro Durão Barroso deixava o Governo, aceitando o convite para exercer o cargo de Presidente da Comissão Europeia, de que tomou posse em novembro de 2004.