2020: O ano da saúde

O ano de 2020 ficará na História como o ano da Saúde e aquele em que as mulheres estiveram em primeiro plano. Elas estiveram na linha da frente do combate à pandemia, tendo em conta a sua predominância no setor da saúde, mas também nos serviços e na distribuição. Muitas outras mulheres também foram seriamente afetadas, por ocuparem postos de trabalho inseguros ou precários, que desapareceram ou sofreram alterações com a crise.

O papel das mulheres foi crucial no combate à pandemia.

Marta Temido, ministra da Saúde, e Graça Freitas, diretora-geral da saúde, foram os rostos da luta contra a pandemia de Covid-19, que decerto simbolizam. Foi um ano de carrossel em acontecimentos, estados de espírito, perceções, dor, luta, alívio, que passou do milagre de Maio e do Verão ao pesadelo de Outubro, de Janeiro, passando por um regresso receoso ao normal, o que resume o impacto da pandemia da Covid-19 em Portugal, mas, como escreveu Leonor Beleza no Diário de Notícias em 2 de março de 2012, “o ano que levamos de covid-19 tem-nos imposto uma aprendizagem: a de que não podemos dar nada por adquirido”.

O impacto desta pandemia obrigou a concentrar o Serviço Nacional de Saúde no combate à pandemia. Esta desde 4 de março de 2020 a 30 de abril de 2021 infetou mais de 830 mil pessoas, provocou quase 17 mil óbitos, estiveram internadas milhares de pessoas nos hospitais e nas unidades de cuidados intensivos. Foram feitos mais de dez milhões de testes e administradas mais de 3,3 milhões de vacinas. As consequências nos doentes não Covid também foram elevadas em 2020 com menos 11,5 milhões de consultas nos centros de saúde, menos 26 milhões de atos de diagnóstico, menos 126 mil cirurgias e menos 400 mil rastreios oncológicos.

A vida laboral mudou com o teletrabalho nas profissões de colarinho branco, a organização do trabalho em espelho, dos turnos dos que se nunca se veem, as divisórias de acrílico, as luvas, as máscaras, o gel, a medição de temperatura. A vida social transfigurou-se com os confinamentos, a distância social, as máscaras, as restrições de circulação, de reuniões, o encerramento e a proibição da frequência de espaços públicos, de restauração, animação e cultura, das viagens e do turismo. Fez a economia portuguesa afundar-se com uma quebra histórica do PIB de 7,6% em 2020 — que não encontra precedentes na atual série estatística do INE — e o peso da dívida pública no PIB subiu para 133,7%, e está ao nível do terceiro trimestre de 2016.

Estes tempos pandémicos fizeram com que a saúde se tornasse central nas sociedades atuais, de tal forma que a União Europeia acrescentou à sua agenda a política europeia de saúde, o que permite parafrasear uma expressão que é atribuída a André Malraux, mas que ele negou ter dito referindo-se à religião: “o século XXI será o século da Saúde ou não o será”.

Com o impulso da pandemia, e por questões de urgência sanitária, “a ciência irrompeu de forma muito eficaz, às vezes discreta, outras vezes não. O vírus foi imediatamente isolado, o genoma determinado e publicado. Gerou-se um acervo de investigação, as vacinas apareceram logo. O mundo digital acelerou para responder às necessidades, o virtual permite compensar e substituir. A ciência e a tecnologia geraram os meios que tornam possível rastrear contactos e diminuir os riscos. O palco justamente dado aos cientistas é coisa nova, e espero que para manter”, escreveu Leonor Beleza. Uma ilustração desta emergência podem ser as capas com cientistas que a revista E do semanário Expresso fez por duas vezes com Elvira Fortunato e uma com Maria Manuel Mota e com o facto de os estúdios de televisão, os sites, as publicações, se terem transformado em extensões das universidades, dos hospitais, dos centros de investigação, das instituições de saúde.

