Ana Alves: “Os valores pessoais devem estar alinhados com os da empresa”

É assim que a responsável pela Direção de Marcas Próprias da Sonae MC justifica o sucesso de qualquer cargo de liderança. Sem este alinhamento as competências de pouco valem. Leia a entrevista com Ana Alves sobre carreira e tendências na distribuição

Ana Alves é diretora comercial de Marcas Próprias da Sonae MC.

Economista com mais de 20 anos de experiência em Fast-Moving Consumer Goods, metade dos quais do lado da indústria e outra metade na Grande Distribuição, Ana Alves vem desempenhando diversas funções nas áreas comerciais e de marketing. Está na Sonae desde 2008 e assumiu recentemente a Direção de Marcas Próprias da Sonae MC.

Começou a sua carreira na Pescanova. O que atraiu uma jovem economista para a Pescanova e quais os principais marcos dos seus 7 anos na empresa?
Na altura trabalhava numa companhia de seguros e tinha as contas de clientes espanhóis. A Pescanova era meu cliente. Acho que foi um namoro de parte a parte que nos juntou. A Pescanova foi uma grande escola para mim e marcou-me de forma decisiva enquanto profissional. O facto de ser uma empresa com bastante autonomia local do ponto de vista de desenvolvimento de produto e implementação “customizada” da estratégia de vendas, permite que as equipas cresçam e se desenvolvam muito mais do que por vezes acontece em algumas multinacionais onde o foco é maior na execução de diretrizes globais. Foi durante o meu percurso na Pescanova que reforcei a minha formação com uma pos-graduação em Marketing, que me permitiu abraçar uma carreira em zigue-zague: vendas – marketing – trade-marketing.

O que a levou a trocar a indústria pela grande distribuição?
Sempre tive curiosidade de saber como era estar sentado do outro lado da mesa, ter a possibilidade de influenciar diretamente os mercados, estar mais perto dos consumidores, e o Carrefour era meu cliente – o meu cliente preferido – e do namoro, uma coisa levou à outra.

No Carrefour aprendi que é preciso saber ser grande e é possível ter postura e atitude de liderança mesmo quando se tem a quota mais pequena de mercado.

Que principais aprendizagens levou da Pescanova e que lhe foram úteis na distribuição?
É uma enorme vantagem conhecer os dois lados. Perceber os objetivos de ambos e tentar conciliar o melhor dos dois mundos leva a que se consigam negociações muito benéficas para ambas as partes, porque às vezes não é difícil ir ao encontro do que o outro lado quer, só tem de se perceber. Leva-se a vantagem de saber pedir e saber dar em troca.

Porque teve uma passagem tão curta pelo Carrefour e o que de mais importante aprendeu com o grupo de distribuição francês?
Porque o Carrefour foi comprado pela Sonae MC um ano depois de eu ter entrado. No Carrefour aprendi que é preciso saber ser grande e é possível ter postura e atitude de liderança mesmo quando se tem a quota mais pequena de mercado. Também foi no Carrefour que tomei pela primeira vez contacto com o mundo fascinante das marcas próprias.

Muito tem mudado na grande distribuição desde que chegou à Sonae em 2008. Quais os principais desafios que este setor tem enfrentado?
O retalho alimentar em Portugal tem sido palco de uma enorme evolução e a Sonae MC tem acompanhado e, muitas vezes liderado, essa mudança, no que diz respeito à adaptação às novas tendências, novas formas de contacto com os clientes, novas formas de interagir com eles.

A população não cresce e os metros quadrados de distribuição organizada aumentam todos os anos. Aumenta a presença de concorrentes internacionais com fortes propostas de valor. Felizmente, a Sonae MC é uma empresa que se reinventa e renova as suas forças em ambientes competitivos. As equipas superam-se e trabalham todos os dias para entregar mais valor ao cliente, para serem melhores, e isso é muito bom!

Penso que o maior desafio que temos enfrentado no retalho alimentar, tem sido o de assegurar uma proposta de valor distintiva que evolui todos os dias para continuarmos diariamente a conquistar a preferência dos nossos clientes, ou melhor dizendo de cada um deles.

Recentemente, entrou um novo player no mercado. O que muda no mercado e de que forma a Sonae se preparou para gerir mais esse novo dado?
Portugal é um país onde o retalho é muito competitivo e desde cedo nos habituámos a concorrer com propostas de valor muito robustas. Temos em Portugal players de referência que respeitamos e a entrada de um novo contribui para incentivar a todos a melhorar continuamente.

