10 dicas para falar em público (vindas de quem está habituado aos microfones)

Com mais de duas décadas aos microfones da Rádio Renascença, Sónia Santos é a pessoa certa para falar sobre este tema. A locutora do programa “Nunca é tarde” é também voz off da Sport TV, membro da National Speakers Association e dá formação em Comunicação e Storytelling. 

Dê o seu melhor, estruture, prepare-se, mas dê espaço para a descontração.

Ser locutor é, acima de tudo, contar histórias. Ora, cada história tem um princípio, um meio e um fim, certo?

Era uma vez… Um formador que ia dar formação a uma empresa de remessa expressa, como a UPS ou a FedEx. Entra na sala, desenha um alvo no quadro e pergunta: 

– “Posso ter um voluntário?”

Um dos formandos, o Manuel, sobe ao palco e o formador pede-lhe: 

– “Preciso que desate a correr o mais rápido que conseguir e que esbarre com toda a força naquele alvo.” 

Os restantes formandos primeiro ficaram atónicos, depois desataram a rir. Todos, menos o Manuel, claro! O formador remata: 

– “Isto é o que fazemos sempre que nos sentamos ao volante e não colocamos o cinto de segurança. Hoje vamos falar sobre segurança rodoviária.”

1. O primeiro impacto 

Dizem alguns estudos que um locutor tem três a cinco segundos para captar a atenção do ouvinte depois de abrir o microfone, para dizer algo que o “prenda”, que o leve a não fazer zapping ou baixar o volume do rádio.

De forma idêntica, o início da nossa apresentação deve deixar a audiência desejosa de ouvir tudo o que temos para dizer. Fuja de inícios banais. Comece com uma ação, como o nosso formador, ou com uma pergunta, uma história, uma música ou humor, por exemplo.

2. Listas Versus histórias

Lembra-se dos artigos que tinha na lista do supermercado de Abril do ano passado? E se lhe perguntar como foi a primeira vez que andou de bicicleta ou quando e como foi o seu primeiro beijo? Não esqueceu, porque esses momentos são, por si só, uma história e as histórias têm essa capacidade de nos envolver, por isso, ficam em nós. As listas não. No entanto, se reparar há uma lista por detrás de cada história, há uma lógica na sucessão dos acontecimentos. No exemplo da bicicleta:

. Antes de aprender a andar de bicicleta, há outras etapas (gatinhar, ganhar equilíbrio, andar);

. Há ou não, a priori, uma vontade e/ou um receio de aprender a andar de bicicleta;

. Começámos por um triciclo ou lançámo-nos logo na aventura de andar sem “rodinhas”?

. Só poderemos falar da sensação do que é manter o equilíbrio em cima de uma bicicleta, depois de conseguirmos esse equilíbrio.

É uma lista com quatro tópicos que pode ser “debitada” num PowerPoint ou envolvida numa história e oferecida à audiência, cativando-a e tornando a apresentação inesquecível. Mais: as histórias tornam-nos únicos. Somos nós quem define que mensagem queremos passar ao contar aquela história em particular. Para além disso, a forma como a contamos é nossa e só nossa.

3. Apresentação perfeita

Esqueça a perfeição. Dê o seu melhor, estruture, prepare e prepare-se, mas, acredite, não vai conseguir comunicar verdadeiramente se se limitar à perfeição. Limitar-se à perfeição é… limitador! Decorar de fio a pavio o texto para que nenhuma palavra falhe, ensaiar todos os movimentos e expressões, nunca hesitar, fazer uma apresentação “certinha” e linear, torna a apresentação aborrecida, não fica na memória de ninguém. Dê margem para a descontração. O melhor tapete persa tem sempre um defeito…

4. Imagem de marca

A sua marca. A sua personalidade tem que estar na sua comunicação. Lembre-se, o objetivo não é a perfeição, mas, sim, a ligação com a sua audiência! Seja autêntico, credível. Se não o considerarem credível, não irão incomodar-se em prestar atenção ao que tem para dizer.  

5. Foco

Não em si, sempre na audiência. Em vez de partir de: “Que informação vou passar?” “O que vou dizer?” Parta de: “Que informação querem estas pessoas receber?” “O que querem ouvir?” “O que lhes será mais útil?”

6. Menos é  mais

Cinja a informação a dois ou  três pontos fulcrais. A sua audiência não vai conseguir lembrar-se de muito mais. Assegure-se de que cada ponto vale por si, tal como na rádio: uma ideia de cada vez. Seja claro, preciso, simplifique.

7. Falar “para” ou “com”?

Se dissertamos num monólogo, seremos aborrecidos e as pessoas “desligam”. Não fale “para”, fale “com”! Faça perguntas, interaja, envolva, crie dinâmicas de grupo. Vai fazer uma apresentação de vendas? Transforme-a numa conversa sobre vendas. 

8. Linguagem “visual”

A rádio é, por excelência, o meio de comunicação que trabalha com a imaginação. A expressão, a entoação, a velocidade, a colocação da voz, a dicção, os detalhes que damos permitem que o ouvinte “veja” o nosso “filme”. Numa apresentação, além das palavras e do tom que lhes damos, temos todo um mundo de outros recursos: gestos, expressões, ”fazer” outras vozes, mexermo-nos desenhando um movimento que fala por si.

9. Humor

Pirandello e Freud estavam de acordo: o humor distingue-se do cómico. No caso, recorrer ao humor não será contar uma anedota. Corre o risco de algumas pessoas já a conhecerem (criando “ruído” em vez de atenção), pensarem que não tem assim tanta piada e não estará a ser muito criativo nem original. 

Já assisti a palestras sobre histórias de vidas muito difíceis e é delicioso como num momento estamos tão emocionados, como a seguir damos uma valente gargalhada. Este equilíbrio é fantástico. O humor alivia a tensão e o stresse. Ao relaxarmos estamos mais disponíveis para aprender, para comunicar e, se a ideia é estarmos ligados à nossa audiência, é certo que “o riso é a menor distância entre duas pessoas”. Por outro lado, revela que não se leva demasiado a sério, uma excelente caraterística e uma forma de gerar empatia.

Fim

Mais uma vez, o foco está na audiência: O que vão levar da minha apresentação? Que ideias terão mesmo impacto nas suas vidas? Uma frase criada por si, “orelhuda”, que passe a ser usada pelas pessoas (e que por isso não vão esquecer)? Uma frase que as inspire e as faça tomar uma atitude? Uma espécie de TPC/Compromisso que as leve a agir? Pode até pedir ajuda: peça à própria audiência para partilhar dois pontos da sua apresentação que fizeram a diferença. 

O fecho da sua apresentação (que deverá cumprir o tempo) é tão importante como o início. Tem cinco histórias para contar? Guarde a segunda melhor para o início e a melhor de todas para o fim. Ou não concorda que a primeira e a última dentadas no bolo de chocolate são as melhores?

 

Texto publicado no livro Como Chegar a Líder – 600 Conselhos de Carreira (Vindos de Quem Sabe), que conta com textos de outros 61 autores e foi coordenado por Isabel Canha e Maria Serina. Saiba mais aqui.