Patrícia Poeta: uma carreira ao microscópio

Investigadora de Microbiologia na área da Medicina Veterinária, trabalha com animais selvagens e estuda bactérias resistentes a antibióticos. Mas na sua vida ainda há lugar para outras paixões, e até para uma vertente empreendedora.

A investigadora Patrícia Poeta descobriu a fórmula de uma boa gestão de tempo.

Quando o reitor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa ligou para casa de Patrícia Poeta, depois de lhe confirmar o nome e as credenciais, perguntou: “Não tem vergonha?…” Patrícia, então finalista do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Trás-os- Montes a Alto Douro (UTAD), ficou atónita. “Não tem vergonha… de não ter deixado prémios para ninguém?” Nesse ano, ganhou o que havia para ganhar: foi a melhor aluna de Medicina Veterinária a nível nacional e recebeu 11 distinções de uma assentada: cinco na UTAD e seis nacionais, entre os quais os prémios da Sociedade Portuguesa para as Ciências Veterinárias e o Prémio Fundação Engenheiro António de Almeida.

Já passaram mais de 15 anos, mas esse começo auspicioso viria a materializar-se numa carreira na investigação científica que ainda hoje a traz apaixonada e em constante atividade: é professora catedrática de Microbiologia na UTAD, responsável pelo laboratório de Microbiologia Médica da universidade, lidera um grupo de investigação que estuda a resistência aos antibióticos em animais selvagens como o lobo e o lince ibéricos (é, aliás, a única equipa autorizada, em todo o mundo, para fazer este tipo de estudos no lince) e tem mais de 100 trabalhos científicos sobre este tema, publicados em revistas do Scientific Citation Index.

Uma estufa empreendedora

E o currículo não fica por aqui. Em 2016 recebeu o prémio de empreendedorismo ‘Play Your Idea 2016‘, da Incubadora Criativa e Tecnológica da Universidade Lusófona, e foi ainda semi-finalista do concurso InovPortugal 2016, com o projeto ‘Estufa portátil inteligente’, coordenando a equipa composta pelo doutorando e docente da UTAD, João Bordelo, e pela finalista de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona, Catarina Coelho. “O projeto surgiu como ideia para pôr em prática em países em desenvolvimento, onde há problemas de saúde pública. Precisamos de bactérias para fazer investigação e elas não crescem sem ser em estufa. Mas as estufas de laboratório são estruturas muito grandes e pesadas, que não são portáteis e só permitem o crescimento de bactérias aeróbias. Lembrámo-nos de fazer uma estufa pequena, leve e transportável, que possa funcionar a bateria ou com painéis solares, em que a parte superior sirva como bancada de trabalho. Um terço da estufa funciona com dióxido de carbono para crescimento de bactérias anaeróbias, sendo o restante espaço para bactérias aeróbias. Poderia ser um produto vendável, sobretudo para a investigação em países em desenvolvimento.”

Das coisas que mais prazer me dão na vida é fazer investigação e dar aulas.

A estufa inteligente traz ainda um programa informático que permite o acesso a um guia de procedimentos que facilita o trabalho ao veterinário de campo: de forma simples e rápida, pode isolar, identificar e escolher o método de cultura de bactéria a usar. “Ficámos com o primeiro prémio, depois de fazer a apresentação em 5 ou 10 minutos, num concurso da Universidade Lusófona. Agora precisamos de fazer o protótipo e registar a patente para darmos continuidade à ideia, que precisa de financiamento.”

Além de todas estas vertentes de trabalho, a investigadora participa ainda no programa Ciência Viva, enquanto responsável do departamento de Ciências Veterinárias da UTAD. “Faço ações deste programa há oito ou nove anos, com alunos do ensino secundário, e participo no Dia Aberto da UTAD, onde alunos de todo o país vêm passar uma semana connosco a acompanhar a nossa investigação. Das coisas que mais prazer me dão na vida é fazer investigação e dar aulas. Não mudaria nada na minha vida.”

Ameaças ao microscópio

Patrícia Poeta nasceu em Maputo, Moçambique há 41 anos. Filha de dois professores universitários de Economia, cresceu num ambiente que lhe estimulava a curiosidade científica. Aos 4 anos a família mudou-se para Vila Real, onde estudou sempre e, mais tarde, entrou no curso de Medicina Veterinária. No 3º ano já era convidada para ser monitora da disciplina de Microbiologia e Imunologia. “Era uma daquelas disciplinas que a maioria achava maçuda, não era clínica. Eu própria queria ser clínica de veterinária e ainda exerci, mas por pouco tempo. Continuei a ser monitora no 4º e 5º ano e acabei por ganhar um grande gosto pela parte de microbiologia e imunologia. Quando acabei o curso quis fazer o estágio em investigação e escolhi o tema da resistência a antibióticos em animais de companhia. Gostei muito.” Depois do mestrado, quis voltar a essa área de estudo para o doutoramento. “Nessa altura havia pouca gente a fazer investigação nessa área, em veterinária. Em Portugal não existia ninguém a estudá-lo em animais selvagens e, mesmo no resto da Europa, eram pouquíssimos investigadores a fazê-lo. Descobri um grupo de investigação na Universidade de La Rioja, em Logroño, Espanha, onde acabei por fazer o doutoramento. Já tinham um know how muito elevado no que toca ao tema da resistência a antibióticos.”

