Conheça as 25 mulheres mais influentes de Portugal

A 3.ª edição do estudo feito em exclusivo para a Executiva pelo jornalista Filipe S. Fernandes revela as 25 mulheres mais influentes de Portugal.

A propósito da influência na literatura, dizia Paul Valéry que “não há palavra que venha mais facilmente nem com mais frequência sob a pluma da crítica que a palavra influência e não há de modo algum noção mais vaga entre as vagas noções que compõem o armamento ilusório da estética”.

A influência é muitas vezes como o gás, existe mas não se vê, e pode ser comparada ao efeito halo. A influência pode revestir-se de uma forma directa de relação que pode ser contabilizada. O poder mediático de Cristina Ferreira mede-se no impacto da sua presença na televisão em termos de audiências mas também, e sobretudo, na capacidade de vender produtos e serviços e de influir em comportamentos. Guta Moura Guedes ajudou, através da sua rede de contactos com o design nacional e internacional, a renovar o conceito de cortiça e a dar-lhe uma ligação com a arquitectura e o design modernos como mostra a Corticeira Amorim.

A influência não se mede unicamente pela popularidade, relaciona-se sobretudo com o impacto que tem sobre as pessoas, as situações e os contextos. A popularidade pode-se medir pelos gostos do Facebook, a influência pela forma como a palavra é escutada, o livro é lido, os produtos são adquiridos, o exemplo é seguido e a admiração é nascida.

Quem saiu e quem entrou

As 25 selecionadas traçam um mapa de influências de grande diversidade. Em relação ao ranking do ano passado, saíram Rita Blanco, Maria Manuel Mota, Maria Filomena Mónica, Esmeralda Dourado e Maria João Pires, mais pela emergência de novas protagonistas do que por menor fulgor da sua influência. Entraram Joana Carneiro, Rita Pereira, Daniela Ruah, Guta Moura Guedes e Cláudia Azevedo.

Joana Carneiro exerce grande parte da sua atividade em Portugal mas ganha cada vez maior reputação internacional. É maestrina principal da Orquestra Sinfónica Portuguesa, maestrina convidada da Orquestra Gulbenkian e diretora artística do Estágio Gulbenkian para Orquestra, diretora musical da Sinfónica de Berkeley, desde 2009, e recentemente dirigiu a Orquestra Filarmónica Real de Estocolmo na cerimónia de entrega dos prémios Nobel.

Rita Pereira, no reino das novelas em Portugal, e Daniela Ruah, no império das séries de Hollywood, tornaram-se incontornáveis no universo da representação. Por sua vez, Guta Moura Guedes é pelo seu papel de mediação entre o design nacional e internacional, a ligação da ExperimentaDesign ao mundo das empresas, uma figura cada vez mais relevante. Cláudia Azevedo é a emergência de uma nova personalidade nos negócios em Portugal. Herdou parte do império Sonae, após a morte do pai, Belmiro de Azevedo, mas é cada vez mais uma empresária atuante no mundo dos negócios, fazendo da Sonae Capital, de que é a CEO, uma compradora de ativos na área das energias renováveis e dos ginásios.

As descidas e as subidas

Em relação à edição de 2017 há casos em que se regista uma queda na classificação. Muitas têm que ver com o aparecimento de novas protagonistas mas também há situações em que o contexto social, político, económico e cultural se alterou pois a influência também é uma questão de clima, de ambiente, de contexto. Por exemplo, Isabel Jonet desce de 11.º para 18.º. A presidente do Banco Alimentar teve, por efeitos da crise económica e do elevado nível de desemprego que fustigou Portugal, um papel social mais destacado entre 2012 e 2015, mas graças à recuperação económica o seu papel deixou de ter a mesma evidência, embora ainda dê apoio a mais de 400 mil pessoas.

Isabel dos Santos perdeu relevância, pois a sua influência decorria da proximidade do poder em Angola, que estava encarnado no pai, José Eduardo dos Santos, pulverizou-se com a ascensão de João Lourenço à liderança daquele país. Foi demitida da presidência da Sonangol e viu questionados os seus investimentos, nomeadamente na empresa de diamantes de Grisogno, em que a Sodiam, empresa de diamantes angolana, decidiu sair do capital.

Mas também houve ascensões. Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda e deputada, acentuou o seu papel e rentabilizou a sua proximidade e influência no apoio ao Governo do PS liderado por António Costa. Assunção Cristas, líder do CDS e deputada, procurou aproveitar as incertezas estratégicas e o período de eleição do novo líder do PSD
para se firmar como a principal polo de oposição de direita.

