A agenda de… Cristina Albuquerque

É COO e CFO da SAK Project, startup que produz caneleiras de futebol inquebráveis em campo que são usadas, por exemplo, pela selecção francesa que se sagrou campeã do mundo. A forma como ocupa os seus dias de trabalho são lições de gestão de tempo.

Cristina Albuquerque já definiu uma promessa de reentré: praticar exercício físico, retomando o hábito que tinha no Brasil, onde jogava voleibol na praia.

Licenciada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, Cristina Albuquerque concluiu em 2011 o MBA do Insead em Singapura, que lhe “abriu portas e permitiu ter uma experiência internacional única e enriquecedora”. Começou a sua carreira profissional como gestora de fundos de capital de risco, área em que se manteve por sete anos. Durante quatro anos trabalhou no Brasil, numa grande empresa de retalho e e-commerce, sempre na aquisição e business development de empresas.

“Sempre gostei de apoiar o crescimento das empresas, mas sentia a falta de fazer crescer um negócio com as minhas próprias mãos”. Foi essa veia empreendedora que a levou até à SAK Projectstartup que produz caneleiras de futebol inquebráveis em campo que hoje são usadas por inúmeros jogadores de topo, desde os grandes clubes nacionais à seleção francesa, que se sagrou campeã do mundo usando a nossa proteção. “Sempre tive vontade de ser empreendedora, mas na verdade nunca soube se teria coragem… até que tive”. No início de 2017, em conjunto com a irmã, Madalena Albuquerque, que é hoje CSMO da SAK, juntou-se a uma empresa em fase de crescimento, em que pudesse investir e acrescentar valor. “Nunca imaginei que hoje seríamos as duas, juntamente com o fundador, CEO e responsável por Inovação, Filipe Simões, a equipa de gestão de uma startup, possivelmente a mais inovadora no mundo do desporto.”

Eis como são vividos os dias de trabalho de Cristina Albuquerque.

 7h00

O meu dia começa cedo. Julgo que o de todos os pais começa cedo e com o mesmo propósito: conseguir com sucesso acordar e preparar os filhos para os levar à escola. Digo-o com prazer, claro, até porque desta forma tomo sempre o pequeno-almoço na melhor companhia: a do meu filho de quase três anos.

Brevemente, ambiciono levantar-me mais cedo para fazer exercício. Promessas de reentré que espero cumprir. Praticar exercício físico era um hábito que tinha no Brasil, onde jogava voleibol na praia pelo menos duas vezes por semana. Em setembro pretendo voltar a fazer exercício, pelo menos correr à beira rio.

8h15

Esta é a hora de deixar o Duarte na escola e esta viagem de ida ao colégio tem tido ultimamente uma banda sonora no mínimo caricata: o hino nacional. Não somos republicanos, mas desde o Mundial que o Duarte pede para ser esta a música que vamos a ouvir no carro, e já a canta do princípio ao fim. Não lhe consigo dizer que não e ultimamente sinto-me mais patriota!

A ida desde o colégio ao trabalho já tem um tom diferente: ora ouço audiobooks sobre cultura empresarial ou gestão de empresas, ou ouço no YouTube vídeos como os do Simon Sinek, com temas como liderança, propósito, etc, ou TED talks, que me inspiram para o meu trabalho.

Muitas vezes, começo logo a trabalhar no carro, reunindo por chamada com a Madalena, que já vai mais avançada no dia por estar na Suíça, e discutimos os mais variados temas da empresa.

9h00

O café é essencial para começar o dia. Os dias de uma executiva de uma grande empresa são bastante diferentes dos de uma executiva de uma startup. Sem retirar o mérito às restantes, numa startup os dias não são lineares e nem sempre (a maior parte das vezes) estamos a trabalhar unicamente nas áreas que nos estão afetas.

A segunda-feira é, normalmente, o dia da semana que segue melhor o planeado, pois tiro os primeiros 30 minutos para olhar para o plano da semana que faço na sexta-feira ao fim do dia ou no domingo, ver as encomendas de clientes, entrar nos bancos, dar uma vista de olhos nas vendas no nosso software de gestão. Ponho-me a par das notícias do mundo empresarial e agora também do desporto, já que somos uma empresa desse mundo. Há quem utilize aplicações, mas eu giro a minha semana com uma lista de Excel, organizada pela data de entrega e sempre com referência à pessoa de interação para determinado assunto.

Às segundas-feiras, tenho sempre reunião de operações – em que reúno por videoconferência com os responsáveis por customer service, produção e supply chain– e uma reunião dedicada à área financeira da empresa e à gestão de recursos humanos.

A terça-feira é o dia da reunião de CE como chamamos à equipa de gestão. Reunimos remotamente e discutimos temas desde o lançamento de novos produtos, a novos clientes, a update de vendas ou financeiro, novos contratos, e tantos outros.

Em particular, desde que assumi a área de operações no início do ano, tento estar dois dias por semana em Viseu, onde a SAK tem sede, e nesses dias o planeamento é mesmo impensável. São dias fora da secretária, em que alterno entre os chapéus financeiro, operações e RH, conversas com colaboradores, tomamos decisões de Operações, revemos temas financeiros. Acabo por pôr o trabalho em dia, como os emails ou documentos, durante as viagens de comboio: sempre são quase 3 horas de Lisboa a Viseu (ou melhor, Nelas).

