Ana Cantinho, a 3.ª geração à frente da Beltrão Coelho

Começaram na fotografia, mas hoje apostam em soluções integradas de managed print services e até em robótica de serviço. A busca pela inovação tecnológica é uma marca constante desta empresa familiar, que comemora 70 anos de vida em 2018, o mesmo ano em que Ana Cantinho assumiu a sua liderança.

Ana Cantinho, diretora-geral da Beltrão Coelho, na galeria de arte que a empresa criou nas suas instalações, em 2015.

A Beltrão Coelho é um exemplo de como uma empresa familiar, que já leva 70 anos de vida, adaptou o seu negócio ao avanço do mercado, da tecnologia e das necessidades dos consumidores. Com um negócio core alicerçado em equipamentos multifunções para escritório e soluções integradas de managed print services, a empresa familiar vai na sua terceira geração de líderes. Ana Cantinho, 45 anos, assumiu no início deste ano a direção-geral da empresa, logo após a Beltrao Coelho ter fechado 2017 com um volume de negócios de 7,7 milhões de euros, valor que prevê que atinja os 8 milhões no final deste ano. Mas a história da empresa, que hoje conta com 74 colaboradores, já vem de longe.

Da fotografia à robótica

Tudo começou ainda nos anos 40, com José Augusto Beltrão Coelho, avô de Ana Cantinho, que então trabalhava como funcionário dos serviços gerais na Embaixada da Suécia. A oferta de uma viagem à Suíça, com possibilidade de frequentar um curso de fotografia na Telko, então uma das maiores empresas mundiais de papel e filtros fotográficos, sugeriu-lhe a oportunidade de iniciar uma atividade comercial paralela ao emprego oficial. Assim, em 1948, a J. Beltrão Coelho nascia em Lisboa e, três anos mais tarde, o seu fundador decidia dedicar-se em exclusivo ao negócio dos equipamentos fotográficos. Nos primeiros anos a empresa viria a conhecer várias localizações na capital (Largo de Carmo, Rua dos Fanqueiros, Rua Nova do Almada e, em 1965, Rua Castilho). A partir de 1951, o empreendedor começou a não dispensar as visitas a feiras internacionais, que lhe permitiam manter-se a par das novidades em fotografia, e foi pela sua mão que, três anos mais tarde, os portugueses começaram a ter, pela primeira vez, contacto com marcas japonesas de material fotográfico.

Em 1961, José Beltrão Coelho começou a pensar na diversificação do negócio, passando a incorporar também equipamentos de cópia e papel eletroestático. Em 1975, e com as medidas de austeridade na importação dos produtos, a empresa passa a incluir no seu catálogo de produtos outras soluções a par da tecnologia da época, como microfilme, projetores de slides, calculadoras.

A passagem de testemunho para o filho, António, engenheiro de formação, começou a preparar-se em 1977. António Beltrão Coelho acabaria por suceder ao pai oficialmente em 1985, apostando fortemente na ampliação do portfólio de produtos, sempre com base nas últimas inovações tecnológicas, com calculadoras eletrónicas, retroprojetores, equipamentos para digitalização de documentação — foram a primeira empresa em Portugal a dispor desta novidade, em 1987 — máquinas fotográficas com LCD, fotocopiadoras e sistemas de escritório multifuncionais, já no final dos anos 90, ou fornecendo os primeiros quadros interativos para escolas públicas, já em 2008.

No início deste ano, António Beltrão Coelho deixou a empresa, passando o testemunho à filha, Ana Cantinho que, além da direção-geral, ainda assegura a direção financeira. A empresa da família é a sua casa há 22 anos e a sua missão de inovação e diversificação constante do negócio continua, mais rápida e exigente do que nunca, num mercado globalizado e competitivo. “Hoje em dia vendemos soluções tecnológicas”, diz Ana Cantinho. “Sempre nos pautámos pela excelência do serviço, não só pós-venda, como também no serviço que vem acoplado às soluções adaptadas ao cliente. Temos um departamento de software para desenvolver essas soluções à medida. Temos que nos diferenciar; batalhamos, essencialmente, contra a concorrência das multinacionais multinacionais.”

“O ano passado criámos um núcleo digital para pensar o que a empresa vai vender dentro de 5 ou 10 anos — até porque a impressão em papel irá acabar, tendencialmente.”

