Alexandra Almeida: “Tenho orgulho do impacto do BEI no desenvolvimento do nosso país.”

Tudo começou com um estágio internacional, em Nova Iorque, na Standard & Poors, de onde transitou para Londres na mesma companhia. Desde 2018 é gestora de Operações sénior – Instituições Financeiras – Europa Central e Sudeste do Banco Europeu de Investimento, na sede, no Luxemburgo.

Almeida é gestora de Operações sénior – Instituições Financeiras – Europa Central e Sudeste do Banco Europeu de Investimento (BEI), desde 2018, na sede no Luxemburgo.

Alexandra Almeida é gestora de Operações sénior – Instituições Financeiras – Europa Central e Sudeste do Banco Europeu de Investimento (BEI), desde 2018, na sede no Luxemburgo.  Anteriormente, na instituição criada pelo Tratado de Roma, em 1958, e que é o braço financeiro da União Europeia, exerceu funções de chefe do Gabinete de Representação do BEI em Portugal, e gestora sénior de Transações de Project Finance/Parceiras Público-Provadas.

Iniciou a carreira em 1998 como economista júnior – América Latina na Standard & Poor’s MMS, em Nova Iorque, ao abrigo do Programa de Estágios Internacionais Inov Contacto, tendo posteriormente assumido o cargo de economista – União Europeia, em Londres, como responsável pela análise macroeconómica de Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e Finlândia. Posteriormente, integrou o Banco Espírito Santo, onde exerceu funções nas áreas de Corporate Banking – Grandes Empresas e Derivados – Midcaps.

Natural de Fafe, licenciou-se em Economia em 1997 na Faculdade de Economia do Porto, formação a que acrescenta uma Pós-Graduação em Finanças, pela Faculdade de Economia da Universidade Católica Portuguesa, e a formação executiva Authentic Leader Development Program, na Harvard Business School, nos Estados Unidos, e em 2019 o Gender Diversity Program do INSEAD.

Actualmente, é ainda de tesoureira do clube de natação do BEI, dá apoio aos Representantes de Pais da Secção Portuguesa na Escola Europeia do Luxemburgo e participa activamente na defesa da Igualdade de Oportunidades, Diversidade e Inclusão sendo membro do comité do BEI nesta matéria. Casada e mãe de três filhos, concluiu recentemente o 3º ano de Piano no Conservatório do Luxemburgo. Nos tempos livres que consegue encontrar, faz exercício uma vez por semana, viaja e tenta pôr a leitura em dia.

Quais eram os seus planos de carreira quando terminou a licenciatura? 

As minhas aspirações profissionais iam do mais concretizável, como trabalhar na área de contabilidade ou numa agência bancária na minha cidade de origem, Fafe, ao mais audaz, como integrar-me numa organização multinacional que me permitisse conhecer o mundo.

Em que circunstâncias e porquê estagiou em Nova Iorque? 

Em 1997 fui selecionada para participar no lançamento do programa pioneiro de estágios internacionais, hoje INOV Contacto. Num golpe de sorte, surgiu uma posição oferecida por uma das mais prestigiadas agências de rating mundiais, a Standard & Poor’s, numa das suas equipas de acompanhamento da América Latina, no coração de Wall Street em Nova Iorque. Como tinha um bom nível de espanhol, além de inglês, francês e o meu português nativo, bem como a licenciatura em Economia, foi um match perfeito.

O meu estágio tinha uma duração de nove meses e a minha função era desenvolver uma parte de conteúdos de um novo portal financeiro da S&P, refazendo as bases de dados macroeconómicos dos vários países sob acompanhamento da equipa – desde o Brasil até ao México – permitindo aos analistas financeiros uma atualização de informação crítica para os mercados financeiros em tempo real. No final de trêsmeses de estágio atribuíram-me o prémio “Cashflew Award” que distinguia o mérito dos colaboradores, do qual me orgulho até hoje.

Antes do final do estágio do INOV Contacto manifestei o interesse em manter-me na S&P e convidaram-me para ficar com eles como analista macroeconómico no escritório de Londres onde precisavam urgentemente de mais recursos. Era mais um sonho tornado realidade.