Gostava [de fazer carreira internacional] mas nunca encontrei um desafio que me fizesse mais feliz e justificasse estar longe da família e das raízes.

Quais as principais tendências da grande distribuição e de que forma a Sonae se está a preparar para as acompanhar?
Falar de tendências é sempre entusiasmante e ao mesmo tempo frustrante porque está muita coisa a acontecer e muito depressa e é impossível enumerar tudo. Mas eu gostaria de falar em quatro delas que nos impactam diretamente: saúde,  sustentabilidade, conveniência e evolução tecnológica.

Assistimos a uma evolução muito rápida e permanente nos comportamentos de consumo: muda o que consumimos, quando e como o fazemos. Estamos todos mais informados e conscientes do impacto das nossas escolhas e este caminho, felizmente, não tem retorno e por isso acredito que vai ser determinante na evolução (também) do retalho.

As duas grandes preocupações/tendências que vemos presentes nos consumidores estão relacionadas com essa mesma consciência e materializam-se num consumo mais sustentável para si e para os outros. A procura por alimentos mais saudáveis equilibrados e também com menos impacto para o planeta é incontornável.

Por outro lado, a noção de que o bem mais escasso é o tempo, coloca na conveniência um papel determinante para o retalho alimentar. Temos de estar onde fazemos falta e no timing certo.

Finalmente, a evolução tecnológica, capacita-nos hoje como nunca para podermos responder a estes desafios com mais segurança, qualidade e eficiência.

O maior desafio que todos enfrentamos é sem dúvida sermos capazes de abraçar o progresso e tudo de bom que ele nos traz para fazermos escolhas responsáveis que assegurem a continuidade dos nossos valores.

Na Sonae tem desempenhando diversas funções nas áreas comerciais e de marketing. Qual o projeto/momento da carreira de que mais se orgulha?
Os momentos que recordo com mais orgulho (não orgulho no sentido vaidoso da palavra, mas de dever cumprido) são aqueles em que percebemos que impactamos positivamente a vida das pessoas com quem nos cruzamos; sejam eles colaboradores, parceiros (fornecedores) ou clientes. E, felizmente, tenho tido vários, mas trabalho todos os dias para que sejam muitos mais.

Trabalhando num grupo com a dimensão da Sonae nunca pensou fazer carreira internacional?
Pensar, pensei! E gostava, mas nunca encontrei um desafio que me fizesse mais feliz e justificasse estar longe da família e das raízes. Mas quem sabe o dia de amanhã?

Tempo não sobra, mas uma das características femininas é mesmo esta capacidade de esticar o tempo e organizá-lo de forma a chegar ao que importa!

Quais as competências que considera fundamentais para ser uma referência na sua função?
É uma excelente pergunta, mas antes das competências vêm os valores. Considero absolutamente crítico para o sucesso desta e de qualquer função de liderança que os valores pessoais estejam alinhados com os da empresa; que o propósito individual continue para o propósito comum, senão as competências de pouco vão valer.

Ao nível das competências destacaria algumas (sem ordem específica): liderança, trabalho em rede, auto-conhecimento, profundo conhecimento do cliente e dos mercados, domínio de toda a supply chain e uma curiosidade insaciável.

Quantas pessoas tem sob a sua alçada e qual o alcance da sua atual função na Sonae?
Esta é uma pergunta cuja resposta não tem leitura direta porque as equipas não se medem por tamanho e porque na Sonae MC trabalhamos em rede, isto é, influenciamos diretamente o trabalho uns dos outros numa base diária e cada vez menos hierarquizada. De qualquer modo, e para não ficar sem resposta, a equipa de Marcas Próprias é hoje constituída por aproximadamente 30 pessoas que asseguram todo o desenvolvimento de produto, lançamento e acompanhamento do seu ciclo de vida.

Imaginamos que os seus dias sejam passados em muitas reuniões, que impliquem muitas deslocações e pouco tempo para pensar e planear. Como se organiza para conseguir gerir todas essas exigências?
Felizmente, também isso está a mudar e com o tempo aprendemos a reservar tempo para pensar e planear porque sem ele não acrescentamos muito valor. Tentamos incutir uma rotina mais flexível e fazermos reuniões presenciais quando são efetivamente necessárias. E essas são na sua maioria feitas justamente para pensar e planear em conjunto. Tempo não sobra, mas uma das características femininas é mesmo esta capacidade de esticar o tempo e organizá-lo de forma a chegar ao que importa!