12h00

Depois da agitação matinal de gerir os assuntos urgentes ou imprevistos que vão surgindo e após as reuniões, chega a hora de produzir “a sério”. O meu papel na SAK é o de gestão de operações, financeira e de recursos humanos, áreas para as quais temos objetivos diferentes. Somos uma equipa em crescimento, há um ano e meio éramos 8, hoje somos 18. Tenho dado muito foco à criação de uma cultura, temas como colaboração, comunicação ou accountability são essenciais para conseguirmos crescer. Em Operações, o tema número um é ter capacidade para responder à crescente procura pelas nossas caneleiras – sendo um produto premium, o foco está no cliente, por isso a qualidade em primeiro lugar, e, em paralelo, melhorias de processos, controlos e eficiências. Não menos importante, é estar em cima da situação financeira, em particular numa startup, a gestão de tesouraria não pode ser negligenciada.

Como trabalhamos em open space, muitas vezes acabo por fazer brainstorming com a equipa de marketing e vendas, temas variados como a nossa loja online, campanhas nas redes sociais, parcerias com jogadores ou clubes relevantes ou conteúdos a produzir, fazem parte do dia-a-dia.

13h30/14h00

Aproveito a hora de almoço para manter o contacto com os meus amigos ou para fazer networking, mas pelo menos uma vez por semana almoço com a equipa de Lisboa. Temos uma relação muito informal, não há nem pode haver barreiras entre a equipa e a administração. É importante que todos sintam que são parte da equipa e que a SAK só cresce graças ao seu contributo diário. A vantagem de trabalhar numa startup é que os resultados do nosso trabalho são visíveis quase diariamente e todas as conquistas do coletivo são também conquistas de cada um.

Outras vezes, aproveito para tratar de assuntos mais pessoais. Felizmente, temos o escritório no centro da cidade, o que permite resolver muitos temas sem ser necessário fazer grandes deslocações.

Em dias mais apertados, a secretária vira mesa de refeições e o computador o meu parceiro de conversa.

14h30

A minha tarde é muito parecida ao período da manhã. Muitas vezes seguem-se mais reuniões internas, com investidores ou outros e dou continuidade aos projetos em curso. Aquilo que gosto mais no meu trabalho é sem dúvida a diversidade de desafios e o facto de semana após semana vermos os resultados do nosso trabalho a aparecer.

Tento seguir o planeamento idealizado na noite de domingo e deixar os assuntos resolvidos até às 19 horas. Para me concentrar e isolar do ruído à volta, gosto de ouvir música. Ponho os auscultadores e inspiro-me com músicas que vão desde bossa nova para recordar os meus tempos de Rio de Janeiro, a coisas mais calmas como Ludovico Einaudi se preciso de ler, ou Rock dos anos 80/90 se preciso de acelerar o ritmo. Dizem que a música contribui muito para a produtividade, e eu sinto mesmo isso.

18h00

Dois dias por semana tento sair por volta das 18h. São os dias de ir buscar o Duarte ao colégio. Tento sempre mantê-los porque gosto de o ir buscar e ele também, e ajuda-me a acompanhar o seu desenvolvimento. Paro sempre para falar com as educadoras para saber os últimos acontecimentos. Quando está bom tempo às vezes ainda passamos num parque. Nos restantes dias, tenho a sorte de ter o apoio dos avós de um lado e de outro, e acabo por esticar um bocado mais o dia de trabalho.

De qualquer maneira, saia a que horas saia, até que o Duarte se deite às 21h, tenho a capacidade de desligar. É o momento de família. Durante a semana quase sempre jantamos os três, falamos sobre os nossos dias, sobre os nossos planos de férias ou fim-de-semana.

21h00

O fim do dia é flexível. Gosto de ter tempo para relaxar a dois, muitas vezes vendo uma série, ora as de mais ação ou suspense como Narcos, Homeland, Rainha do Sul, House of Cards, ora mais dramáticas, como The Crown ou Downton Abbey. São boas formas de não pensar em nada.

Quando preciso, dedico esta parte do dia a terminar alguma coisa de trabalho. Gosto de ter a flexibilidade para poder passar tempo com a minha família enquanto o Duarte está acordado, e não me stressa nada ter que trabalhar de vez em quando à noite, porque adoro o meu trabalho e é a minha decisão. Tento ir dormir antes da meia-noite para recuperar energias para os desafios do dia seguinte.

Fim-de-semana

Os fins-de-semana são em geral para a família e para os amigos. Tanto eu como o meu marido temos famílias grandes e muitas vezes há algum evento familiar. Conseguimos conciliar muito bem os programas com o Duarte porque temos familiares e amigos com crianças. Um almoço num sítio agradável, um passeio por Lisboa, que adoro, uma ida à praia, um passeio de bicicleta, são algumas das coisas que gostamos de fazer.

Claro que às vezes uso os tempos mortos para adiantar algum trabalho, mas dedico a maior parte do fim de semana a fazer programas a três ou a estar com família e amigos, faz-me mesmo bem. E chego ao fim do domingo feliz e tranquila, mesmo estando o fim-de-semana a acabar.