Como correu a adaptação a um novo país e que recordações guarda desse período? 

Viver em Nova Iorque foi muito especial. Por um lado, tive a grata companhia de outros estagiários INOV Contacto e beneficiei do seu espírito de entreajuda e excelentes momentos de convívio. Entre alguns desafios posso destacar o elevado custo de vida.  Tinha de gerir um orçamento apertado – partilhava um T1 com outros dois estagiários, mas vivíamos no centro de Manhattan. Nova Iorque era ainda conhecida pelos elevados níveis de criminalidade e fui mesmo vítima de um carteirista. Mas o episódio permitiu-me sentar num icónico automóvel da NYPD (New York Police Department). De repente senti-me como protagonista de um filme e rapidamente ultrapassei o sucedido. De resto, espantava-me a facilidade com que encontrava pessoas famosas ou do meu pequeno círculo de amigos em cada esquina. Costumava dizer que afinal Nova Iorque é uma cidade mais pequena que Fafe. Frequentemente, lembro-me com muita nostalgia das Torres Gémeas onde almoçava ou fazia compras com regularidade, porque ficavam mesmo por trás do meu escritório, e a cuja destruição assisti pela televisão apenas três anos mais tarde

Depois do estágio, quais as oportunidades que surgiram? 

Antes do final do estágio do INOV Contacto manifestei o interesse em manter-me na S&P e convidaram-me para ficar com eles como analista macroeconómico no escritório de Londres onde precisavam urgentemente de mais recursos. Era mais um sonho tornado realidade.

Na capital britânica, que funções desempenhou?

Inicialmente, o trabalho era semelhante ao de Nova Iorque, mas agora focado nos países europeus. Paralelamente, atribuíram-me a responsabilidade pela análise macroeconómica de Portugal e Espanha, funções mais tarde alargadas à Irlanda, Finlândia e Itália. Foi neste papel que assisti ao nascimento da moeda única, o Euro, e aos gloriosos anos em que Portugal era considerado um dos mais claros casos de sucesso económico da União Europeia. Infelizmente, também assisti de perto à tomada de decisões de política económica que contribuíram para o início da crise em Portugal a partir de 2001.

Residi em Londres até ao final de 2000, tendo assistido às celebrações de passagem para o terceiro milénio nesta cidade. Foi nesta ocasião que se construíram algumas infraestruturas especiais como o London Eye ou o Millennium Dome.

Em 2001 integrei a equipa das Grandes Empresas Norte do Banco Espírito Santo, no Porto. Após 4 anos no BES começava a sentir necessidade de uma nova internacionalização. A oportunidade surgiu através de um anúncio de jornal português. O BEI procurava um especialista para a sua equipa de operações em Portugal.

Depois regressou a Portugal. Porquê?

No final de quase três anos de experiência internacional ambicionava regressar a Portugal, sobretudo para reconciliar a vida profissional com a pessoal. O meu marido tinha feito um percurso semelhante ao meu. Conhecemo-nos no curso de Economia e fez o estágio INOV Contacto Contacto em São Paulo, no Brasil, no grupo Caixa de Geral de Depósitos. Posteriormente, transferiu-se para Londres, onde coincidimos durante um ano, mas foi desafiado a regressar a Portugal para integrar a equipa líder de capital de risco em Portugal nessa altura, a Inter-Risco do Grupo BPI. Não fazia sentido eu continuar em Londres e procurei um projeto interessante em Portugal.

Assim, em 2001 integrei a equipa das Grandes Empresas Norte do Banco Espírito Santo, no Porto. Sei que a reputação do BES não é hoje a melhor. Mas na altura era das equipas mais fortes e inovadoras no segmento de serviços para empresas do país, com profissionais do mais elevado nível. Geri então operações com clientes como a Sonae, a Sogrape, a Unicer, a Lactogal e muitas outras empresas de grande impacto no Norte de Portugal. Também colaborei durante seis meses na equipa de produtos estruturados.

Como surgiu o convite para o BEI? 