Para Ana Cantinho, para além de “manter o nível de prestação de serviços ”, o grande desafio da Beltrão Coelho é hoje “desenvolver novas soluções constantemente”, procurando simultaneamente a sustentabilidade do negócio com novas linhas de produtos. A robótica é, por isso, a mais recente aposta da empresa, iniciada este ano. A Beltrão Coelho é a representante exclusiva em Portugal da linha de robôs de serviço SunBot, que já podem ser vistos em eventos executando tarefas como “hospedeiras”. Mas o robô, produzido na China, é programável de acordo com as necessidades de vários tipos de negócio. Num hotel, por exemplo, pode informar os hóspedes sobre os locais de interesse turístico a visitar ou sobre os restaurantes mais próximos. E a diretora geral quer continuar a apontar radares para a tecnologia, procurando antecipar tendências. “O ano passado criámos um núcleo digital para pensar o que a empresa vai vender dentro de 5 ou 10 anos — até porque a impressão em papel irá acabar, tendencialmente. Criámos uma dinâmica durante 6 ou 7 meses e, no final, apresentaram à direção três produtos em que devíamos investir: um deles era a robótica, que fazia sentido para o nosso negócio. Até tem tido bastante sucesso, para algo que começou há pouco tempo e para o qual ainda estamos a desenvolver o know-how. Estamos a aprender muito com os potenciais clientes.”

Paixão pelo negócio de família

Desde os 12 ou 13 anos que Ana Cantinho tinha uma ideia fixa: trabalhar no negócio da família, conta. “Não pensei propriamente que um dia iria assumir a liderança da empresa, muito sinceramente. Queria era vir trabalhar para a Beltrão Coelho. Quis fazê-lo logo aos 18 anos, mas meu pai achou que tinha de estudar primeiro.” Por isso, formou-se em Organização e Gestão de empresas no ISCTE. “Era o mais se adequava para vir trabalhar para cá. Acredito muito nos estudos, mas acredito muito na experiência também.”

“Quando andava no 8º ano, vim trabalhar para cá nas férias como castigo por causa das más notas. Gostei muito. Era para ter sido um castigo… mas acabou por não ser.”

Em criança, já acompanhava o pai aos sábados, ao escritório da R. Castilho, em Lisboa, fascinada com tudo, das cadeiras giratórias às calculadoras de rolo. “Quando andava no 8º ano, vim trabalhar para cá nas férias como castigo por causa das más notas. O meu pai queria que eu viesse lavar tambores de fotocopiadoras, mas o diretor técnico lá o convenceu a porem-me na parte administrativa, onde se fazia o atendimento técnico e os clientes deixavam as calculadoras e as máquinas fotográficas. Trabalhei lá 15 dias, mas gostei muito. Era para ter sido um castigo… mas acabou por não ser.”

Durante o 12º ano, trabalhou ali em part time, de manhã, conjugando com aulas à tarde. “Gostava tanto que nem queria ir para a faculdade, a princípio. O facto de ser uma empresa que o meu avô construiu do nada, sempre me orgulhou imenso.” Ainda hoje esse é um dos fatores que lhe traz uma responsabilidade acrescida, diz. “De não cometer erros, não estragar o que foi feito durante 70 anos.”

Quando se formou, Ana manifestou logo a vontade de ir trabalhar para a área comercial, mas primeiro, e por conselho paterno, passou por todos os departamentos da empresa para ganhar uma visão transversal do negócio. “Fui ficando na parte comercial, até juntarmos as vendas com o marketing e sermos nós a tomar conta de toda a área de eletrónica de consumo.” A tímida Ana começou a ter que acompanhar os vendedores nas suas viagens de trabalho pelo país fora, visitando clientes, almoçando com eles. Aprendeu muito, nomeadamente a comunicar e negociar com pessoas que conhecia, recorda.

“Sou muito operacional e adoro meter as mãos na massa. Gosto muito de conseguir mudar procedimentos para um caminho melhor e mais eficaz.”

Do avô e do pai trouxe também lições de gestão importantes, mas herdou sobretudo o amor pela empresa e pela “família da Beltrão Coelho”, que também é a sua, diz, e que “também é preciso que esteja sempre feliz. Para isso é preciso superar obstáculos continuamente. A transparência e o respeito por todos os colaboradores é algo que está muito enraizado no nosso ADN.” É isso que continua a apaixoná-la no seu trabalho, diz. “Sou muito operacional e adoro meter as mãos na massa. Gosto muito de conseguir mudar procedimentos para um caminho melhor e mais eficaz. Gosto muito da mudança.”

