Arlindo Oliveira: Tecnologias atraem poucas mulheres (e era bom entender porquê)

O Instituto Superior Técnico está preocupado com o equilíbrio de género e quer atrair mais raparigas para algumas áreas de engenharia e para as novas tecnologias. O presidente, Arlindo Oliveira, falou-nos das iniciativas que o Técnico leva a cabo para tentar reverter as percentagens.

Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico.

Ainda há poucas jovens a considerarem uma carreira e formação universitária em muitas áreas de engenharia, mas também na informática. Se a carga cultural associada ao género ainda pode ter um papel a desempenhar no primeiro caso, nas novas tecnologias isso nem sequer é historicamente verdadeiro. É importante entender as causas para a baixa percentagem de alunas em cursos com elevados índices de empregabilidade e captar mais talento feminino, como nos explicou Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico, que nos falou ainda de work-life balance e de equilíbrio de género nas estruturas diretivas do Técnico.

Que iniciativas prepara o IST no sentido de promover o equilíbrio de género?
Temos um conjunto de ações de sensibilização, especialmente para as jovens do ensino básico e secundário, no sentido de mostrar que a engenharia e a área das tecnologias são muito interessantes para as mulheres, áreas onde existem muitas oportunidades que não estão a ser usadas plenamente por elas. Cerca de 30% dos nossos alunos são mulheres e gostaríamos de aproximar estes valores dos 50%. As engenharias informática, mecânica ou eletrotécnica têm percentagens muito baixas de alunas. Temos tentado também criar a ideia de que há muitos role models femininos através de iniciativas como prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, que atribuímos todos os anos a ex-alunas do IST que se distinguiram nas suas carreiras. Depois, aqui no IST, temos uma série de atividades vocacionadas para mostrar que as carreiras em engenharia são tão adequadas para uma mulher como para um homem. Antes, podia existir a ideia de que a engenharia de minas, por exemplo, era uma área muito dura ou que a construção não era adequada a mulheres, mas essas ideias mudaram muito, até porque as profissões também se modificaram muito nos últimos anos.  Penso que temos tido algum sucesso com estas iniciativas, mas a alteração tem sido muito lenta.

Além disso, temos ainda ações específicas para professoras e investigadoras do IST no sentido de promover a conciliação entre trabalho e família (que, apesar de tudo, sabemos não ser ainda uma realidade muito simétrica em termos de géneros): para além da licença de maternidade, damos mais um semestre sem aulas às professoras que foram mães há pouco tempo, para que possam recuperar as atividades de investigação que abandonaram durante os primeiros tempos da maternidade. Temos também uma creche no IST, que está aberta a pessoas de fora, mas cujas vagas esgotam, geralmente, com os nossos professores e funcionários.

E em termos de participação feminina nas estruturas diretivas do Técnico?
O esforço natural para atingir o equilíbrio de género, que fazemos sempre, é um pouco dificultado pelo facto de existir um enviesamento significativo também ao nível dos docentes — a nossa percentagem de professoras aproxima-se dos 30%. Na maior parte dos órgãos do IST esse equilíbrio é maior, talvez acima dos 30% de mulheres. O conselho pedagógico é presidido por uma mulher, há também várias mulheres no conselho de gestão (embora pudessem existir mais). Mas no conselho científico estão bem representadas. Temos atenção ao gender balance e sabemos que, por vezes, tem de ser adotada uma ação mais positiva para garantir essa representatividade. Quase todos os departamentos têm uma percentagem de professores ao mais alto nível que são mulheres. Essa é uma visão positiva. O importante é garantir que, se tivermos 30% de mulheres na base da carreira, não tenhamos menos do que isso no topo. Esse enviesamento seria inaceitável.

“A regressão de mulheres em carreiras ligadas à informática é curiosa, até porque a primeira programadora da História foi uma mulher e foram elas que dominaram esta profissão nas décadas de 50 e 60”, Arlindo Oliveira, presidente do IST

Como é que se capta talento feminino para os cursos de engenharia? Nas últimas duas décadas houve um aumento do número de alunas no IST…
Houve, mas muito focado em cursos que, tradicionalmente, já tinham bastantes mulheres, como as engenharias química, biológica ou biomédica. Mas continua a haver pouca penetração em algumas engenharias mais clássicas e na engenharia informática. Era muito importante percebermos por que razão a engenharia informática, onde não existe uma grande carga cultural de género, não é mais atrativa para raparigas. A regressão de mulheres em carreiras ligadas à informática é curiosa, até porque a primeira programadora da História foi uma mulher e foram elas que dominaram esta profissão nas décadas de 50 e 60. Depois houve uma mudança, que não se percebe muito bem qual foi, mas era interessante investigar e perceber o que levou a uma situação que hoje é global, não existe apenas em Portugal. Pode ter a ver com uma visão de que a informática está muito ligada a atividades lúdicas que não interessam tanto às raparigas, como jogos de computador. Neste momento, há uma enorme falta de profissionais qualificados nestas áreas. Como as mulheres chegam pouco a estas áreas, complica-se mais a captação de talento em geral.

Uma das questões de que se fala muito, relacionada com a carreira em tecnologias, é a da exigência de jornadas de trabalho muito longas e que isso estará a afastar as mulheres. Concorda?
Sim, fala-se muito disso. Mas não estou convencido de que as longas jornadas sejam muito mais marcadas nessa área do que em outras, como a advocacia ou o trabalho em consultoria de gestão, áreas muito exigentes e onde também se trabalha durante muitas horas. Não me parece que seja uma questão específica da tecnologia. Mas estamos a tentar criar uma parceria com as ciências sociais para tentarmos indagar porque é que algumas áreas como esta, em que a participação deveria ser mais igualitária entre géneros, não o é.