A portuguesa que cola corações

Maria Pereira poderá revolucionar a medicina com um novo adesivo cirúrgico que acabará de vez com o “corte e costura” nas cicatrizes, feridas e defeitos cardiovasculares.

Maria Pereira formou-se em Coimbra e fez o doutoramento no MIT

Maria Pereira foi recentemente notícia na revista Time pelo seu trabalho inovador de desenvolvimento de adesivo cirúrgico que poderá acabar com a necessidade de coser e reparar defeitos em órgãos internos, evitando danos nos tecidos adjacentes. Um dos objetivos da sua investigação é que este adesivo possa ser usado diretamente no coração, sobretudo em crianças de tenra idade, cujo tecido é demasiado frágil para suportar os tradicionais pontos cirúrgicos.

Foi enquanto aluna de doutoramento do programa MIT Portugal que deu os primeiros passos nesta investigação.

A trabalhar na Gecko Biomedical, em Paris, desde 2013, Maria Pereira é head of research, responsável pelos produtos adesivos e pela transformação das tecnologias de base do mundo académico para o mundo industrial. Trabalhou anteriormente na Hovione, no departamento de desenvolvimento de produtos, onde era responsável pelo desenvolvimento e implementação de processos de produção e de estratégias de aumento da escala de produção para novos medicamentos. Começou o seu percurso académico com uma licenciatura e master degree em Ciências Farmacêuticas, pela Universidade de Coimbra, tendo concluído, em 2012, o doutoramento (PhD) em Sistemas de Bioengenharia, no MIT Portugal Program.

Da universidade para a clínica

Foi enquanto aluna de doutoramento do programa MIT Portugal que deu os primeiros passos nesta investigação: “Contribuí para o desenvolvimento de um novo adesivo que funciona como uma cola e que permite reparar mais facilmente defeitos no interior do corpo através de procedimentos minimamente invasivos. Ao contrário dos outros materiais, a tecnologia deste adesivo permite-lhe aderir fortemente ao tecido e resistir à constante pressão exercida num órgão, como o coração, em presença de sangue”, explica Maria Pereira.

Maria Pereira estima que a autorização para colocar o adesivo no mercado poderá chegar em 2017.

A ideia, que surgiu no meio académico em 2009 (e cujo protótipo foi desenvolvido a nível académico até 2012), está agora a preparar-se para ser apresentada ao mercado. A industrialização do processo de fabrico iniciou-se em 2013 e agora a Gecko está a trabalhar para trazer esta tecnologia para a prática clínica. A primeira aplicação não será em defeitos cardíacos, mas em defeitos vasculares como suporte de suturas (quando é necessário, por exemplo, unir duas veias ou artérias). O primeiro ensaio clínico na área vascular está planeado para o fim deste ano.

A comercialização no mercado ainda não é para já. A investigação biomédica tem de cumprir diversas fases para garantir a maior segurança e eficácia para os pacientes. São necessários diversos anos, e muito investimento, para colocar as inovações no mercado. Segundo as estimativas da investigadora, a autorização para comercializar o produto no mercado europeu poderá ser obtida no início de 2017.

Maria integrou a lista da Forbes  “30 Under 30” e a lista “Inovators under 35” da MIT Technology Review.

Prémios antes dos 30

O currículo de Maria Pereira inclui já inúmeros prémios e distinções. Faz parte da lista da Forbes “30 Under 30”, que selecionou jovens inovadores e empreendedores em 20 áreas diferentes de atuação (Maria Pereira foi reconhecida na área dos cuidados de saúde). Adicionalmente, foi distinguida na lista “Inovators under 35” pela MIT Technology Review, que reconheceu o trabalho da cientista com adesivos biológicos. Foi ainda um dos quatro galardoados com o prémio de liderança da Novartis International Biotechnology Leadership Camp e, ainda na faculdade, ganhou entre 2003 e 2006 o prémio da Universidade de Coimbra que distingue os 3% de melhores alunos da instituição.

Quanto a projetos para o futuro, o seu sonho é “continuar a tornar realidade projetos inovadores, tecnologias disruptivas que tenham impacte na qualidade de vida das pessoas em todo o mundo”.