Pensar o negócio e superar tempos difíceis  

Enquanto crescia como gestora foi também apostando na formação contínua, que considera muito importante na evolução profissional. “Gostei muito de fazer a pós-graduação em Retail Management, no ISCTE. Trabalhava o retalho, nessa altura, e deu-me uma outra visão, além daquilo que tinha aprendido na licenciatura. Não gostei mesmo nada dos meus anos da faculdade; o ambiente era de uma competição desmedida a que não estava habituada. Mas na pós-graduação gostei muito de poder aplicar a teoria no trabalho do dia a dia aquilo.” Hoje faz todas as formações e reciclagens de conhecimentos que pode. Acredita que, numa empresa como a sua, é preciso ter uma noção real dos processos de trabalho. “Gosto de saber fazer um pouco de tudo. Tenho que saber faturar, por exemplo, para depois exigir isso às minha colegas. Não posso exigir que as coisas sejam feitas em uma hora se precisam de duas ou três. Preciso de ter essa noção mais profunda de como fazer para poder opinar e decidir.” Ávida de novas aprendizagens, instituiu o núcleo do conhecimento, que se reúne uma manhã por mês para debater novas ideias e procedimentos, com um convidado interno todas as sessões. “Estas reuniões têm sido importantíssimas e muito produtivas.”

No que diferem a sua gestão da praticada pelo seu pai? “Sou muito mais emocional, tenho uma proximidade diferente das pessoas — o meu pai também tinha essa proximidade, mas eu estou cá há 22 anos e conheço a maior parte das pessoas desde essa altura, sinto-me uma delas. O meu pai estava mais fechado no gabinete.”

“Tivemos um período muito complicado, em 2009 e 2010, e dois ou três anos depois tivemos que dispensar pessoas, mas conseguimos superar essa fase. Saímos dele mais unidos, sempre com os valores da verdade e do respeito a pautarem-nos.”

Essa proximidade das pessoas sente-se também nas alturas de decisões difíceis, revela. “A parte mais terrível são os períodos de crise, em que existem despedimentos. Tivemos um período muito complicado, em 2009 e 2010, e dois ou três anos depois tivemos que dispensar pessoas, mas conseguimos superar essa fase. Saímos dele mais unidos, sempre com os valores da verdade e do respeito a pautarem-nos. Conseguimos começar de novo, aprendemos todos muito e essa aprendizagem foi muito grande para mim, sobretudo. Percebi que nada é eterno e que temos que olhar muito bem para os números de modo a conseguirmos antecipar uma desgraça. Custa muito, sofri imenso nessa altura, mas irmos todos ao fundo não é benéfico para ninguém e é preciso agir o quanto antes.”

Este ano a Beltrão Coelho já ganhou um prémio de responsabilidade social com o seu projeto de galeria de arte, que foi inaugurada, em 2015, nas instalações da sede da empresa. “Pensámos ‘por que não ajudar artistas?’ O projeto foi se desenvolvendo e hoje já temos propostas de exposições para os próximos 2 ou 3 anos. Há muita gente a querer mostrar o seu trabalho e a não ter espaço em lado nenhum.” Durante um mês ou mês e meio, a obra fica exposta sem custos ara o artista e a empresa assegura o catering no dia da inauguração. “Tem sido muito bom. Já surgiram daqui vários artistas que hoje fazem mostras coletivas por Lisboa.” Projetos que juntam arte, ilustrações e teatro, feitos por jovens, também já ali tiveram palco.

Com dois filhos, de 24 e 22 anos, Ana Cantinho não nega que gostaria muito de que eles tivessem vontade de assegurar a sucessão familiar da Beltrão Coelho. “Mas têm de o querer e de gostar muito da empresa. Já gostam muito e vibram já muito com todas as nossas conquistas… mas obrigá-los a isso, não.”

Hoje, quando a gestão da empresa lhe permite algum tempo livre, Ana Cantinho não dispensa os encontros com o seu grupo de amigos. Sempre que pode gosta de fazer workshops, sobretudo de doçaria e culinária, que a ajudam a combater o stresse, diz. “Gosto muito de ler, de  ir para a praia e tirar uma semana só para mim para fazer tudo isso. Estar sozinha, com o mar e os meus livros por companhia, é do melhor que há.”