Em analogia ao ser humano, as empresas nascem, vivem e morrem. Têm personalidade jurídica e, por isso, desempenham um papel na sociedade. Relativamente ao nascimento, por norma é sempre algo alegre e motivador, tanto no ser humano como nas empresas. Não faltam projetos, ideias para implementar, sonhos, etc. Após os primeiros momentos de vida, começamos a preparar o seu crescimento e desenvolvimento. Momentos positivos e menos positivos são espectáveis. A criança ou a pequena empresa rapidamente se transformará num ser com “vida”, com necessidades próprias e, naturalmente, com características concorrenciais. Faz parte da vida.

Temos crianças e empresas de todos os tipos, umas destacam-se logo durante os primeiros anos de vida, e outras demoram a impor-se. Os Pais das crianças ou das empresas têm um papel fundamental durante os primeiros anos de vida, primeiro porque têm de as dotar de recursos suficientes para que sejam saudáveis e, rapidamente, caminhem pelos seus próprios meios e, depois, porque até à sua “maioridade” são responsáveis pelos seus atos. A vida dos jovens e dos adultos (crianças e empresas) têm muito a ver com a forma como foram tratados nos primeiros anos de vida, como foram transmitidos os conhecimentos, como se foram transmitindo as bases e os valores; é isso que definirá os seus percursos e a sua maior ou menor longevidade e sucessos durante a sua vida. Em idade adulta, tanto as empresas como os humanos podem-se reproduzir, podem dar frutos e criar novas “personalidades” como eles. Mas a lei da vida diz-nos que tudo o que nasce morre. E, uma vez mais, é válido tanto para o ser humano como para as empresas. A morte nos humanos é algo desagradável e por vezes assustador e, por isso, não gostamos muito de falar desses acontecimentos. Nas empresas, as semelhanças são inúmeras.

Ser empresário em Portugal ou noutros países é muito diferente na hora do Fim.

Nos meus 30 anos de experiência profissional já passaram por mim inúmeras situações de empresários que mantêm as suas empresas “ligadas à máquina” como se fossem humanos a tentar prolongar a vida por mais uns dias. Alguns desses empresários tratam as empresas como se fosse o seu ente mais querido e custa-lhes desligar o botão da “respiração artificial”. A maior parte deles nem quer falar sobre a situação porque, a exemplo da morte nos humanos, é muito desagradável. Vários acham mesmo que a “morte” da sua empresa pode implicar a sua própria morte como humano, veja-se a ligação sentimental. Por muito que nos custe ou que estas analogias sejam desagradáveis, é este o dia-a-dia de muitos empresários em Portugal e em todo o mundo. Curiosamente, ser empresário em Portugal ou noutros países é muito diferente na hora do Fim, e esses fatores também influenciam a nossa forma de abordar o tema “Morte”. Para isso basta perceber como funciona a Insolvência pessoal e a exoneração do passivo restante em Portugal e nos Estados Unidos.

Há uns anos fui contactado por um empresário para o ajudar a restruturar a sua empresa; segundo as suas palavras, ela precisava de ser restruturada e ele não sabia por onde começar. Pelo menos estava ciente de que as coisas não estavam a correr bem, o que era um bom princípio.

O diagnóstico dos 4 Rs permite perceber em que fase está a empresa e assim tomar as medidas adequadas.

O exercício que por norma faço enquanto Consultor, ou Business Coach, chamo-lhe o diagnóstico dos 4 Rs. Este exercício também é possível fazer a nível individual e mesmo a nível macroeconómico (Países e Mundo).

Tem como objetivo perceber em que ponto estamos, de forma a podermos prescrever e administrar a medicação. A medicação pode ir de um simples anti inflamatório até à medicação paliativa e isto diz bem da importância do diagnóstico, tanto nas nossas vidas como nas empresas e nos Países. Por norma utilizamos o termo reestruturação para todas as situações nas quais achamos que as coisas não estão bem, mas utilizamos mal. No exercício dos 4Rs temos 4 estados muito diferentes uns dos outros: O 1º R é de Reajustamento, o 2º de Restruturação, o 3º de Revolução e o 4º de Rutura.

Ora, já se percebeu que são estados muito diferentes que necessitam de medicações muito diferentes.

O 1º Estado – Reajustamento – é o estado em que na generalidade das vezes o tratamento se faz com uma simples conversa e ajustamento de alguns hábitos, nas pessoas, por exemplo, hábitos alimentares, as horas de sono, etc., nas empresas, por vezes basta estarmos mais atentos e acompanharmos melhor um setor ou algumas pessoas ou mesmo o relacionamento do gestor com os stackeholders.

