O que aprendemos em 4 anos como empreendedoras

Hoje a Executiva faz quatro anos! Foram quatro anos a dar palco a mulheres para quem a carreira é uma importante fonte de realização e a empreendedoras que diariamente tentam levar o seu negócio mais adiante. Também nós somos empreendedoras e queremos partilhar consigo as principais lições que aprendemos.

Maria Serina e Isabel Canha, fundadoras da Executiva.

Há quatro anos lançavamos o site Executiva.pt, o nosso primeiro projeto como empreendedoras, depois de uma carreira como jornalistas, editoras e diretoras de revistas de negócios e femininas. Desde então já realizámos 20 projetos, entre revistas, prémios, livros, conferências e até um curso e jantar vínico para executivas. Queremos dar ferramentas e role models a todas as mulheres para quem a profissão é uma importante fonte de realização e para tal procuramos dar respostas a todas as suas necessidades, quer seja saber como se chega ao topo das organizações, como se concilia a carreira e a vida pessoal e familiar, que cuidados ter na gestão do património ou como escolher um vinho num almoço de negócios.

Foram quatro anos muito intensos em trabalho, mas também em aprendizagem. Por isso, hoje que celebramos esta data histórica para nós, queremos partilhar consigo as principais lições que aprendemos como empreendedoras.

 

1.Fazem-se 1001 coisas em simultâneo o melhor possível

Quando estamos a iniciar um negócio, é muito difícil continuar a ser perfeccionista em todas as vertentes e em todas as frentes. Ter de deitar mão a tudo, porque não há recursos disponíveis para ajudarem no que precisa de ser feito, obriga a fazer tudo o melhor possível e a aprender a viver com a angustiante sensação de que talvez se pudesse ter feito melhor, se houvesse mais tempo. A célebre frase do Facebook “Done is better than perfect” só poderia ter sido criada por um empreendedor.

2.A experiência vale ouro

Sentimos que não estaríamos hoje a fazer a Executiva.pt da forma que as leitoras valorizam, se o site tivesse sido criado mal deixámos os bancos da universidade. O que aprendemos em três décadas, o que assistimos, o que testámos, o que errámos, as pessoas que conhecemos, os colegas que nos acompanharam, tudo concorre para o nosso projeto empresarial tal como ele hoje se desenvolve. Os empreendedores mais jovens podem dominar melhor os meandros das redes sociais, ou do marketing digital, mas as pessoas continuam a valorizar o que é feito com criatividade e profissionalismo. Criar boas relações com parceiros, procurar superar as expectativas, entregando sempre acima do que já se entregou antes, oferecer serviços ao nível de uma grande empresa, quando se é apenas uma nano startup, e saber colocar-se nos sapatos do outro quando se negoceia uma proposta comercial, ajudam a construir relações fortes e duradouras.

3.A paixão e o entusiamo resultam em vendas

Pela nossa equipa já passaram pessoas de grande valor para nos ajudarem na área comercial, mas naturalmente que ninguém consegue falar do projeto e das muitas ideias que queremos pôr em prática como nós. Foi na nossa cabeça que esta ideia maturou, fomos nós quem desenhou o modelo de negócio que a tornaria viável, foi o nosso dinheiro que foi aplicado para construir um site de carreira para mulheres para quem a vida profissional é uma parte muito importante da sua realização. A forma apaixonada como diariamente vivemos o nosso negócio faz parte do nosso ADN. Por muito competentes que sejam, por muito comprometidas e empenhadas que as outras pessoas estejam com o nosso projeto, não conseguem vendê-lo da mesma forma do que nós. Não é por acaso que a apresentação dos novos modelos da Apple era feita, não por um vendedor ou um marketeer, mas pelo próprio Steve Jobs.

4.Ideias novas trazem novos parceiros

Todos os anos procuramos lançar uma ou duas ideias novas. Desta forma, introduzimos novas secções no site ou realizamos novos eventos, o que nos permite não só manter vivo o interesse das nossas seguidoras, mas também captar o interesse de novos parceiros de negócio que se identifiquem com as novas temáticas. Felizmente, o nosso target, as mulheres que investem na sua carreira, abre-nos um imenso leque de possibilidades de projetos.

