1999 O caso do Grupo Champalimaud e as fusões na banca

No primeiro semestre de 1998, a banca portuguesa estava em negociações cruzadas. O Santander volta a propor novamente uma parceria visando o BPSM/Totta/CPP (Grupo Champalimaud). Ricardo Salgado falava com o Banco Bilbao Viscaya (BBV). O Banco Comercial Português julgava oportuno aumentar a posição no Banco Central Hispano. Subitamente, eclodiram as crises financeiras na Rússia e na América Latina que agitou os mercados financeiros e as múltiplas negociações cessaram. Entre Agosto e Dezembro de 1998 os contactos relativos ao futuro do Grupo Champalimaud ganham um cunho exclusivamente nacional com BCP, BPI e BES. Em Janeiro de 1999 o BCP soube que o seu sócio espanhol, o BCH, negociou uma fusão amigável com o Santander. Choque no BCP que de maior accionista individual do Central Hispano (a sua participação direta adicionada à sob gestão chegará aos 13%) passa para pouco mais de 3% da nova entidade. Pior, o BSCH tem quase 14% no BCP. Decidiu colocar condições. Aceita a fusão se os acordos com Portugal forem cumpridos. Aceita sentar-se no “board” do BSCH se o Santander sair do mercado português. Tudo por escrito para não haver dúvidas.

A 7 de Junho de 1999, é comunicada ao Governo a parceria entre o Grupo Champalimaud e o Banco Santander e que era a venda de apenas 40% das holdings pessoais de Champalimaud, através das quais controla a maioria da Mundial-Confiança, do Sotto, Totta e CPP. Sousa Franco, ministro das Finanças, opõe-se ao acordo. O Instituto de Seguros de Portugal (ISP) inibe os votos do BSCH na Mundial-Confiança, bem como o Banco de Portugal (BP) nos bancos do grupo. As autoridades de supervisão chumbam o acordo com argumentos muito próximos dos do Governo, centrados em objeções prudenciais ao nível do modelo de controlo conjunto. A entrada do BCP no processo como forte aliado, ao lançar primeiro uma OPA (18 de Junho) sobre a seguradora e semanas depois sobre os bancos de Champalimaud, procurando aproveitar o veto governamental e a perda da maioria dos direitos de voto do empresário e do BSCH no grupo, adiou apenas o desfecho. No entanto, o Santander recorreu junto da Comissão Europeia, que começou a dar indícios de que poderia dar razão aos espanhóis. Entretanto, em Novembro, Pina Moura, que acumulava os ministérios da Economia e das Finanças tentou a via negocial para resolver o imbróglio.

A 11 de Novembro de 1999, o ministro Pina Moura anunciou um novo acordo a ser implementado no 1º semestre de 2000, em que Champalimaud vendia a maioria do Grupo Mundial-Confiança ao BSCH, que o revendia à CGD para depois recomprar o Totta e o CPP. A seguradora e o Sotto ficavam para a Caixa. No total são quase 1000 milhões de contos, incluindo as OPA obrigatórias. António Guterres e o seu super-ministro precipitaram os acontecimentos pois sabiam que os dois processos de infração contra Lisboa, incluindo duas providências cautelares visando anular o veto e a inibição dos direito de voto seriam aprovadas no tribunal europeu. Sabiam também que os comissários Mario Monti e Frits Bolkestein não iriam ceder uma vírgula. Matematicamente, a 15 de Novembro os dois comissários emitem um comunicado em que informam que Bruxelas irá desistir dos processos contra Lisboa logo que os direitos de voto sejam recuperados, o veto anulado, e as autorizações do Governo-ISP-BP concedidas.

BPI e BES falham acordo

Entretanto a 17 de Janeiro de 2000, o BES e o BPI, que se sentiram ameaçados com a partilha do Grupo Champalimaud em que não participaram, anunciaram um acordo de fusão. Mas a 29 de Março, dois meses e nove dias depois desfez-se o acordo, antes da realização das assembleias-gerais de accionistas das duas instituições onde seria aprovada a operação que seria a primeira aliança entre iguais.