O 2º Estado – Restruturação – é o estado em que quanto mais rápido (nós) percebermos, mais depressa poderá ser a cura. Nesse estado, o tratamento consciente e atempado, por um lado, evita a evolução para a 3ª Fase e, por outro, muitas das vezes reposiciona as pessoas e as empresas para novos projetos. Normalmente, é uma fase na qual só as pessoas que vivem os problemas por dentro percebem e, por isso, a sua reação mais ou menos rápida pode ser decisiva. Curiosamente, estas duas primeiras fases são de autodiagnóstico e de tratamento relativamente simples pois devem ser feitas de livre vontade. Quem não percebe ou por alguma razão adiou os problemas que sentia durante as duas fases iniciais, entra agora na 3ª fase.

A fase da Revolução. É uma fase mais dura e mais desagradável, pois as revoluções raramente são feitas pelos próprios, mas sim por pessoas que, não tendo nada a ver diretamente com as decisões, sofrem os problemas: como exemplos nas empresas temos as greves recorrentes, as revoltas dos trabalhadores, as intervenções dos bancos, etc. Nos Países também se pode perceber pelas manifestações constantes que levam a revoluções e a quedas de regimes, umas de forma pacífica como aconteceu com o 25 de Abril em Portugal, mas outras onde os efeitos nefastos e o sacrifício de vidas são visíveis.

Por fim temos a 4ª fase, a Rutura, onde a “Morte” é a palavra de ordem, assim acontece com os desentendimentos que deram origem às duas guerras mundiais e com muitos outros episódios que assolaram o mundo. Nas empresas é quando se percebe que já não há nada a fazer, mas nessa altura normalmente é muito tarde para se pensar duma forma consciente e tranquila e o que assistimos em inúmeras empresas é que os empresários fecham as portas e fogem das suas responsabilidades, deixando para trás um rol de “destruição” e de problemas aos seus fornecedores, bancos, colaboradores, estado, etc., ficando muitos desses empresários com as suas vidas pessoais completamente destruídas.

Então como devemos proceder? Estar atentos aos sintomas e perceber bem a “história clinica”. Isto é válido uma vez mais para as pessoas, para as empresas e mesmo para os Países.

Nas empresas existem imensos sintomas de que as coisas não estão bem mas que os empresários não querem ver.

Nas pessoas, por exemplo, devemos “ouvir” o nosso corpo. Há sinais que ele constantemente nos dá, de que as coisas não estão bem e a maior parte das pessoas acha que é normal e não liga. As coisas continuam a funcionar, mas a maior parte das vezes mal. Habituam-se e deixam andar. Não é normal terem todos os dias dores de cabeça, sentirem tonturas ou dores no corpo. Mas está provado que grande parte da população vive com estes sintomas e habitua-se.

Nas empresas existem, igualmente, imensos sintomas, mas que os empresários não querem ver e vão passando ao lado. Por norma, o primeiro trabalho que faço é analisar a história clinica da empresa, pelo menos dos últimos três a cinco anos. Desta feita percebemos o percurso, é muito simples, quando se fazem comparações no tempo, sabermos se as coisas estão piores ou melhores quando comparadas com os anos anteriores. Estes balanços também se podem e devem fazer nas nossas vidas. Temos sucessos e fracassos, momentos bons e menos bons, por isso os momentos devem servir de reflexão, mas a avaliação deve ser feita com base em comparações entre períodos diferentes. As pessoas devem ser avaliadas no seu todo, pelo seu conjunto e pelo seu percurso e não por momentos. Na gíria do futebol, o campeonato é o mais importante, é isso que fica para a história, não são as vitórias folgadas ou alguns jogos menos bem conseguidos.

Para além da história temos, então, os sintomas dos tempos mais recentes e para isso temos de estar atentos aos pormenores. Devemos ouvir a opinião das outras pessoas, devemos estar com todos os sensores ligados. Se tivermos estes princípios enquanto pessoas, empresários e mesmo políticos, conseguimos perceber sempre quando temos necessidade de aplicarmos a medicação da 1ª Fase.

Por vezes, o tempo passa demasiado depressa e quando nos apercebemos já estamos a precisar de tratamento de Fase 2, mas é bom quando somos nós a perceber pois evitam-se os dissabores das Fases 3 e 4.

Se precisar de ajuda, não hesite. Não é vergonha nenhuma não sabermos tudo. O importante é resolver os problemas.