Cruzei-me com o BEI durante as minhas funções no BES. O BES cofinanciava ou prestava garantias ao BEI em várias operações. Após 4 anos no BES começava a sentir necessidade de uma nova internacionalização. A oportunidade surgiu através de um anúncio de jornal português. O BEI procurava um especialista para a sua equipa de operações em Portugal. Uma vez mais, foi um perfect match: eu tinha as competências e a experiência local e internacional que o BEI procurava. Além do mais qualificava em particular para os objetivos de recrutamento de profissionais do sexo feminino onde ainda hoje o BEI tem um enorme desafio.

A partir da sede do BEI no Luxemburgo, e durante quatro anos, dediquei-me ao financiamento de grandes projetos em áreas tão diversas como indústria, por exemplo os upgrades ambientais da Portucel, da instalação de cogeração pela GALP Energia, projetos no sector público como a rede do Metro do Porto, ou ainda o financiamento de energia renovável como os maiores parques eólicos do país ou o repowering de grandes hídricas. Também liderei financiamentos das redes energéticas nacional e dos arquipélagos da Madeira e Açores ou o contributo do BEI para a reconstrução da Madeira na sequência da catástrofe natural – a aluvião – de 2010. Em 2008 fui nomeada chefe do Gabinete do BEI em Portugal.

Sob a minha responsabilidade tive projetos do sector rodoviário, saúde, educação, energia (incluindo renovável), água e saneamento. Foram os projetos em que estive envolvida que melhoraram a mobilidade em Portugal, contribuíram para a produção de energia de fontes renováveis ou para a modernização de escolas. Tenho muito orgulho neste trabalho e do enorme impacto do BEI no desenvolvimento do nosso país.

Foi a sua primeira função de liderança?

Sim, foi a primeira experiência de liderança “vertical”, uma vez que há muito exercia a chamada liderança “transversal”, coordenando as equipas multidisciplinares internas de financiamento. No BEI a equipa de projeto é constituída pelo especialista de financiamento, um engenheiro, um economista, um jurista e um especialista de risco de crédito. Por vezes pode incluir também consultores externos. Em Lisboa, o BEI tem um pequeno gabinete de representação que desempenha uma função crítica de ligação entre a casa-mãe e um dos seus principais mercados. Em termos relativos Portugal continua a ser um dos países que mais beneficia da atividade do BEI (volume de empréstimos per capita).

Quando transitou de Portugal para o Luxemburgo? 

Em 2012, com a crise soberana, o BEI necessitava de mais recursos na área de acompanhamento de financiamentos prestados. Foi nessa altura que integrei a equipa de Project Finance, tendo assumido a gestão de uma carteira de operações de mais de EUR 5bn. O BEI é um dos principais financiadores de infraestruturas em regime de PPP/Project Finance. Sob a minha responsabilidade tive projetos do sector rodoviário, saúde, educação, energia (incluindo renovável), água e saneamento. Entre os meus principais clientes, poderiam encontrar-se a Brisa, a Ascendi, a EDP ou grupos internacionais como a Engie, a Meridiam, a Macquarie, a Enel ou a Vinci.

Neste momento, sou responsável por linhas de financiamento de PME, Midcaps e municípios na República Checa e Eslováquia através de empréstimos intermediados por bancos locais. Algo equiparável aos financiamentos da IFD, a nossa Instituição Financeira de Desenvolvimento. Também desempenho um papel de aconselhamento interno, integrando grupos de trabalho que desenvolvem propostas estratégicas do banco, modernizam os processos e procedimentos, e promovem a adoção de melhores práticas.

O que mais apaixona no que hoje faz?

O BEI é a maior instituição financeira multilateral do mundo, com um papel fundamental no financiamento de grandes projetos de infraestruturas, inovação, ambiente, mas também no financiamento de PME em toda a União Europeia e no seu exterior. Acreditar que posso dar um pequeno contributo para um mundo melhor, financiando projetos com impacto acelerador da transição para uma economia mais verde e socialmente mais equitativa, ou com efeito impulsionador de crescimento e desenvolvimento económico, ou ainda para a criação de emprego ou valorização do capital humano. Foram os projetos em que estive envolvida que melhoraram a mobilidade em Portugal, contribuíram para a produção de energia de fontes renováveis ou para a modernização de escolas. Tenho muito orgulho neste trabalho e do enorme impacto do BEI no desenvolvimento do nosso país.

