Beatriz Macedo: O que aprendi a estagiar na Rolls Royce

Beatriz Macedo era uma jovem universitária indecisa entre Engenharia Mecânica e Engenharia de Materiais quando um estágio na Rolls Royce a ajudou a decidir. Mas essa foi apenas umas das consequências dessa primeira experiência internacional. Saiba que outras se seguiram.

Beatriz Macedo trabalha na Kirchhoff Automotive.

Compreender de que forma a física e a matemática explicam o funcionamento do mundo  empurrou Beatriz Macedo, 27 anos, para a Engenharia, onde os desafios são constantes e cada vez mais difíceis e complexos. Não foi fácil chegar ao primeiro estágio na indústria aeronáutica na Rolls Royce, apenas porque achava que não era suficientemente boa para ser escolhida, mas superada essa primeira prova procura agora fasquias cada vez mais altas para transpor. Há um ano que trabalha na Kirchhoff Automotive, que fabrica peças para a indústria automóvel, no departamento de desenvolvimento técnico onde colabora na concepção de novas peças com a função de Técnica de Planeamento de Qualidade Avançada. O seu objetivo é construir uma carreira de sucesso em Portugal, mas se possível em empresas com ambientes multiculturais, como a atual, que lhe permitam continuar exposta a outras culturas mesmo sem sair do seu país.

 

Como e em que fase da sua vida surgiu a possibilidade de estagiar na Rolls Royce e o que despertou o seu interesse?

Na altura em que este recrutamento decorreu na FEUP, eu estava com algumas dificuldades a nível académico e muito indecisa sobre uma eventual mudança de curso — que acabei por fazer! — de Engenharia Mecânica para Engenharia de Materiais. A possibilidade de experimentar o trabalho de engenheira antes de terminar o curso iria permitir-me ter a certeza de que fiz a escolha certa. Além disso, nessa altura a maioria dos meus colegas tinha tido a oportunidade de estudar fora através do programa Erasmus e esta era a oportunidade ideal para também ter essa experiência. O prestígio da empresa e o salário atrativo foram só a cereja no topo do bolo.

Sempre que vejo um A350 ou A380 (os aviões de longo curso da Airbus) sei que, embora de uma forma muito pequena, o meu contributo ajudou a que tanta gente possa voar em segurança.

O que de mais importante aprendeu nos dois estágios?

A aprendizagem começou ainda antes do primeiro estágio. O recrutador da Rolls-Royce estava de visita à FEUP e após uma breve conversa disse-me que eu tinha o perfil certo e me devia candidatar. Depois de algum tempo a pensar, decidi não o fazer.

Achei que nunca seria escolhida para a fase final e que não tinha nada de especial a oferecer que outros candidatos não tivessem também. No ano seguinte, o recrutador reconheceu-me no corredor e deu-me um raspanete sobre duvidar das minhas capacidades e tomar as decisões dos outros por eles. A decisão sobre se gostava de trabalhar para eles ou não é minha, mas a decisão sobre se sou escolhida ou não é deles! Apesar de eu ter achado a minha entrevista final desastrosa, fui selecionada e re-contratada no ano seguinte!

O mesmo tema continuou nos dois estágios, com tarefas que eu considerava acima das minhas capacidades, mas que acabei por completar antes do prazo e com um nível de desempenho que impressionava os meus colegas. Tenho muito orgulho no trabalho desenvolvido nos laboratórios da Rolls-Royce e de ter sido uma engrenagem (muito pequenina) dessa máquina. Sempre que vejo um A350 ou A380 (os aviões de longo curso da Airbus) sei que, embora de uma forma muito pequena, o meu contributo ajudou a que tanta gente possa voar em segurança.

Que principais diferenças sentiu entre lidar com ingleses e portugueses?

Os ingleses são muito mais informais no que toca ao tratamento entre colegas e às hierarquias. Ao início estranhei muito, mas a quebra de barreiras entre departamentos, equipas e chefias permitia uma colaboração muito mais fluida e os resultados são fantásticos.

Os ingleses parecem-me também mais propícios a aceitar desafios e a arriscar. Embora não se associe muito ao estereótipo inglês, eles apostam muito em levar as competências das pessoas aos limites e em oferecer stretch assignments para que os mais ambiciosos possam provar o seu valor. Aqui somos mais virados para o certo e seguro e oferecem-se as tarefas a quem já temos a certeza de que é capaz de as executar.

A minha experiência até agora trouxe-me uma maior confiança nas minhas capacidades e uma vontade de ir atrás, fazer mais e melhor.