A generalidade das pessoas que leu até aqui, consegue posicionar-se tanto em termos pessoais como profissionais ou familiares nas várias fases, já passaram (todos) por momentos em que deixaram as coisas evoluir e depois o tratamento foi muito mais complicado. Muitas pessoas precisam de ajuda para ultrapassar os momentos menos bons e recorrem à família e aos mais próximos e é excelente quando temos pessoas em quem podemos confiar e partilhar os nossos problemas.

Aos empresários é o que sugiro normalmente; se sentir que precisa de ajuda, não hesite. Não é vergonha nenhuma não sabermos tudo. Acredite que várias pessoas já passaram por problemas semelhantes, e o importante aqui é resolver. Por vezes há empresários que me colocam questões (autênticos quebra cabeças e enormes problemas para eles), cuja resolução é muito simples (para quem sabe).

Não vale a pena concentrarmo-nos nos problemas, vale a pena concentrarmo-nos nas soluções. Está estudado que só 5% dos problemas mais complicados que imaginamos que vão acontecer acabam por acontecer, por isso, a minha opinião é a de que vale a pena estarmos preparados e conscientes, mas nunca antecipar os problemas. Se fizerem uma retrospetiva das vossas vidas vão concordar comigo, certamente. Quantas vezes imaginaram coisas, problemas complicadíssimos, becos sem saída, que ia ser o fim e depois o tempo revela que se focaram excessivamente nos eventuais problemas e, afinal, não passou dum susto e de preocupações exageradas? Isto não quer dizer que relativizemos os problemas, quer dizer que devemos ser mais positivos e agir em vez de reagir. Perceber as fases 1 e 2 e agir é bem melhor do que reagir às fases 3 e 4.

Em termos práticos, e agora na ótica empresarial, partilho algumas das preocupações que ouço frequentemente da boca de vários empresários:

– Estou farto disto, gostava de me ver livre desta carga de trabalhos.

– O meu negócio deixou de ser rentável, e agora o que faço?

– Quero fechar a empresa, mas tenho inúmeros avais.

– O meu advogado disse-me que deveria meter um PER ou pedir a insolvência.

– Se fechar a empresa com dívidas acontece-me alguma coisa?

– Como faço para fechar a empresa nas finanças?

O conhecimento é o que temos de mais precioso. É isso que define muitas das vezes a escolha do caminho certo ou errado.

Como vimos, para questões idênticas não existe uma resposta única, pois dependendo da fase em que se encontre, da complexidade do processo e do que o empresário pretende, as possíveis soluções serão com certeza diferentes. Importante é que os empresários estejam conscientes do seu estado, estejam atentos e peçam ajuda quando sentem que precisam de aconselhamento.

O conhecimento é o que temos de mais precioso. É isso que define muitas das vezes a escolha do caminho certo ou errado. Os nossos empresários e empreendedores devem procurar o conhecimento. Devem interessar-se em aprender mais pois só assim conseguem melhorar os seus resultados e lidar com situações mais ou menos delicadas que acontecem. Lidar com a morte é cultural; nas empresas passa-se o mesmo. O fecho das empresas é algo natural como a morte, e, para isso, devemos estar preparados para que na hora a dor seja evitada.

O objetivo das empresas não é o fecho, naturalmente, mas por vezes os acidentes acontecem nas pessoas e nas empresas também, os tempos mudam, as vontades, os mercados, etc e, por isso, paralelamente aos cursos de “Como montar a minha empresa” ou “Como ser empreendedor” ou “Da ideia ao negócio”, o tema “Como desmontar a minha empresa” passou a ser tão importante. Foi com esse princípio que criamos um módulo específico de um dia, integrado no Curso de Gestão I Have The Power para não financeiros, micro e pequenos empresários. O curso é composto por 7 módulos (9 dias), será realizado no Porto e em Lisboa, durante o ano 2017. Nesse módulo iremos trabalhar temas como:

– Abordagem simplificada aos mecanismos legais (Insolvência, PER).

– As precauções com o património dos sócios e avalistas da empresa.

– A dissolução e liquidação da empresa.

– Questões contabilísticas e fiscais.

– Como preparar o fim e limitar os danos.

A morte é inevitável, mas a forma como se morre pode ser simplificada, e na hora, o importante é não sofrer, porque se no caso das pessoas não é consensual haver vida depois da morte, nas empresas é certo que há vida depois do fecho, por isso vale a pena sabermos como se prepara o dia seguinte.

Mais informações sobre o Curso de Gestão I Have The Power para não financeiros, micro e pequenos empresários aqui.