Ana Paula Reis: De gestora a empreendedora e angel

Depois de 11 anos na multinacional Mars e 16 como empreendedora, Ana Paula Reis é hoje partner da Bynd Venture Capital, sociedade gestora de capital de risco que investe em startups nas áreas de Digital e Ciências da Vida, com ligação aos países ibéricos, e em plena pandemia lançou a BridgeWhat.

Ana Paula Reis é partner da Bynd Venture Capital.

Após uma carreira de mais de 12 anos em vários cargos corporativos em empresas multinacionais e 16 anos como empreendedora, enquanto cofundadora das startups SelfPlus e Seldata, em 2018 Ana Paula Reis juntou-se à Bynd VC como partner desta sociedade gestora de capital de risco que investe em startups nas áreas Digital e Ciências da Vida, com ligação aos países ibéricos. A Bynd Venture Capital, então denominada Busy Angels, foi fundada em 2010 como um grupo de business angels e evoluiu para uma sociedade de gestão de capital de risco, em 2015. A sociedade conta com um portefólio de mais de 30 investimentos ativos e três fundos sob gestão, sendo o terceiro um novo fundo de 10 milhões de euros que conta com investidores experientes com background diversificado (empresários, empreendedores, gestores, investidores) e de diferentes geografias (Portugal, Espanha, Alemanha, Suíça). Recentemente, lançou a BridgeWhat, uma plataforma digital que tem como objetivo impulsionar o crescimento sustentável das empresas, fazendo a ponte entre as necessidades destas e diversos especialistas.

Licenciada em Gestão e Administração de Empresas pelo ISCTE, Ana Paula Reis fez um MBA na Universidade de Navarra e completou um programa executivo na Harvard Business School Executive Education. Foi distinguida a nível regional como Investidora do Ano no South Europe Startup Awards, uma iniciativa que visa distinguir diferentes frentes do ecossistema de startups no sul da Europa.

Em entrevista à Executiva, a empresária e gestora revê as principais etapas do seu percurso e explica o que precisa de mudar para que mais mulheres actuem na área financeira e de investimento.

 

Após uma carreira de cerca de 11 anos na Mars, o que a levou a lançar-se como empreendedora? 

Depois de 11 anos na Mars, dos quais oito com responsabilidades directas em Portugal e Espanha, a participação em vários projectos europeus e a liderança das negociações de um dos principais clientes para o sul da Europa, surgiu a oportunidade de uma nova mudança. Ser empreendedora era algo que sempre quis fazer e sabia que iria acontecer.  A conjugação de uma série de factores, dos quais destaco a deteção de uma real oportunidade de mercado, o alinhamento de vontades de dois outros sócios com quem tinha uma forte complementaridade de visões, competências e experiências, para além de grande confiança pessoal, levaram-me a não hesitar e dar esse passo.

Confiança na capacidade de enfrentar desafios e superar adversidades — esse é um capital fundamental para alguém que se lança ao mercado com novas propostas e que necessita afirmar-se numa realidade muitas vezes adversa.

Em que medida a experiência que acumulava a preparou para ser bem-sucedida nessa nova missão? 

A experiência leva a um acumular de conhecimentos e competências de uma forma direta, com um natural ganho de confiança na capacidade de enfrentar desafios e superar adversidades. Esse é um capital fundamental para alguém que se lança ao mercado com novas propostas e que necessita afirmar-se numa realidade muitas vezes adversa.

Quais as principais diferenças entre trabalhar para outrem e para si própria? 

Trabalhar para si própria tem maiores exigências ao nível da autodisciplina, da necessidade de ter uma visão clara e consequente, suficientemente inspiradora e mobilizadora de outros para conseguir atingir os objetivos. É realmente um desafio acrescido uma vez que se trabalha sem a rede de segurança que traz uma organização estabilizada, em que os recursos estão em grande medida assegurados.

Qual o balanço que faz desta mudança? 

Esta foi realmente uma mudança profunda, transformadora que me permitiu um enorme crescimento pessoal e relacional. Faço um balanço altamente positivo, onde dei e recebi e onde aprendi com os bons e maus momentos.

Durante 16 anos foi empreendedora, tendo co-fundado a SelPlus e Seldata. Qual foi o investimento inicial e como se financiou?

O investimento inicial foi inteiramente realizado pelos sócios originais, em partes iguais, com as nossas poupanças. Já naquela altura, a maior fatia do investimento foi realizada na criação do sistema de gestão das equipas comerciais, o que contribuiu muito para o nosso sucesso.

Quais as fases mais importantes na concretização do negócio? 

Foram as que tiveram a ver com a constituição da equipa de sócios e as que levaram à concretização do primeiro negócio.

Que relação mantém hoje com essas empresas?   

Em 2016, juntamente com o meu sócio, decidimos vender as empresas ao primeiro player global do nosso setor. As empresas estavam com uma trajetória positiva, de crescimento, com uma gestão muito profissional e uma equipa altamente competente e dedicada. A integração num grupo multinacional, com grandes projetos de crescimento e muitos recursos, permitiam acelerar significativamente o crescimento das empresas, reter e desenvolver adequadamente os recursos e o seu talento. Vender foi uma decisão de negócio, que levamos a cabo numa perspetiva estratégica win-win. Hoje mantenho uma excelente relação com todas as pessoas da empresa, embora de um modo inteiramente informal.

Em 2018, juntou-se à Bynd Venture Capital, empresa que investe em startups nas fases de seed/early stage. Como elegem os projetos que apoiam?

