Cristina Benito: “Financeiramente, a nossa mente costuma jogar contra nós”

Cristina Benito defende que o dinheiro não dá necessariamente felicidade, mas uma má relação com ele leva à infelicidade e alerta que as emoções têm um papel muito importante nos investimentos e nem sempre bom. Por isso, decidiu escrever Money Mindfulness, usando os ensinamentos da avó e da mãe, mas também o que aprendeu como assessora financeira na Morgan Stanley. 

Cristina Benito é economista e autora do livro Money Mindfulness.

Cristina Benito cresceu numa família em que apesar de o dinheiro ser muito contado nunca se tornou um problema – graças á gestão exemplar da mãe -, e fez carreira como assessora financeira da Morgan Stanley, mas só quando chegou a Londres sentiu o ímpeto de escrever um livro sobre a nossa relação com o dinheiro. Foi quase um choque passar de uma cultura em que o dinheiro é ainda um assunto quase tabu para outra em que se fala abertamente sobre ele. Foi então que percebeu que riscos e pobres todos têm problemas com o dinheiro, por isso quanto mais se falar sobre ele, mais saberemos e melhor seremos a geri-lo. Foi também esta a razão que a levou a aceitar o convite da Executiva para fazer uma talk na 2.ª Conferência Let’s Talk About Money, onde partilhou as ideias-chave do seu livro e lançou alguns alertas que despertaram a audiência. “O investimento financeiro não é um objetivo em si mesmo, mas um instrumento que nos ajuda a alcançar as nossas ambições. Por isso temos de definir os nossos objetivos, pois se não soubermos onde queremos chegar, é muito provável que tomemos más decisões financeiras”

Depois do sucesso do primeiro livro, Money Mindfulness, Cristina Benito prepara-se para lançar o segundo, que foi totalmente escrito em Lisboa, para onde se mudou no início deste ano. O tema é a nossa relação com o tempo – Time Mindfulness. Tempo e dinheiro são para a escritora lados da mesma moeda. “Quem não sabe gerir o seu tempo também não tem uma boa relação com o dinheiro”, garante.

 

Ao longo da sua carreira apercebeu-se que muitas pessoas têm uma má relação com o dinheiro?
Uma das coisas que aprendi na minha carreira como economista é que a nossa relação com o dinheiro é um retrato fiel da forma clara ou confusa como nos vemos. Pode parecer um pouco chocante, mas a maior parte das pessoas não faz ideia da relação que tem com o dinheiro e isso traz todo o tipo de problemas que impedem que sejam felizes. Muitas vezes me colocaram a grande questão: “O dinheiro faz-te feliz?”, que geralmente está relacionada com a questão seguinte: “é possível ser feliz nesta vida?”. A minha resposta para ambas é “depende em que é que investes, no teu dinheiro ou na tua vida”.

Neste ponto, podemos regressar à grande questão para concluir: O dinheiro não dá necessariamente felicidade, mas uma má relação com ele leva à infelicidade. Neste sentido, o livro Money Mindfulness é uma forma de pararmos de nos sentir aprisionados por algo que foi criado para nos ajudar. Compreender como o dinheiro funciona, assim como a nossa psicologia, permite-nos assumir o controlo da nossa vida. Sermos a pessoa que toma as decisões em vez de sermos governados pela nossa situação financeira.

Quem se preocupa mais com as poupanças, os homens ou as mulheres?
Não se pode generalizar, mas na maioria das vezes, são as mulheres. Ainda carregamos o fardo de gerirmos o orçamento familiar e temos de o fazer mesmo que não tenhamos conhecimento específico. Eu cresci numa família matriarcal, por isso dediquei o livro à minha avó e à minha mãe.  Numa família numerosa o dinheiro era sempre pouco, mas nunca faltou. A minha mãe planeava e geria apenas com um lápis e um caderno, mas tinha consciência de cada despesa, do custo de cada coisa que comprava e, acima de tudo, da utilidade ou da satisfação que nos proporcionava. Era uma perita em esticar o dinheiro. Ela ensinou-nos a não vivermos além dos nossos meios e a tratar cada coisa que nos chegava como uma dádiva preciosa, sem nunca dar nada como garantido.

Atualmente, a falta de educação financeira é um problema sem género. Talvez aqueles que lidam mais de perto com as finanças estejam melhor preparados, mas não nos ensinam as bases na escola.