Metodologia

Partiu-se de uma lista com cerca de 200 mulheres, de várias atividades e carreiras profissionais, procurando cobrir todos os campos, tais como os negócios, a gestão, as artes e a cultura, a política, a tecnologia, os media, as celebridades, a filantropia, a organização governamental. Depois aplicaram-se, de forma o mais objetiva possível, as cinco métricas: carreira, imagem, rede, poder e fortuna, até se apurar um conjunto diversificado de 25 nomes. Em cada uma das métricas a pontuação vai de 1 a 10.

CARREIRA: o currículo, a relevância dos cargos ocupados e do trajeto profissional.

IMAGEM: tem a ver com a presença mediática em Portugal e em termos internacionais.

REDE: tenta medir o reconhecimento que tem junto dos pares nas principais áreas de carreira e da atividade profissional e o seu peso nesses campos de atividade.

PODER: impacto social, profissional, político, empresarial.

FORTUNA: procura medir o património, a capacidade e recursos financeiros detidos ou em gestão.

 

Dominância do espectáculo

A lista regista uma proeminência de mulheres provenientes do campo dos media e das artes cénicas, com destaque para as apresentadoras de programas de televisão, atrizes das novelas portuguesas e das séries de Hollywood. Apesar de ser uma área de poder difuso, em que há pouca capacidade de decidir, mesmo assim existe um crescente poder de decisão nas mãos de mulheres, como é o caso de Rosa Cullell, Ceo da Media Capital, ou Gabriela Sobral, diretora
de programas da SIC.

A Justiça também mostra a influência e o poder das mulheres, que chegaram a estar, simultaneamente, na liderança do ministério da Justiça, tanto através de Paula Teixeira da Cruz como de Francisca Van Dunem, da Procuradoria-Geral da República, como Joana Marques Vidal, e da Ordem dos Advogados. Manuela Paupério preside à Associação Sindical dos Juízes Portugueses, depois de a presidente eleita em 2015, Maria José Costeira,​ ter rumado  ao Tribunal de Justiça da União Europeia. A derrota da
bastonária, Elina Fraga, foi amenizada com a conquista da Provedoria de Justiça por Maria Lúcia Amaral, que é professora catedrática da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e foi membro do Tribunal Constitucional entre 2007 e 2016.

Nos media tradicionais, depois da substituição de Bárbara Reis na direção do Público, ficou apenas Graça Franco como diretora de informação da Rádio Renascença. Existem cada vez mais opinion-makers como Clara Ferreira Alves, Raquel Varela, Lívia Franco, Marina Costa Lobo, ainda que seja um número ínfimo em relação ao mundo masculino. Mas na apresentação de telejornais e espaços de informação
há uma
grande relevância de mulheres.

Como referiu a cantora Capicua ao Diário de Notícias, “não só na música como na vida em geral, as mulheres não são estimuladas para estarem em lugares de destaque, para conquistarem o espaço público, para assumirem posições de liderança, para darem opiniões, para serem desbocadas”. Acrescentava que eram as características essenciais para ser rapper. “Aprendi no rap a ter orgulho em ser eu própria e faço-o com uma grande espontaneidade, o que não é aconselhável às mulheres. A autoestima é a primeira coisa que se mina numa sociedade patriarcal como a nossa”.

As questões do poder

Foi também ao Diário de Notícias que a psicóloga Lígia Amâncio, que estuda o género e a igualdade, disse que a chegada das mulheres ao poder não se prende apenas com questões como a educação ou a falta de ambição da mulher, mas com a forma como são avaliadas e vistas quando exercem uma função de poder. “Se é um homem que assume o poder, isso é visto como normal e as suas decisões são avaliadas de forma racional, se estão certas ou erradas, se são justas ou injustas. Se é uma mulher, o juízo é transportado para a própria pessoa. A decisão surge e é avaliada de forma subjetiva — porque ela é má, autoritária ou porque é simpática. Ora, isto acaba por ter um custo adicional e penoso para a mulher, que se vê frequentemente em conflito. Isto é um obstáculo para atingir o poder”.

As áreas em que a influência das mulheres está longe de ser equilibrada são as do poder político, apesar de liderarem três dos sete partidos, como é o caso de Catarina Martins, no Bloco de Esquerda, Assunção Cristas, no CDS e Heloísa Apolónia, líder mediática mas não formal de Os Verdes, e do poder económico. Apesar da legislação produzida, que pretende atingir um maior equilíbrio de género, há um tempo para a produção de efeito. Como se verificou com a política, em que uma década após a ação legislativa se atingiu um terço de deputadas na Assembleia da República.

Durante a primeira década após o 25 de Abril de 1974, a presença feminina na Assembleia da República foi praticamente irrelevante e em 2005 continuava a rondar apenas um quinto do total de lugares, como refere o documento da CIG-Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, “Igualdade de Género em Portugal – Indicadores-Chave 2017”. Com a aprovação da chamada Lei da Paridade, em 2006 a representação de mulheres na Assembleia da República passou de 21,3% em 2005 para 33% em 2015, ano em que se atingiu o limiar de paridade de acordo com o que está definido na Lei.