Em 2018 integrei a Comissão Executiva e o Conselho de Administração da Bynd Venture Capital, entidade a que já estava ligada há alguns anos (na altura denominada Busy Angels), como advisor. A escolha dos projetos a investir segue um processo estruturado que passa por uma análise detalhada de cada projeto, à luz de critérios de investimento pré-estabelecidos. Aspetos fundamentais dessa análise são a equipa (a sua experiência e complementaridade), a dimensão do mercado em que se insere o projeto, a sua escalabilidade, o seu grau de inovação e componente tecnológica e a abordagem de negócio (e route-to-market). Em relação ao apoio prestado, este vai muito para além do capital e passa, sobretudo pelo aconselhamento estratégico e comercial, apoio nos processos de recrutamento e de angariação de novos fundos, o chamado fundraising. Os resultados alcançados relacionam-se com o sucesso das empresas participadas, traduzidos em níveis superiores de crescimento e valorização de mercado, permitindo exits com múltiplos significativos.

A BridgeWhat é um projecto que ajuda as empresas no seu desafio de crescimento, num momento em que este se encontra ainda mais ameaçado por transformações que vinham sendo operadas nos mercados clientes e fornecedores e que foram aceleradas pela atual pandemia.

Qual a missão da BridgeWhat?

A BridgeWhat é uma empresa que atua no nicho do crescimento, suportada em duas plataformas: digital e humana. A plataforma digital permite aos participantes acumular credenciais, publicar conteúdos, estabelecer ligações de negócio e obter conhecimento e contactos. A plataforma humana permite facilitar e acelerar as interações entre compradores e vendedores. Aos compradores, a BridgeWhat oferece perspectivas inovadoras de crescimento e facilita a interação com os vendedores; aos vendedores, este projeto oferece visibilidade, aumento da credibilidade, das suas competências comerciais e a promoção de negócios com compradores.

Como está a correr este projeto, lançado em plena pandemia?

Em Portugal, de acordo com dados da Pordata, a faturação média das empresas não cresceu entre 2008 e 2018. Por outro lado, em muitos casos, as empresas efetuam vendas sem qualidade, com margens reduzidas, sem foco no cliente e na sustentabilidade dessa relação. A BridgeWhat é um projeto que ajuda as empresas no seu desafio de crescimento, num momento em que este se encontra ainda mais ameaçado por transformações que vinham sendo operadas nos mercados clientes e fornecedores e que foram aceleradas pela atual pandemia. Ou seja, este é um projeto de grande atualidade, que tem vindo a ser reconhecido pelo mercado. Com apenas dois meses de vida, a BridgeWhat conta já com mais de 30 participantes e acelera o ritmo de novas entradas.

Quais os principais desafios enfrentados como empresária e como lidou com eles?

O maior desafio enquanto empresária tem a ver com a necessidade de obter resultados rápidos e ser eficaz na implementação das propostas de negócio, num contexto em que o mercado é altamente exigente e com fronteiras que estão muito para lá das meramente administrativas. O nosso mercado é global, com players muito qualificados e exigências que não se coadunam com processos de decisão lentos e com fraco sentido de urgência. Este é um tema em que o nosso país apresenta grandes lacunas, que cria muitos entraves a quem quer empreender e, por isso, precisa agir rapidamente.

No caso do setor financeiro, do investimento e financiamento, a presença feminina é ainda relativamente pouco comum, em ambos os lados da mesa: por um lado há poucos projetos liderados por mulheres e, por outro, o número de mulheres em lugares de decisão é ainda reduzido. O estabelecimento da normalização da diversidade nas mesas de decisão é absolutamente fundamental.

Em geral, as mulheres têm maior dificuldade em conseguirem obter financiamento. Na sua opinião, porque é que isso acontece e como é que essa dificuldade acrescida pode ser ultrapassada?

O mundo dos negócios é ainda um lugar onde predominam os homens e, por isso, as representações, linguagens e comportamentos associados a esse género, com os pré-conceitos que lhes estão necessariamente associados. No caso do setor financeiro, do investimento e financiamento, a presença feminina é ainda relativamente pouco comum, em ambos os lados da mesa: por um lado há poucos projetos liderados por mulheres e, por outro, o número de mulheres em lugares de decisão é ainda reduzido. O estabelecimento da normalização da diversidade nas mesas de decisão é absolutamente fundamental. O papel das famílias, do sistema educativo e dos media são factores a considerar, uma vez que são as entidades que podem reforçar as mensagens positivas de participação ativa das mulheres, fazendo-as acreditar nas suas reais capacidades e mostrando casos reais que demonstram essa possibilidade. As tão controversas quotas, são elementos muito importantes para essa normalização, tendo como objetivo final a sua extinção por deixarem de ser necessário.

Além da licenciatura, fez um MBA na IESE Business School e um programa executivo de Women on Boards, em Harvard. O que presidiu a esta decisão de apostar na formação?

A aprendizagem contínua é para mim uma necessidade e estas decisões são-me muito naturais. Entendo estes programas como uma forma de me manter atualizada e, por isso, fundamentais para o meu crescimento pessoal. Para mim foram sempre decisões naturais e mais espero vir a tomar no futuro.

No seu percurso houve algum erro que tenha cometido e que lições ele lhe deu?

No meu percurso cometi diversos erros mas, mais do que isso, o importante é errar porque se fez. É fácil não cometer erros: se não fizermos, não erramos — desperdiçamos e esse é o erro que não quero cometer. Quanto às grandes lições, essas têm a ver com a importância das pessoas de que nos rodeamos para minimizar o erro e, quando este acontece, para termos a capacidade de superar e até de melhorar por isso.

Como se imagina daqui a cinco anos?

O mais importante é continuar o meu caminho de crescimento e desenvolvimento pessoal, numa viagem continua com as pessoas que me têm a acompanhado, de quem gosto e admiro. O mais importante é desfrutar desse percurso e das companhias que fui e vou ganhando, mantendo o entusiasmo e a esperança de poder continuar a contribuir algo melhor. O resto, virá…

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