O que a fez voltar um ano depois?

Regressei a Portugal para terminar o mestrado na Faculdade de Engenharia do Porto. E tinha a ambição de trabalhar e viver em Portugal depois de terminar o mestrado. Na altura também beneficiei de conhecer quem já trabalhasse em posições que, embora baseadas no Porto, tinham uma componente forte de viagens e colaboração com colegas de outros países. Saber que esta possibilidade existia ajudou muito à minha decisão.

De que forma esse estágio influenciou o seu percurso profissional?

Talvez ainda seja cedo para dizer. A minha experiência até agora trouxe-me uma maior confiança nas minhas capacidades e uma vontade de ir atrás, fazer mais e melhor. Acho que já tinha esta vontade antes, mas estes estágios ajudaram a aprimorá-la. Pude também ganhar o gosto a trabalhar com grupos de países e línguas diferentes e portanto ao regressar procurei uma empresa onde tivesse também essa possibilidade.

Aprendi também a olhar para um emprego como parte de alguma coisa maior e a procurar um sentido de missão nas tarefas do dia-a-dia. É como aquela história sobre alguém que aborda dois trabalhadores numa obra em que lhes perguntam o que estão a fazer. O primeiro diz que está a assentar pedra, o segundo diz que estão a construir uma catedral [esta é uma das 18 histórias do livro Storytelling para Líderes]. Saber para que é que nos estamos a esforçar e qual o impacto final do nosso trabalho pode ser muito inspirador quando a tarefa à nossa frente parece mais cansativa.

A minha ambição é ir crescendo e encontrando desafios cada vez maiores. Não quero olhar para trás e achar que teria sido capaz de fazer mais ou que não dei o meu máximo.

Quais as suas ambições profissionais’

Como sou leitora assídua da Executiva, gosto de pensar que posso vir a chegar a esse nível. Mais ainda pode demorar muito e posso mudar de ideias até lá. Até agora, a minha experiência a colaborar com pessoas de diferentes países faz-me querer continuar a trabalhar num ambiente com uma forte componente internacional e sei que quero continuar a viver e a trabalhar em Portugal.

Para já, estou a explorar o que gosto de fazer e como posso evoluir. A minha ambição é ir crescendo e encontrando desafios cada vez maiores. Não quero olhar para trás e achar que teria sido capaz de fazer mais ou que não dei o meu máximo.

O que faz atualmente e porque escolheu a empresa onde trabalha?

Atualmente, trabalho na Kirchhoff Automotive, que fabrica peças para a indústria automóvel, no departamento de desenvolvimento técnico onde colaboro na concepção de novas peças. A minha escolha foi muito influenciada por se tratar de uma empresa alemã e de um setor que prima pelo rigor e pela segurança. Decidi escolher um tipo de ambiente semelhante ao que tinha sido habituada até aqui, com bastantes normas e procedimentos pré-estabelecidos e uma cultura de eficiência.

Depois dos dois estágios também fez uma summer school em Seoul. 

Entre as aprendizagens que fiz conto, claro, com o conteúdo académico do programa que estudei (Influência do comércio de petróleo e energia nas relações internacionais) mas também toda a experiência cultural que a Universidade de Seoul nos proporcionou. E, deixando o melhor para o final, aprendi com os meus colegas coreanos (e dos quatro cantos do mundo!) maneiras muito diferentes de ver as coisas e de abordar desafios. Estudar no estrangeiro é uma experiência que não consigo recomendar o suficiente!

Recentemente, abraçou um outro desafio: aprender chinês. O que a levou a dar esse passo?

Aprender sobre uma nova cultura é também aprender sobre uma outra forma de pensar, de ver as coisas e de nos pormos no lugar do outro. Além disso, o chinês é uma língua que me obriga a testar os limites da minha paciência, preserverança e disciplina. Praticar a pronúncia e a escrita é um desafio que todos os dias reforça a lição de que mesmo as coisas que achamos demasiado difíceis ou ambiciosas se conquistam passo a passo. Hoje consigo ler, escrever e falar de uma forma que no ano passado me parecia impossível, o que me motiva para aceitar outros desafios no futuro.

Planeia ficar a trabalhar em Portugal?

Sim, e felizmente tenho conseguido precisamente o que pretendia: trabalhar fisicamente em Portugal mas com colegas de todo o mundo, misturando várias línguas, valores e culturas. E as viagens de trabalho ao estrangeiro dão-me oportunidade de visitar outros lugares e de ser “emigrante por um dia” sem o compromisso de morar longe do que considero ser a minha casa.

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