Champalimaud saiu da banca por 301 milhões de contos, os espanhóis ficaram com o Totta e o CPP por 430 milhões de contos. A 5 de Abril de 2000 o acordo entre a Caixa Geral de Depósitos e o Banco Santander firmado em 11 de Novembro de 1999 para a compra da totalidade das holdings de António Champalimaud que controlavam 51,8% da Mundial-Confiança, seguradora e cabeça do grupo financeiro. Com este processo a CGD, através da Parbanca, passava a controlar 53,05% do BPSM, 94,38% do BTA e 70,57% do CPP conforme comunicação à CMVM de 6 de Abril de 2000. A 11 de Maio de 2000, o BCP lança uma OPA sobre o BPSM a 23,156 euros por acção, embora 99,2% dos accionistas do BPSM tenha preferido a troca de 27 ações do BPSM por 125 do BCP e que equivalia proporção correspondente à definida no anúncio preliminar da oferta (25 acções do BCP por cada 27 ações) após a renominalização do capital social do oferente, que passou a ser representado por ações de valor nominal de 1 euro cada. Conforme informação do BCP de 19 de Junho de 2000, este pagou 4,1 mil milhões de euros por 100% do BSPM.

O milagre da multiplicação de António Champalimaud que conseguiu transformar, em poucos anos, um grupo que lhe terá custado cerca de 20 milhões de contos num ganho de 301 milhões. Depois de ter comprado a Mundial-Confiança com uma indemnização paga pelo Estado, o ex-industrial comprou o Sotto, o Totta e o CPP sempre à custa de uma engenhosa cascata que diluiu os custos por minoritários. Apenas investiu do seu bolso quando a seguradora aumentou o seu capital de 10 para 48,6 milhões de contos para acompanhar um reforço dos capitais do Sotto por via da compra do Totta/CPP como escreveu Pedro Fernandes, no artigo “Um negócio de 1000 milhões por dentro e por fora” publicado pela Fortunas & Negócios, Fevereiro de 2000.

Os anos 90 na banca

Os anos 90 foram marcados, ainda, pelas fusões e aquisições, que deram origem a grupos financeiros de diferente dimensão, que praticam a bancassurance em grande escala, além de terem sociedades instrumentais para todas as áreas financeiras. O que se chama actualmente consolidação teve o seu apogeu no último semestre de 2000. Resistem como pequenos grupos financeiros o BBVA, Banif, Finibanco, Banco Português de Negócios, Montepio Geral, caixa de Crédito Crédito Agrícola, Central Banco de Investimento, Banco Efisa, Banco Invest, e mais vocacionados para banca de investimento (Banco Finantia, que também tem leasing em Portugal e Espanha) e private bank (Banco Privado Português). Se nesta década foram vários os bancos de que desapareceram por absorção ou mudança de nomes. A União de Banco Portugueses foi adquirida pelo Grupo BPA que por causa da sua compra pelo Grupo BCP/Império passou para a órbita do Banco Mello de Investimento, que por sua vez resultara da compra em privatização da Sociedade Financeira Portuguesa, passando a denominar-se Banco Mello. No início do ano 2000 a área financeira do Grupo José de Mello foi vendida do Grupo BCP. O Banco de Fomento Exterior e o banco Borges & Irmão foram comprados em privatização pelo Banco BPI.

O BCI passou a denominar-se Banco Santander. O Banco Comercial de Macau, controlado pelo Grupo BPA, seria extinto depois de adquirido pelo BCP. O Lloyds foi vendido ao Banco Bilbao-Vizcaya Argentaria que mais tarde compraria as agências do Crédit Lyonnais. Um relatório da Eurostat de Outubro de 2000 referia que o número de instituições bancárias diminuiu em Portugal 25% no período entre 1994 e 1998, tendo culminado com a concentração da actividade bancária em 5 grandes grupos financeiros (CGD, BCP, BES, BPI e BSCH). No entanto, a Associação Portuguesa de Bancos registava em 2000 a actividade de 47 bancos contra 33 em 1990, no entanto grande parte desta presença tinha um peso ínfimo no negócio bancário.

Uma das grandes revoluções no negócio bancário foi a capacidade desta fazer-se pagar pelos serviços que prestava. Era uma das debilidades pois os serviços eram gratuitos. No fim do século deu-se uma nova inovação financeira com o aparecimento dos bancos online. Em 1999, nasceu o BIG online que é acessível através da internet ou de web-centers e já em 2001 surgiram os Activo Banco7, com a participação do BCP, EDP e Banco Sabadell, e o Banco Best em que estão associados os BES e a PT. A generalidade dos bancos já permitia aos seus clientes o acesso e movimentação das suas contas através do telefone ou da internet.