Se não há ninguém a investigar este tema [resistência dos animais selvagens a antibióticos], podemos ser pioneiros.

Este continua a ser um dos problemas que mais tem vindo a preocupar os especialistas em Medicina e saúde pública nas últimas décadas, e que ganha especial relevância quando os doentes sofrem infeções causadas por bactérias que se tornaram resistentes a quase todas as classes de antibióticos, até aos de alto espectro como a vancomicina, administrados apenas em ambiente hospitalar. “Se as bactérias que causam estas infeções, como o staphylococcus aureus resistente à vancomicina ou as enterobactérias, forem transmitidas cama a cama e transportarem genes de resistência a antibióticos, quando o paciente precisa de os tomar, não são eficazes e ele pode acabar por morrer com septicemias.”

Linces, lobos e gaivotas

Se, a princípio, este era um problema observado em pacientes hospitalares com problemas de imunidade, anos mais tarde começou a ser detetado em pessoas que nunca tinham estado internadas e a receber tratamento com vancomicina. Além disso, a indústria agropecuária estava a usar antibióticos como promotores do crescimento dos animais criados para consumo humano, que depois entravam na cadeia alimentar. A União Europeia acabou por abolir o seu uso entre 1996 e 2006, mas as resistências a antibióticos continuam a ser encontradas em animais domésticos e selvagens.

O lince ibérico é um dos alvos de estudo de Patrícia Poeta.

Por que é importante estudar este tema em animais selvagens, então? “Porque eles podem ser reservatórios de bactérias, disseminadores ou transmiti-las a humanos, a outros animais e ecossistemas. A preservação de espécies em vias de extinção, como o lince ou o lobo ibéricos, é outra das razões primordiais: para fazê-lo é necessário saber quais as resistências que esses animais têm. Além disso, se não há ninguém a investigar este tema, podemos ser pioneiros.”

Tem três filhos e, apesar da carreira preenchida, consegue levá-los à escola e almoçar e jantar com eles todos os dias.

A sua equipa já encontrou estirpes raras de staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA), antes apenas detetadas em humanos, em javalis. Um estudo de campo em gaivotas foi ainda mais surpreendente. “Se as aves forem portadoras de bactérias resistentes, disseminam estas resistências a grandes distâncias pelo facto de voarem. Quando estudámos a população de gaivotas das ilhas Berlengas pensei que, como nidificavam na ilha, deveriam ter níveis baixos de resistências a antibióticos. Mas quando começaram a chegar os resultados, apareceram-nos estirpes de bactérias resistentes a sete ou oito antibióticos diferentes. Descobrimos que iam alimentar-se às lixeiras de Peniche e que era nesses ecossistemas que as bactérias resistentes apareciam.”

A vida para além da Ciência

O que impressiona na investigadora é a energia e a capacidade de equilibrar uma carreira na Ciência com uma vida familiar e as outras paixões de que não abdica. Tem três filhos com 9, 7 e 5 anos. “Acordo às 7h da manhã, preparo ou meus filhos e deixo-os na escola às oito e meia. A manhã e tarde são passadas na UTAD, a dar aulas, fazer investigação ou a acompanhar alunos. Tenho uma vida familiar muito estável e estruturada, o que me ajuda imenso. O meu marido também é docente na UTAD e tenho ajuda em casa todo o dia, que nos retira um peso enorme das tarefas domésticas. Eu e o meu marido revezarmo-nos a ir deixar e buscar os nossos filhos à escola e almoçamos todos os dias com eles. A vantagem é morarmos em Vila Real, que por ser uma cidade pequena, nos dá muita qualidade de vida.” Muitas vezes o dia de trabalho acaba à 1h da manhã, em frente ao computador, se houver um artigo científico para terminar e submeter. Além disso ainda faz desporto todos os dias, participa num grupo de teatro amador, tem o curso de árbitro de natação. “E adoro escrever poesia e prosa. Só não abdico do desporto; é uma componente fundamental da minha vida. Treino sempre de 2ª a 6ª.” O essencial é uma grande capacidade de organização. “Sempre fui assim. Fico nervosa com tempo morto. Mas não sou stressada; sou pragmática, objetiva e não gosto de complicar.”

Refletindo em quais as decisões de carreiras que fizeram de si a profissional que é hoje, a investigadora diz: “A mais decisiva foi ter feito o doutoramento em Logroño, com uma grande equipa de investigação. Tive uma orientadora que me inspirou e que também era mãe de 3 filhos. Sabia separar muito bem o tempo de trabalho do tempo para a família – se tinha que sair às 18h para ir buscar os filhos, saí mesmo. Tinha muita energia e era extremamente organizada. Este grupo e esta orientadora ajudaram-me em algumas regras de conduta que ainda hoje sigo. A união, dedicação e interesse dos alunos do meu grupo de investigação, assim como todas as colaborações que tenho na UTAD (com o departamento de genética e biotecnologia) e fora de portas contribuem, em grande medida, para o sucesso coletivo.”