Mas esta foi a espuma dos dias porque na prática o sistema científico português reagiu para suprir necessidades para o combate à pandemia. Por exemplo, o IMM, de Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota, avançou para a produção de testes da covid-19 que escasseavam em Portugal. Há um ano, Bibiana Ferreira, que passou pelo Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), fez o doutoramento em Madrid num dos centros de referência em oncologia com uma bolsa Marie Curie, esteve no Salk Institute nos Estados Unidos, criou e foi responsável pelo laboratório que faz as análises à Covid-19 no Algarve Biomedical Center (ABC).

Os setores de atividade económica mais expostos aos impactos da pandemia de Covid-19 são também aqueles onde existe maior presença de mulheres a ocupar cargos de gestão e onde há uma grande predominância de mão de obra feminina que foi afetada tanto ao aumento de contactos do vírus, porque estavam a trabalhar nos confinamentos, ou porque estes provocaram o encerramento de atividades a que se seguia muitas vezes o desemprego.

O impacto da pandemia nas mulheres

As mulheres têm estado na linha da frente do combate à pandemia do coronavírus, tendo em conta a sua predominância no setor da saúde, mas também nos serviços e na distribuição. Muitas outras mulheres também foram seriamente afetadas, por ocuparem postos de trabalho inseguros ou precários, que desapareceram ou sofreram alterações com a crise. Além disso, os confinamentos contínuos conduziram a um aumento dos casos de violência doméstica, como referiu o Parlamento Europeu no dia 8 de março de 2021.

Nas últimas décadas, houve progresso em dezenas de países — de forma gradual e insuficiente, mas real. Com a pandemia, os progressos conseguidos no combate à desigualdade entre homens e mulheres estão em processo de regressão, o que se designa por “shecession” para exprimir como os impactos económicos e sociais caem de forma particularmente aguda sobre o sexo feminino.

Os setores de atividade económica mais expostos aos impactos da pandemia de Covid-19 são também aqueles onde existe maior presença de mulheres a ocupar cargos de gestão e onde há uma grande predominância de mão de obra feminina que foi afetada tanto ao aumento de contactos do vírus, porque estavam a trabalhar nos confinamentos, ou porque estes provocaram o encerramento de atividades a que se seguia muitas vezes o desemprego. Como mostram dados do segundo confinamento, de janeiro a abril de 2021, os sectores de atividade mais atingidos foram os do alojamento, restauração e similares com 35% dos pedidos de layoff nestes quatro meses, seguidos do comércio com 20,1% e sete em cada dez trabalhadores que passaram pelo layoff simplificado são mulheres, que também foram despedidas em maior número.

A Informa D&B, que avaliou a presença feminina em cargos de gestão em Portugal com o impacto da pandemia de Covid-19 sobre cada setor de atividade, concluiu que os Serviços gerais, Retalho e o Alojamento e restauração são os setores onde a presença feminina é mais significativa em cargos de gestão, respetivamente 43% nos Serviços gerais e 33% nos outros dois setores. E foram precisamente estes três setores que revelaram maior exposição aos efeitos da Covid-19. Nos Serviços gerais, 38% das empresas têm um Impacto Alto, valor que é ainda mais elevado no Retalho (72%) e no Alojamento e restauração (96%). Quanto aos cargos de liderança, existem no tecido empresarial 89 mil empresas com mulheres a desempenhar este cargo, um terço das quais pertencem a setores com Impacto Alto da pandemia.

“A igualdade de género foi fundamental para ser possível o que era impossível: o desenvolvimento de uma vacina em 11 meses”, assegurou a imunologista Özlem Türeci, diretora médica da BioNTech.

As mulheres na saúde e na ciência

Segundo as Estatísticas de Saúde do INE, em 2019 estavam inscritos na Ordem dos Médicos 55 432 médicos (55,8% eram mulheres), existiam 75 773 enfermeiros em atividade , de acordo com a Ordem dos Enfermeiros, (82,2%) são mulheres), havia 13 854 farmacêuticos em Portugal, de acordo com a Ordem dos Farmacêuticos, (79,8% são mulheres), a que se podem acrescentar mais 50 mil pessoas entre assistentes técnicos e operacionais no Serviço Nacional de Saúde, a grande maioria mulheres.

