Estamos mais doentes ou medicados em excesso?

Numa altura do ano em que as alergias e as rinites estão na ordem do dia, o especialista João Paço questiona se a sua propagação não se deve, em parte, ao excesso de medicação.

Excesso de antibióticos deixará as crianças mais frágeis?

Por João Paço, regente de Otorrinolaringologia da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, coordenador do Serviço de Otorrinolaringologia e director clínico do Hospital CUF Infante Santo.

 

As rinites e as alergias estão cada vez mais na ordem do dia pois são em grande número os pacientes, tanto crianças como adultos, que nos surgem com este tipo de queixas. Por outro lado, se analisarmos o consumo de medicamentos anti-histamínicos, tópicos nasais ou corticoides verificamos um crescimento de vendas na ordem dos 50 a 60% comparativamente ao que se verificava há 20 anos. Poderemos então questionarmo-nos sobre o porquê deste facto. O que terá acontecido? Será
 do ambiente? Seremos nós que estamos mais frágeis?

Poderemos equacionar nesta altura um conjunto de causas, que começam no ambiente, pois praticamente em todos os locais onde vivemos existe ar condicionado, de limpeza duvidosa, assim como nenhum carro, nem os de menores dimensões e mais baratos, deixam de ter um ar condicionado a poucos centímetros do nosso nariz. Também os produtos alimentares, apesar de uma aparência fabulosa, passaram, na maioria, por câmaras frigoríficas que lhes tiraram qualidades nutritivas. E ainda as cidades onde vivemos, que estão cada vez mais poluídas com carros a emitirem gases poluentes em vez de carros eléctricos e energias limpas.

Crianças hiper medicadas

No caso das crianças, temos de assinalar que muitas delas, desde a mais tenra idade, passam os dias em infantários, que não são mais do que locais de excelente troca de bactérias e vírus (vulgo infectários).
 Todos estes factos associam-se ao elevado consumo de antibióticos, por mais leve que seja a infeção respiratória, e ao facto de a grande maioria das crianças transportarem, atrás de si, frascos de anti-histamínicos, mucolíticos e antitússicos, além dos antibióticos, criando-se uma espiral de consumo, de visitas constantes aos médicos e aos especialistas e, não sei, se mais ou menos, saúde para as crianças.

Penso que estamos na altura
 de parar e refletir como conseguiam os antigos pediatras, que eram ao mesmo tempo otorrinolaringologistas, pneumologistas, alergologistas 
e, sei lá que mais especialidades, resolver – com benefício para todos – os problemas das suas crianças. O mesmo se passa com os adultos. Será que a raça humana está mais doente? Pois nunca como agora, houve tanta rinite e alergia, para não falar nas asmas tardias que parecem atingir toda a população! Reflexo disto é o consumo de antibióticos para qualquer faringite aguda sem refletir na verdadeira causa da mesma, que passa por termos consciência do meio em que os doentes vivem, do ar condicionado que respiram, do facto de serem fumadores ativos ou passivos, de terem em casa crianças, que todos os dias vêm do infantário com uma nova doença e infetam os pais, além dos antecedentes que podem estar na origem da cronicidade das faringites.

Temos pois que racionalizar alguns consumos e, em boa hora, a Direcção-Geral de Saúde
 iniciou uma campanha contra o uso e o abuso de antibióticos, pois não é raro vermos quinolonas de terceira geração prescritas
 para amigdalites, que poderiam ser tratadas com uma simples penicilina, otites medicadas com antibióticos sofisticadíssimos que podem passar com ampicilina, e assim sucessivamente.

Equacionar alternativas

Temos que, uma vez mais, 
apurar e ajustar os diagnósticos
 e medicarmos o menos possível
 e apenas o indispensável, não fazendo das nossas crianças e adultos aquilo que elas não são,
 ou seja, doentes crónicos. Perdoem nesta altura mas,
 em tempos de crise, além de racionalização da prescrição, devemos recordarmo-nos da existência, em Portugal, de numerosas termas de águas sulfurosas que produzem efeitos extraordinários na mucosa respiratória, com consequente diminuição do consumo de medicamentos e melhoria de qualidade de vida dos cidadãos, afirmação que fazemos assente em numerosos artigos científicos nacionais mas, sobretudo, internacionais.

O termalismo, deverá ser pois incentivado por todos, governo inclusive, para os casos de infeção respiratória de repetição, mas também para as alergias e asmas. Os balneários têm mais de uma centena de anos de experiência e, hoje, muitos deles estão anexados a excelentes unidades hoteleiras constituindo uma óptima alternativa para a cura
 e para o ócio.

Por último, como otorrinolaringologista, sou obrigado a mencionar os casos que, tendo excedido um tempo razoável de tratamento médico, necessitam
 de terapêutica cirúrgica, sempre com os devidos cuidados e assente em meios complementares de diagnóstico (TAC). 
Não precisamos, além de uma boa história clínica, de saber quais os casos que necessitam de ser intervencionados ao nível das amigdalites e dos adenoides ou dos seios paranasais.

A tomografia axial computorizada (TAC) nos casos naso-sinusais é hoje indispensável para identificarmos o grau de uma polipose nasal, de um desvio do septo, de uma sinusite a fungos 
ou outras noxas que nunca terão melhoras sem uma cirurgia. Nestes doentes a cirurgia endoscópica nasal é uma excelente alternativa e tem a pouco e
 pouco vindo a afirmar-se, além de os nossos médicos estarem perfeitamente atualizados, identificando os benefícios desta teoria cirúrgica.
 Contudo, não nos esqueçamos que na área naso-sinusal “doente operado não é doente curado”, pois temos de continuar a acompanhá-lo, duas a três vezes ao ano, para evitar a recidiva.
 São pois estas as nossas responsabilidades e os nossos cuidados, relativamente a este grupo especial de doentes, que preenchem uma parte substancial das consultas.