Ao longo destes anos realizámos 17 iniciativas: revistas em papel e digitais, duas edições da Grande Conferência Liderança Feminina, Conferência Mulheres na Tecnologia, Conferência Work and Life Design, prémios às Mulheres Mais Influentes de Portugal e edição de livros de liderança feminina. No nosso modelo de negócio, estas atividades paralelas permitem libertar os fundos necessários para mantermos no ar a Executiva.pt, diariamente atualizada, pois logo na folha de Excel percebemos que as receitas de publicidade do site ficam muito aquém do necessário para garantir a sua sustentabilidade.

5.Uma reunião nunca é uma perda de tempo

Ainda que conheçamos razoavelmente o mercado em que nos movemos, é fundamental uma reunião para perceber melhor as necessidades de um potencial parceiro. Sempre que possível, marcamos uma conversa antes de enviar uma proposta comercial personalizada e benéfica para ambas as partes. No meio de mil e um afazeres a disputar a nossa atenção, tentamos disciplinar-nos para todas as semanas marcar reuniões comerciais ou encontros que nos permitam estabelecer contacto com potenciais parceiros, entrevistadas ou colaboradores. Temos de manter a mente sempre viva e os olhos sempre abertos para antever tendências e conhecer novas pessoas. As oportunidades surgirão, por vezes de onde menos se espera. O conselho que é o título do livro Nunca Almoce Sozinho, foi adaptado aos recursos de uma startup: marcamos um pequeno almoço ou um café.

6.Disparar à toa é disparatado

Por muito que precisemos de parceiros para concretizar as nossas ideias, a nossa seleção é feita com base nas afinidades que identificamos entre eles e o nosso projeto. Desta forma, mesmo que os nossos interlocutores não nos conheçam bem antes de uma primeira reunião, rapidamente percebem que há pontos em comum entre as nossas marcas e que vale a pena analisar a proposta que deixamos em cima da mesa. Tudo o que se fizer diferente será pura perda de tempo: do nosso tempo e, pior, do do nosso interlocutor, que poderá nunca mais nos abrir as portas.

7.Há que tomar decisões difíceis

No primeiro ano, começámos do zero, com um investimento para recuperar. No segundo ano tentámos aumentar a estrutura para conquistar mais negócio e, no terceiro ano, reajustámos novamente a estrutura, com o objetivo de chegar aos lucros. A cada exercício, o interesse das empresas patrocinadoras cresceu e as receitas foram aumentando. Mas se não formos muito criteriosas com os custos, os resultados não aparecem. É preciso constantemente tomar decisões difíceis, porque não se pode perder o foco no objetivo último de uma empresa: o lucro. Sem rentabilidade, a nossa missão de ajudar a progressão profissional das mulheres não pode ser cumprida, a empresa não pode criar empregos e todo o sonho se desfaz.

8.A resiliência dá frutos

Raramente desistimos de uma empresa quando acreditamos que há potencial para nos juntarmos para concretizar um projeto. Como só procuramos parceiros com quem identificamos afinidades, vamos tentando adaptar as nossas propostas até que, finalmente, a nossa mais-valia é reconhecida e nos chamam para iniciar a negociação. Esse é o primeiro momento de uma relação que vai muito além do interesse comercial. Construímos relações de verdadeira parceria com as entidades que nos apoiam e isso é reconhecido no momento da renovação dos patrocínios.