Qual o país onde mais gostou de viver e trabalhar? 

Estranhamente, Portugal! Adoro o nosso país: o clima, o mar, a gastronomia, a proximidade da família e amigos. Sinto muito a sua falta e não excluo uma nova temporada “em casa”.

Ser ultrapassada em promoções de carreira, em padecer de um grande diferencial de salário face aos meus colegas, ser desfavorecida na hora de ganhar visibilidade ou na perda de oportunidades de formação relevante, entre outros? Sim, já experienciei tudo isso. Não podemos esquecer que herdámos um sistema complexo de iniquidades, muitas vezes subtis, enraizadas na cultura e processos das organizações ou fora delas.

Qual foi o maior desafio profissional e porquê?

Acho que eu meu maior desafio ainda está para chegar. Sou muito ativa e gosto de me expor a novos desafios permanentemente. Focalizando no presente, o meu maior desafio é dar mais destaque ao ângulo social ao nível de estratégia do BEI a par dos objetivos climáticos que são a prioridade número um. Estes objetivos estão enquadrados no âmbito do financiamento sustentável, ou seja, recordar que qualquer que seja a atividade que desenvolvamos, há aspetos de carácter ambiental, social e de governação que devemos acautelar e / ou promover. Contudo, isto requer uma visão global, alterações de práticas de gestão, comportamentos e mentalidades. Outro desafio, mas este é permanente, é contribuir para a modernização do próprio BEI para que possamos melhorar a nossa capacidade de resposta, assegurar a nossa relevância e exponenciar o nosso impacto.

O que de melhor absorveu de cada uma das diferentes culturas em que trabalhou?

Dos Estados Unidos, a inovação; do UK o rigor analítico; de Portugal a habilidade comercial, a cortesia, o humanismo; do Luxemburgo o multiculturalismo, o debate de ideias e a inclusão.

Alguma vez sentiu alguma discriminação ou incómodo por ser uma líder feminina na área financeira, onde escasseiam?

Estamos a falar de ser ultrapassada em promoções de carreira, em padecer de um grande diferencial de salário face aos meus colegas, ser desfavorecida na hora de ganhar visibilidade ou na perda de oportunidades de formação relevante, entre outros? Sim, já experienciei tudo isso. Não podemos esquecer que herdámos um sistema complexo de iniquidades, muitas vezes subtis, enraizadas na cultura e processos das organizações ou fora delas.

Dito isto, tento usar a minha experiência para influenciar mudanças nesta área, designadamente no BEI. Como tal, desde há quase dois anos sou membro do Comité para a Igualdade de Oportunidades (COPEC), e colaboro regularmente com as redes internas ConnectedWomen, LGBTI+ e EnAble. Estive na origem, por exemplo, da ideia do prémio “Women for the Future” do BEI que distingue anualmente as mulheres que se destacam pelo seu desempenho no BEI. No ano passado, a distinção foi entregue pelo primeiro ministro Luxemburguês Xavier Bettel e pelo vice-presidente do BEI Alex Stubb, ex-primeiro-ministro da Finlândia. Também colidero um programa de trabalho pioneiro que tenta alargar o 2X Challenge aos países da União Europeia. O 2x Challenge é uma iniciativa das Instituições Financeiras de Desenvolvimento do G7 para mobilizar USD 3bn de financiamento para investimentos gender-smart, isto é, aumentando o acesso a financiamento de women-owned, women-led e women-supporting enterprises em países em desenvolvimento ou emergentes. Dito isto, também me é muito cara a inclusão de pessoas portadoras de deficiência e mantenho um papel ativo nesta capacidade.

Para si, o que é melhor em Portugal do que em qualquer outra parte do mundo?

A reconciliação de tantas coisas distintivas num país tão pequeno: a hospitalidade, a gastronomia, o clima, a música, a diversidade cultural e artística, o património histórico, as praias de areia dourada, os rios, o comércio.