“Cerca de 70% de todos os trabalhadores da saúde global são mulheres e têm feito um papel excecional a salvar vidas. Apesar de serem a maioria da força global de saúde, as mulheres apenas detêm 25% da liderança do setor”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, que destacou o seu “papel excecional” no combate à pandemia. Sarah Gilbert, da Universidade de Oxford, salientou que dois terços da equipa que trabalha no desenvolvimento de vacinas na Universidade de Oxford são mulheres, mas salientou que continuam, no geral, a ser “sub-representadas nos conselhos das empresas”.

Para a imunologista Özlem Türeci, diretora médica da BioNTech, a crise provocada pela pandemia da Covid-19 “exacerbou os desafios que as mulheres enfrentam”, que assumiram funções da “linha da frente” ao nível dos cuidados de saúde, mas também como criadoras de vacinas e mobilizadoras de comunidades. Segundo disse, 54% da força de trabalho da BioNTech é composta por mulheres e, desse universo, 44% estão em posição de liderança. “Essa igualdade de género foi fundamental para ser possível o que era impossível: o desenvolvimento de uma vacina em 11 meses”, assegurou.

 

A gestão feminina da pandemia

“Uma análise feita a 122 discursos feitos durante a pandemia pelos responsáveis dos governos em todo o mundo mostrava que os líderes masculinos usavam argumentos relacionados com a guerra e analogias a táticas de combate. Já as mulheres, em contraste, concentraram-se nos argumentos relacionados com as pessoas, a família, os grupos mais vulneráveis, focando-se numa mensagem de compaixão e coesão social”, escreveu Sandra Alvarez, diretora-geral da PHD, no artigo “O ponto de viragem para a liderança feminina”, publicado a 30 de abril de 2021 no site linkleaders.com. Na sua opinião, algumas características que determinam a liderança feminina são, sobretudo, a orientação para as pessoas, a tendência para a cooperação e o trabalho de equipa, a capacidade de incluir e partilhar sucessos e, sobretudo, uma maior predisposição para a mudança, algo que os homens, tendencialmente têm alguma dificuldade.

Entre março e junho de 2020, foram avaliados  454 homens e 366 mulheres em termos de liderança, tendo sido usada uma ferramenta de avaliação das competências a 360º. Ao comparar os resultados obtidos, resultou que as líderes mulheres foram, de modo geral, classificadas de forma mais positiva que os líderes homens. Também foram vistas como mais efetivas na liderança – com uma diferença de pontuação média para os homens maior do que a consultoria vira antes da pandemia, a partir de análises à sua base de dados com 60 mil avaliações de líderes. Esta maior diferença mostra uma maior tendência para uma melhor performance das mulheres durante a crise.

Para Maria Manuel Mota, a importância reside na diversidade das lideranças. “Claro que uma liderança no feminino pode ser, em termos de estereótipo, diferente de uma liderança no masculino, mas o mais importante é toda essa diversidade. Nós não queremos ter apenas lideranças no masculino, assim como não queremos ter apenas lideranças no feminino. Queremos é aproveitar toda a população. Queremos ter toda uma sociedade que tem, nos seus diferentes pontos de liderança e não só, pessoas com todo o tipo de características”, disse numa entrevista ao jornal Observador.

Na sua opinião, há necessidade de lideranças “como de pão para a boca” porque “elas estão muito pouco representadas, não é para substituir as lideranças masculinas pelas femininas — precisamos é de ter de tudo. Uma liderança no feminino seria diferente, falou-se muito na pandemia disso: pessoas como Obama diziam que se o mundo fosse governado por mulheres talvez estivesse muito melhor. Acho que [é melhor] um mundo governado por pessoas com um lado racional. E com diversidade”.

Leia mais artigos sobre o Prémio As Mulheres Mais Influentes de Portugal 2020 aqui

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