Liberdade, Lda.

Não é raro ouvir dizer que a crise nos trouxe coisas boas. A ideia é que as pessoas se afastaram do materialismo e consumismo e que passaram a dar valor a outras coisas. Numa espécie de regresso a casa, um regresso às coisas simples da vida. Do ponto vista profissional, e excluindo casos de dificuldades extremas, há quem tenha aproveitado a mãozinha do desemprego para mudar de vida, seguir sonhos antigos ou até passar mais tempo com os filhos.
Penso que será apenas uma minoria a ter encontrado a bonança ainda mesmo durante a tempestade. A grande maioria de nós ainda caminha sob uma nuvem escura carregada de incerteza. É o caso de milhares de desempregados de longa duração e daqueles que num novo emprego encontraram uma nova forma de exploração, uma escravidão que atinge até os mais qualificados. Mas também é o caso de milhares de ‘antigos’ empregados que ficaram sob a chibatada psicológica do medo, presos a uma pantanosa segurança profissional. É de admirar que a TVI ainda não tenha feito um novo género de reality show, com grandes audiências a votar no próximo colaborador a sair da ‘casa’. Os despedimentos em algumas empresas são tão aleatórios como a escolha do público. Já as contratações para a base da pirâmide seguem o mesmo critério: o máximo de trabalho pelo mínimo de dinheiro.
Com exceção dos mais altos quadros, que perversamente seguem a regra inversa – o mínimo trabalho pelo máximo valor -, os que ainda permanecem nestas empresas em crise (de dinheiro e princípios morais), são uma moeda em constante desvalorização. À taxa de câmbio actual, a sua experiência e conhecimento estão ao nível do mísero subsídio de refeição que os empregadores estão dispostos a pagar a jovens condenados a estágios eternos, privados do conhecimento e experiência daqueles que vão abandonando a ‘casa’, nem que seja em espírito. É que não é preciso atingir a meia idade para uma empresa destas descobrir que, em nome da crise, pode trocar uma quarentona por duas de vinte e ainda abater uma terceira em sede de IRC.
Desculpem-me se não consigo ver o lado bom de uma crise explorada por muitos, de políticos a empresários, os senhores de um novo tipo de feudo empresarial. A justiça, ética e respeito fazem parte da lista das tais coisas simples da vida mas estas não há crise nem bonança que nos devolva. Pelo menos nos tempos mais próximos.