Ana Cadete Pires: “A maioria das jovens investigadoras não tem um role model”

Ana Cadete Pires é uma jovem cientista que trabalha na Moderna, em Boston, e que está a criar uma plataforma para partilhar histórias de vida de mulheres na ciência. O seu objetivo é inspirar a nova geração de cientistas a lutar pelos seus sonhos e a seguir uma carreira nesta área.

Ana Cadete Pires é cientista na Moderna, em Boston.

Farmacêutica de profissão, Ana Cadete Pires estudou na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Formou-se em 2010 e em 2011 embarcou na aventura do INOV Contacto que a levou até uma pequena biotech em Madrid, a Sylentis. Saiu de Portugal no dia 16 de Janeiro de 2011 e não tem planos a curto prazo para voltar. É doutorada em Nanomedicina e Inovação Farmacêutica pelas Universidades de Santiago de Compostela, em Espanha, e Angers, em França, ao abrigo do programa Erasmus Mundus da União Europeia. Em 2016 foi para Boston fazer um postdoc no MIT e a empresa Novobiotic Pharmaceuticals, onde trabalhou num projeto financiado pela Gates Foundation no desenvolvimento de novas terapias contra a tuberculose. Desde Outubro de 2017 que é cientista na Moderna, onde desenvolve formulações com mRNA para tratamento da fibrose quística.
A sua ligação a Portugal mantém-se através da direção de um programa de mentoria da fundação IMFAHE que liga o talento emigrado aos alunos das universidades portuguesas.
Em Setembro de 2020 criou o The Non-Conformist Scientist (@ncscientist nas redes sociais) com o objetivo de dar forma a vários projetos. Em conjunto com seis investigadoras e comunicadoras de ciência criou o Ciência em 3 minutos, vídeos curtos onde explicam de forma clara e rigorosa temas associados à Covid-19. E está agora a preparar uma plataforma online para dar voz às histórias de vida das mulheres em ciência e, assim, inspirar a geração de jovens cientistas a progredir nas suas carreiras.
Decidi fazer carreira fora de Portugal porque queria que o meu trabalho de investigadora tivesse impacto na vida das pessoas e Boston é um dos maiores polos de biotech do mundo.
Porque decidiu fazer uma carreira fora de Portugal?
Porque queria que o meu trabalho de investigadora tivesse impacto na vida das pessoas. Boston é um dos maiores polos de biotech do mundo. Aqui, estou rodeada pelas universidades, startups e empresas. Há programas de transferência de tecnologia, sessões de network, eventos onde a ciência e o negócio vão de mãos dadas. É um lugar em constante evolução e onde há sempre alguma coisa para aprender. O capital de risco e o financiamento que existe em Boston permite que se criem empresas inovadoras com um potencial extraordinário. A maioria pode falhar, mas a que é bem sucedida pode mudar o mundo! Aqui, posso ambicionar progredir na minha carreira, quer como cientista ou, se a oportunidade surgir, noutra área.
O que mais gosta no seu trabalho? 
Acreditar que o medicamento que estou a desenvolver pode entrar em ensaios clínicos, vir a ser comercializado e mudar a vida de milhares de pessoas com fibrose quística.
Também gosto muito do trabalho de equipa e do compromisso e colaboração que existe entre todos. E de sentir que o meu trabalho é importante e uma parte fundamental do processo de investigação.
Porque criou o The Non-Conformist Scientist?
O NCScientist foi criado para dar forma e voz às minhas ideias. E para conseguir expressar o meu interesse em temas, como as mulheres em ciência ou o potencial do talento emigrado, e a minha preocupação em temas como a educação em Portugal e a comunicação de ciência durante a pandemia. Foi a maneira de conseguir falar por mim e começar a trabalhar em projetos que penso poderem ter um impacto na sociedade que me rodeia.
Sabe-se pouco da vida das mulheres em ciência, principalmente no que diz respeito às suas ambições, medos, conquistas, quedas e ajuda. Ter uma plataforma onde estas histórias são contadas pode inspirar a nova geração de cientistas a lutar pelos seus sonhos e a seguir uma carreira em ciência.
O que a motiva a lançar um projeto para contar as histórias de mulheres em ciência, como o She has a PhD
O nome ainda é provisório e a ideia está a ganhar forma, mas este projeto é uma das minhas prioridades para 2021! Durante o meu percurso profissional tive sempre a sorte de estar rodeada de mulheres com um carisma e uma carreira em investigação fora de série. Estas mulheres serviram-me de modelo, apoiaram-me e continuam a apoiar a minha carreira e estes projetos.
No entanto, a maioria das jovens investigadoras não tem um role model. Sabe-se pouco das vidas das mulheres em ciência, principalmente no que diz respeito à sua história de vida — as suas ambições, medos, conquistas, quedas e ajuda.
Se criarmos uma plataforma onde estas histórias são contadas podemos inspirar a nova geração de cientistas a lutar pelos seus sonhos e a seguir uma carreira em ciência. Ao mesmo tempo, estamos a dar visibilidade a estas mulheres, ao seu trabalho e a muitos projetos que têm em paralelo e que podem motivar muitas outras a fazer o mesmo.
O meu livro de eleição de 2020 foi o Becoming, da Michelle Obama. Retive especialmente esta ideia: “Even when it is not pretty or perfect. Even when it is more real than you want it to be. Your story is what you have, what you will always have. It is something to own”. Eu quero que essas histórias tenham impacto na vida e desenvolvimento profissional das jovens cientistas.
Houve algum momento específico em que uma dessas mulheres que tem como role model foi decisiva na sua vida? 
Ambas e em momentos diferentes da minha vida. A coordenadora do meu doutoramento é um furacão! Espanhola, feminista e lutadora, veio nos anos 80 para Boston onde foi investigadora no MIT. Tenho uma enorme admiração por ela. Durante o meu doutoramento sempre me incentivou a lutar pelos meus objetivos. Usava muito a expressão “Ana, no tires la toalla!” que em Português significa “não desistas!”. O seu apoio foi fundamental na minha decisão de vir para Boston fazer um postdoc. Depois de um ano no MIT, enquanto ponderava se continuava ou se dava o salto à indústria, a minha mentora disse-me: “faz o melhor para ti e para a tua carreira”. Uns meses depois, começava a trabalhar na Moderna. Quando olho para trás não consigo esconder o quão agradecida estou por ter tido mentoras que me empurraram para o sucesso, e não o contrário.
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