Quando trabalhou na Morgan Stanley apercebeu-se que as mulheres tinham preocupações diferentes dos homens no que respeita ao investimento?
A maioria dos meus clientes eram homens. Nessa altura, eram os homens que decidiam. Contudo, acho muito interessante que me pergunte sobre as preocupações. Porque o investimento financeiro, a multiplicação do dinheiro, não é um objetivo em si mesmo. É uma ferramenta, um instrumento que nos ajuda a alcançar as nossas ambições, a atingir as nossas metas. É por isso que temos de imaginar o nosso futuro. Em primeiro lugar, temos de definir os nossos objetivos, o tipo de vida que queremos ter. Se não soubermos onde queremos chegar, é muito provável que tomemos más decisões financeiras, desperdicemos o poder da multiplicação, e também o nosso tempo e energia. Como dizia Seneca: “Não há vento favorável para o marinheiro que não sabe para onde quer ir”.

Sentia que as mulheres não estavam tão bem preparadas para falar sobre investimento?
Como em muitas outras áreas, nós chegámos mais tarde. Pelo menos, na cultura mediterrânica, gerimos o orçamento familiar, mas não investimos. Continua a haver um fosso entre homens e mulheres, mas já é mais pequeno.

Atualmente, a falta de educação financeira é um problema sem género. Talvez aqueles que lidam mais de perto com as finanças estejam melhor preparados, mas não nos ensinam as bases na escola. E os nossos pais também não nos falaram sobre gestão do dinheiro em casa. Imagine a diferença que teria tido nas nossas vidas se nos tivessem ensinado a gerir o dinheiro quando éramos jovens. O valor do dinheiro e das notas, de onde vem o dinheiro, a diferença crucial entre o que precisamos e o que desejamos, como planear e poupar, as implicações de pedir um empréstimo, tal como a arte de poupar e investir.

Qual o seu melhor conselho de investimento?
Hoje você é um economizador mais poderoso do que alguma vez será. O importante é o tempo e o poder dos juros compostos. Além disso, temos que aprender a fugir das emoções. As emoções desempenham um papel muito importante nos nossos investimentos e quase sempre de forma negativa. Financeiramente, a nossa mente costuma jogar contra nós.

Em Londres as pessoas falam abertamente sobre dinheiro. E percebi que, na nossa cultura, um dos maiores erros é continuarmos ignorantes sobre o dinheiro. E aquilo de que não falamos é como se não existisse.

Como surgiu a ideia para escrever este livro?
Para melhorar o meu inglês quando cheguei a Londres decidi trabalhar numa loja em New Bond Street, uma das mais luxuosas do mundo. Vi cartões de crédito de todos os tipos – transparentes, pretos, verdes, ouro, platina. As faturas eram astronómicas, mas percebi que os problemas, as discussões, as ambições dos clientes eram iguais às de qualquer pessoa.

Parece que o dinheiro é um problema para todas as pessoas. Os que têm muito preocupam-se em como investi-lo, como ter ainda mais e questionam-se se aqueles que os rodeiam estão interessados neles ou na sua riqueza. Os que têm pouco dinheiro sentem-se falhados, isolam-se ou enterram-se em dívidas para fazer de conta que têm um estilo de vida que não está ao seu alcance. Foi nesta altura que a ideia de escrever este livro começou a ganhar forma

Em Londres as pessoas falam abertamente sobre dinheiro. E percebi que, na nossa cultura, um dos maiores erros é continuarmos  ignorantes sobre o dinheiro. Nem sequer queremos mencioná-lo. E aquilo de que não falamos é como se não existisse. Esta é a razão pela qual muitas pessoas têm uma relação confusa ou francamente pobre com o dinheiro. Preferimos não abordar o assunto por medo ou porque, na realidade, não sabemos como funciona. E quando falamos sobre isso é para pedir um crédito ou para perceber, tarde demais, que gerimos tão mal as nossas poupanças que não sobrou praticamente nada. Contudo, o dinheiro existe. Com Money Mindfulness vamos falar sobre ele para entender como nos relacionamos com algo que pode ser uma fonte de felicidade ou infortúnio, de paz ou de preocupações.