Nas autarquias locais obedece-se à lei da paridade nas listas, mas nas eleições autárquicas de 2017 os homens continuaram a ter a esmagadora maioria das presidências de câmara (276), tendo sido eleitas apenas 32 mulheres autarcas. Em 2013 eram apenas 23.

Três dos dez maiores municípios portugueses em termos de população têm presidentes de câmara mulheres, como é o caso da Amadora, com Carla Alves, de Matosinhos, com Luísa Salgueiro, e de Almada, com Inês Medeiros, todas do PS. E na autarquia mais populosa, Lisboa, a presidente da Assembleia Municipal é Helena Roseta. Nas capitais de distrito, Maria das Dores Meira (CDU) está no terceiro mandato na Câmara de Setúbal e Adelaide Teixeira conquistou a de Portalegre como independente.

A mudança nas empresas

No campo da economia e das empresas há um caminho para se fazer. “O que acontece muitas vezes é que, logo ao início, as mulheres vão para Letras e os homens vão para Ciência. Depois, isso vê-se nas carreiras profissionais. Outra coisa que acontece é que as mulheres são educadas de uma forma diferente. São educadas para ter menos ambição, menos auto-estima e mais vergonha. Mas isso tem mudado muito” disse Manuela Ferro, vice-presidente da Política de Operações do Banco Mundial ao Público.

Em julho de 2017, o Parlamento votou uma nova lei, visando as empresas públicas e cotadas em bolsa, segundo a qual a partir de 2018 têm de cumprir uma quota mínima do género menos representado nos conselhos de administração e nos órgãos de fiscalização. Como o poder é maioritariamente masculino, nas empresas públicas 33,3% dos lugares terão de ser ocupados por mulheres. Para as cotadas,
esse mínimo é de 20% e sobe para os 33,3% em 2020.

Em abril de 2017, a presença de mulheres nos conselhos de administração das empresas do PSI 20 era ainda de 14%. Na UE28 a média é de 23%. Entre os quase 400 administradores das cotadas, apenas 49 eram mulheres, ou seja, 12,4%.

A presença feminina na gestão e na liderança aumentou de forma consistente entre 2011 e 2016 (mais 2,3 pontos percentuais e mais 5,7 pontos percentuais, respetivamente), ainda que com uma subida mais ligeira nos anos mais recentes. Porém, das quase 600 mil funções de gestão nas empresas nacionais, dois terços são desempenhadas por homens. Nos cargos de liderança, a representação masculina é ainda mais acentuada (71%), segundo dados do relatório “O Género na Gestão e Liderança nas Empresas Portuguesas” da InformaDB, de Março de 2017.

Esmeralda Dourado, no Grupo SGC e no seu braço financeiro Interbanco, e Celeste Hagatong, que recentemente deixou a administração do Banco BPI, foram ao longo dos últimos 20 anos os principais rostos femininos na banca portuguesa. Hoje, as administrações financeiras, com exceção das principais seguradoras, começam a ter alguma preocupação com o género. No entanto, as mulheres ainda são remetidas para papéis mais secundários e para funções não executivas.

Mas como diz Sara Falcão Casaca, professora no ISEG, “largar o poder é sempre muito difícil. Nós temos que agir já, não podemos esperar 81 anos para que haja paridade nas empresas e 75 anos para que se acabem as desigualdades salariais relativamente às mulheres. Em Portugal, ao nosso ritmo, a estimativa é de que precisaremos de mais uns 41 anos para que a igualdade nas empresas se verifique”.

A vez da ciência

Existem muitas mulheres cientistas no início da carreira, nos doutoramentos e na investigação — representam 45% dos investigadores — mas os grupos de investigação, os institutos e as universidades continuam a ser, na maioria, liderados por homens.

“As mulheres têm que ser educadas para sentirem que conseguem, que é possível. E se não são educadas para sentirem que conseguem e que é possível, a dada altura, vão desistindo. Obviamente, que depois todas as nossas organizações, empresas e universidades estão muito organizadas de uma maneira masculina, no sentido que das leis, das regras, da organização, eles homens é que estão no topo, não é? Se assim é, no fundo todas estas regras, leis e organização são feitas pelos homens, são pensadas pelos homens”, referiu Leonor Saúde, Group Leader no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes.

Há porém sinais de mudanças mais profundas, como a nomeação de Mónica Bettencourt Dias para diretora do Instituto Gulbenkian da Ciência, que se junta a Maria do Carmo Fonseca, presidente do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes da Universidade de Lisboa e Maria João Valente Rosa, diretora do Pordata.

 

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