Carla Antunes da Silva: “É fundamental confiar no que fazemos e transmitir essa confiança”

Carla Antunes da Silva é membro da Comissão Executiva do Lloyds, no Reino Unido, e do Conselho de Supervisão do Novo Banco, em Portugal. Conhecida como o braço direito de António Horta Osório, a executiva tem uma sólida carreira de duas décadas no setor financeiro.

Carla Antunes da Silva é diretora de Estratégia do Grupo Lloyds e integra a sua Comissão Executiva.

Carla Antunes da Silva vive e trabalha em Londres há duas décadas, onde é diretora de Estratégia do Grupo Lloyds desde 2015, integra a sua Comissão Executiva e tem um cargo não executivo numa outra empresa do Grupo.

Chegou ao Reino Unido para se licenciar em Política, Filosofia e Economia na Universidade de Oxford e gostou tanto da experiência, que de seguida fez um mestrado em Gestão na London School of Economics. Terminados os estudos, regressou a Portugal, mas o primeiro emprego no Deutsche Bank como analista financeira permitiu-lhe continuar a ter a exposição internacional a que se habituara e em pouco tempo estava de volta ao Reino Unido. Após cinco anos no banco alemão, a executiva mudou para o JP Morgan e depois para o Crédit Suisse, sempre em funções nas áreas de análise financeira, estratégia e gestão.

A banca não fazia parte dos planos de Carla Antunes da Silva, mas quanto melhor a conhece mais a encanta pela oportunidade que lhe dá de perceber melhor o mundo em que vivemos, os hábitos das pessoas e das empresas. Apontada no setor financeiro como o braço direito de António Horta Osório (presidente do Grupo Lloyds desde 2010), a sua sólida experiência de duas décadas neste setor valeu-lhe diversas distinções, como o prémio de Best Bank’s Stock Picker atribuído no Starmine Awards do Financial Times e o prémio de Top Banks Analyst atribuído pela Institutional Investor (2007-2014).

Nos últimos anos, tem reforçado a ligação a Portugal. Desde 2013 que é administradora não executiva da MAZE (empresa de impacto social em colaboração com a Gulbenkian), onde coloca a sua experiência no setor financeiro ao serviço da equipa de gestão e em 2018 passou a integrar o Conselho Geral de Supervisão do Novo Banco.

Tem nacionalidade portuguesa, mas fez a sua formação superior no Reino Unido. Porque saiu de Portugal para estudar e já tinha intenção de ficar no Reino Unido?

Eu fiz a escolaridade, até aos 18 anos, em Portugal, no colégio inglês St. Julians. Na altura, tinha a intenção de estudar Economia em Lisboa, na Católica ou na Nova, mas no meu último ano de liceu, o meu diretor de escola chamou-me e perguntou-me o que é que eu queria fazer com a minha vida? Foi quando me sugeriu que eu deveria candidatar-me a Oxford, porque ele como antigo aluno dessa universidade achava que eu tinha o perfil adequado. Quando falei nisso aos meus pais (que nem sequer falam muito bem inglês) disseram-me que primeiro tinha que entrar, e que, só depois podíamos escolher, mas que eu também teria que continuar a candidatar-me ao sistema português. E assim foi. Lembro-me de fazer a PGA, que existia na altura, e de estar a preparar-me para os exames de verão quando recebi a confirmação que tinha lugar em Oxford para estudar Política, Economia e Filosofia – e com isso, os meus pais disseram “Agora que entraste, acho que vais ter mesmo que ir!”

Por que razão fez duas formações seguidas?

Adorei o meu curso em Oxford e toda a formação que a experiência me trouxe, não só academicamente, mas também a nível de crescimento pessoal e cultural. Foi definitivamente uma das experiências que alterou a minha vida. Era 1992, Portugal tinha acabado de entrar na União Europeia e por isso havia muito poucos estrangeiros em Oxford – eu era a única no meu ano que não residia no Reino Unido.  A minha intenção era regressar a Portugal para trabalhar, mas também sabia que os cursos, que na altura eram de 3 anos, não tinham equivalência em Portugal e, por isso, decidi fazer o mestrado em Gestão logo a seguir, na London School of Economics. As coisas evoluíram muito, lembro-me que, em 1995, quando fui ao Ministério da Educação em Lisboa para pedir equivalência ao meu curso de Oxford disseram-me que só tinham duas universidades inglesas registadas – a Universidade de Cambridge e a University of London e por isso não podiam reconhecer o meu!

A banca é essencial para percebermos melhor o mundo em que vivemos, os hábitos das pessoas e das empresas. Quanto melhor conheço o setor mais gosto de trabalhar nele!

A banca sempre foi o seu objetivo de carreira?

De todo. No último ano da universidade, muitos dos meus colegas entraram para consultoras e essa era também a minha ideia. A verdade é que, agora que conheço os dois mundos, considero que foi uma sorte ter ido para a banca porque é um sector que adoro! De novo, são as pequenas coincidências que fazem parte do nosso trajeto e, no meu caso, aconteceu o Deutsche Bank estar a crescer em Portugal e querer recrutar uma analista financeira para cobrir os setores da banca, seguros e utilities. O trabalho era em inglês e, apesar de estar a viver em Lisboa, continuou a dar-me a exposição internacional a que eu me tinha habituado – por isso, foi um começo de carreira com o “best of both worlds!”

Iniciou a carreira na banca e aí se tem mantido nos últimos quase 23 anos. Nunca teve vontade de usar os seus conhecimentos noutro setor que não o financeiro?