9.Nunca perder o foco no que é importante

Querida empreendedora, esta é talvez a lição mais dura de aprender. Mas como prometemos, seremos completamente transparentes procurando transmitir-te o que de mais valioso aprendemos. Quase sempre, um empreendedor é alguém apaixonado por uma ideia, algo que faz muito bem ou de que sabe muito. No nosso caso, decidimos lançar a Executiva.pt porque este era o produto editorial que, enquanto mulheres, gostaríamos de ler: artigos com conselhos práticos para a carreira e histórias inspiradoras de empresárias, empreendedoras, médicas, advogadas, cientistas, artistas, desportistas, mulheres que agarram o seu destino, entram em feudos masculinos, procuram atingir todo o seu potencial, superando-se, e mudam a sua vida e as dos outros para melhor. O que mais gostamos de fazer? Conhecer estas mulheres, entrevistá-las, escrever artigos, imaginar livros como este que tens em mãos. Porém, como empresárias, sempre soubemos que esta atividade, que nos dá tanto prazer, repetimos, seria na sua maior parte feita por outros colaboradores porque nós teríamos de nos focar na sobrevivência da empresa: pensar em estratégias, imaginar novos projetos, negociar com parceiros e fornecedores, reunir com clientes. É importante perceber que, como empresárias, as nossas tarefas e prioridades mudam.

10.Planear antes de fazer

Na voragem de executar rapidamente as tarefas que temos pela frente, nalgumas ocasiões precipitámo-nos para decisões que não se revelaram as melhores. Começar a comunicar um projeto antes de ele estar completamente cristalizado na nossa mente, ou optar por uma plataforma de gestão de eventos sem ter dedicado o tempo necessário a perceber se oferece todas as funcionalidades de que necessitamos, pode dar-nos a sensação de que avançamos, mas mais tarde revela-se um sorvedouro de tempo e energia dispensados a corrigir a situação. Hoje preferimos adiar o momento de riscar a tarefa no papel, mas estarmos mais seguras quando avançamos.

11.É fundamental saber desligar

Enquanto donas do nosso negócio, os nossos dias de trabalho são muito intensos, com inúmeras solicitações de natureza diferente: a gestão da sociedade, a resposta a propostas que recebemos, a formulação de novo projetos e propostas de parceria que os viabilizem, as entrevistas para um livro ou os materiais gráficos para uma conferência. Somos as rainhas do multitasking, forma de trabalhar que tem a desvantagem de nos retirar a concentração numa só tarefa. De uma maneira geral, hoje quase todos os trabalhadores levam o trabalho na cabeça quando saem da empresa ao final do dia, mas para os empreendedores é ainda mais difícil desligar. Numa empresa em fase de arranque como a nossa, é inevitável que assim seja, mas é muito desgastante. Receamos ficar out porque não há mais ninguém in, e a empresa pode ficar em perigo. Não podemos correr esse risco.

Sentimos que o nosso cérebro precisa de descansar e de se ocupar com outras atividades para sermos mais criativas. Quanto mais embrenhadas estivermos nos problemas, mais difícil será encontrar a solução. E, por isso, obrigamo-nos a ter escapes que nos forcem a esquecer o trabalho durante umas horas. A Isabel encontrou o seu no tango argentino, a Maria nas caminhadas e a testar novas receitas de culinária.

12.As vitórias devem ser celebradas

Desde o primeiro patrocínio que conquistámos, criámos o hábito de celebrar as vitórias. Seja qual for o montante envolvido, sempre que soa a campainha imaginária da caixa registadora, festejamos. Organizamos um brunch com a equipa, permitimo-nos um pequeno mimo, como uma massagem ou uma manhã fora do trabalho para assistir a uma palestra que nos interesse ou marcamos um almoço a duas e brindamos! Há que saborear as vitórias para esquecer os obstáculos que foi preciso ultrapassar para as alcançar e, desta forma, ganhar ânimo redobrado para partir em busca da vitória seguinte.

Querida empreendedora, esperamos que a partilha destas nossas aprendizagens te possa ser útil e que encontres inspiração nas histórias das dez mulheres que te vamos apresentar. Não queremos terminar sem antes te deixar um conselho: começaste o negócio por paixão e é importante que mantenhas esse ânimo. Trabalha muito, mas diverte-te também! Mantém os pés assentes na terra e a cabeça apontada para o sol. Como dizemos entre nós, se apontarmos para o sol, mesmo que fracassemos, podemos chegar à lua. Desejamos-te altos voos empreendedores!

 

Este texto está publicado no livro O Sucesso Não Cai do Céu, que inclui entrevistas com 10 empreendedoras. Pode saber mais aqui.