Como se preparou para o escrever?
O método que descrevo no livro combina mindfulness com os segredos dos mais bem-sucedidos homens e mulheres de negócio. Pesquisei sobre os seus hábitos, conselhos e conhecimento. Porém, posso dizer que me preparei para ele a vida toda. Incluí algumas dicas práticas da minha mãe e da minha avó no livro. Também partilhei coisas que aprendi quando investia o capital de outras pessoas, e que tinham sido muito úteis para mim. Por outro lado, pratiquei yoga e meditação nos últimos 14 anos.

[Com este livro] aprendi que quando introduzimos o luxo na nossa vida passamos a acreditar que não conseguimos viver sem ele ao mesmo tempo que deixamos de o apreciar. É uma forma triste de viver.

Como foram as suas rotinas de pesquisa e escrita? Tinha outro emprego na altura?
Geria uma galeria de arte em Londres enquanto escrevia o livro. Portanto, a minha rotina era investigar e escrever sempre que tivesse tempo livre, fora de horas durante a semana e longas horas ao fim de semana. O meu marido é escritor de ficção e ajudou-me imenso com as suas rotinas e método.

Quais foram as descobertas mais surpreendentes que fez durante a pesquisa?
As diferenças entre as pessoas que se tornaram milionárias e as pessoas normais, tal como Thomas C. Corley descobriu com cinco anos de investigação, são os seus hábitos diários. As pessoas que se tornaram ricas têm muitos hábitos em comum, como ler bastante, fazer exercício, dormir pelo menos sete horas por noite e encontrar tempo para pensar. Também fazem opções importantes sobre as pessoas com quem passam tempo e sobre os objetivos que perseguem. E a boa notícia é que todos podemos mudar os nossos hábitos.

Aprendeu alguma importante lição com este livro?
Aprendi que quando introduzimos o luxo na nossa vida passamos a acreditar que não conseguimos viver sem ele ao mesmo tempo que deixamos de o apreciar. É uma forma triste de viver. Acreditamos que precisamos de muitas coisas, de tudo, para sermos felizes. E quando conseguimos tudo e não encontramos a felicidade, começa a frustração e o sofrimento. Damos tanta importância às coisas que acabamos por nos identificar com elas, sem percebermos que mantê-las custa-nos tempo, dinheiro e energia. Porém, muitas das coisas que nos fazem realmente felizes não são compradas com dinheiro, mas para as apreciar precisamos de duas coisas: tempo e serenidade. E ambos estão dependentes da saúde das nossas finanças, crescem silenciosamente sem perdas ou investimentos loucos, enquanto desfrutamos do melhor da vida.

Já está a pensar num novo livro?
Na verdade, já o escrevi desde que estou em Lisboa. É sobre a forma como gerimos a moeda mais preciosa que temos: tempo.  As pessoas que não controlam o seu tempo também não têm uma boa relação com o dinheiro. Ambos são lados da mesma moeda. Time Mindfulness será lançado em Espanha em janeiro.

Money Mindfulness mudou a sua vida?
Não virou a minha vida do avesso. Mas não esperava um sucesso internacional ou um feedback tão bom dos leitores. Tudo isso foi muito empoderador. Estou verdadeiramente grata.

Porque se mudou para Lisboa e qual é a sua opinião sobre a cidade e o país? Já tinha estado em Portugal antes?
Eu queria continuar minha carreira na área dos eventos e da arte. A indústria de eventos aqui é muito dinâmica. A primeira vez que estive em Portugal foi em 2009. A cidade e o país que encontrei agora são muito mais desenvolvidos e cosmopolitas. Estes dez anos foram difíceis para os portugueses, mas já estão a recuperar da crise financeira e económica. O emprego está crescer, assim como o custo de vida, eu sei. E ainda existem desafios, mas estão a ir muito bem.

O que mais gosta em Lisboa?
É muito difícil não nos apaixonarmos por Portugal, uma natureza deslumbrante, o respeito que têm pela cultura, mantendo as suas raízes e tradições, a identidade. Há música em todo o lado, tal como bom vinho e boa comida. Eu gosto do ritmo de vida, das pessoas e da luz encantadora Lisboa.

Quais as principais diferenças que nota entre espanhóis e portugueses?
Existem diferenças, mas elas também existem entre as regiões da Espanha e tenho a certeza de que também existem diferenças entre as regiões de Portugal. Talvez o português seja mais reservado que o espanhol. E vocês entende o idioma espanhol embora o contrário não aconteça…  De qualquer forma, acho que compartilhamos mais semelhanças do que diferenças.

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