A banca tem sido muito criticada – especialmente desde a crise financeira – mas é um setor fundamental, intrinsecamente ligado à sociedade em que está inserido como muito poucos outros setores, essencial para percebermos melhor o mundo em que vivemos, os hábitos das pessoas e das empresas. Admito que também gosto muito da parte mais técnica e financeira. Fiz equity research sobre a banca europeia durante 18 anos, e nunca me fartei. Há 5 anos, passei para o lado corporate e passei a gostar ainda mais de trabalhar neste setor. No meu caso, posso dizer que quanto melhor conheço o setor mais gosto de trabalhar nele! Eu sei que não está muito na moda dizer que se gosta de trabalhar na banca, mas com o nível de intensidade do trabalho em banca e as mudanças constantes que acontecem no setor e que é preciso acompanhar, se não se gostar mesmo do que se faz, acho que é inevitável escolher outra direção.

Apesar de ter trabalhado sempre em Londres, trabalhou em instituições financeiras com culturas diferentes. Quais as suas preocupações quando muda para uma nova cultura corporativa?

Sim trabalhei durante 18 anos em investment banking – e adorei – mas senti que precisava de algo mais real, onde pudesse ver o impacto do meu trabalho. Tive a sorte de encontrar vários profissionais de topo que admiro e respeito, e que conseguem conciliar o lado humano e de valores, ao mesmo tempo. É essa combinação que procuro numa instituição, e tenho que dizer que o Lloyds tem essa combinação rara.

O trabalho em equipa é fundamental para termos mais sucesso que os competidores e é isso que faz a diferença.

E qual a sua abordagem para se integrar em equipas já formadas?

A primeira coisa é observar e aprender com os vários membros da equipa. A minha formação como analista financeira ensinou-me a tentar fazer uma colectiva das várias opiniões, formas de trabalho, cultura, etc para depois tentar fazer o puzzle e perceber onde é que eu posso contribuir para (espero) melhorar um processo, uma decisão, etc. O trabalho em equipa é fundamental para termos mais sucesso que os competidores e é isso que faz a diferença.

Qual considera ser o momento mais desafiante da sua carreira?

Foi provavelmente em 2006/07, quando assumi a responsabilidade dos bancos ingleses enquanto trabalhava na JPMorgan. Na altura, eu achava o sistema financeiro inglês muito alavancado, e tinha uma recomendação de venda sobre quase todos os bancos. Foram uns meses de grande pressão porque as ações continuavam a subir, mas quanto mais subiam, mais trabalho e análise eu fazia para demonstrar que algo não estava bem. Entretanto, vem 2008 e a crise financeira, e foi um grande período de crescimento profissional apesar das dificuldades do sistema bancário.

Quais os principais desafios que enfrenta atualmente na sua área?

Respondo às suas questões a partir de casa, onde estamos todos a trabalhar em lockdown por causa da Covid-19. Por isso, a minha resposta tem que ser relacionada com a pandemia que o mundo está a viver. Tenho imenso orgulho na forma como o Lloyds tem conseguido assegurar o apoio aos seus 26 milhões de clientes de uma forma extraordinária, envolvendo 70 mil colaboradores. O maior desafio é tentar conciliar as necessidades mais imediatas, e ao mesmo tempo tentar preparar a instituição para o futuro pós-Covid, tentando perceber quais as mudanças estruturais que estão, e vão continuar a acontecer no sector e onde é que o Lloyds se deve posicionar.

Acredito que a minha vivência atual e experiências passadas, possam ser uma mais valia [no Conselho Geral de Supervisão do Novo Banco]. Também sou a que faz mais perguntas, espero que as corretas!

Qual a parte que mais gosta no seu trabalho?

Há duas grandes vertentes do meu trabalho que eu adoro – primeiro é fazer parte duma equipa que é fantástica e reconhecida no mercado como muito boa profissionalmente e ao mesmo tempo tentar criar essa mesma dinâmica na minha equipa mais próxima.

A segunda vertente que adoro é tentar juntar as peças das várias dinâmicas do mercado e tentar perceber como é que os nossos clientes vão evoluir, e como é que nos temos que adaptar e ao mesmo tempo explicar essa história ao mercado.

E quais são os skills mais importantes para ser bem-sucedido na sua função?

Curiosidade e resiliência!

É diretora de Estratégia do Grupo Lloyds, integra a sua Comissão Executiva e tem funções não executivas numa outra empresa do grupo. É fácil no Reino Unido as mulheres chegarem a funções de liderança e aos boads em instituições importantes como aquelas em que tem trabalhado? Sente que para chegar a estas funções teve que dar mais provas da sua competência pelo facto de ser mulher? 

Nunca senti essa distinção nem para o bem, nem para o mal, pelo facto de ser mulher. Acho que durante a minha carreira tive a sorte de trabalhar em instituições que apoiam a meritocracia e o bom trabalho, seja ele de quem for. Acho que é fundamental confiarmos no que estamos a fazer e conseguirmos transmitir essa confiança.

Há uma enorme vontade de todos os colaboradores [do Novo Banco] de prestarem o melhor serviço aos seus clientes, mesmo quando passaram por tantas mudanças e enfrentaram tantos desafios.

Qual o seu papel no Conselho Geral de Supervisão do Novo Banco e qual considera que tem sido a principal mais-valia da sua participação neste órgão?

Fui convidada pela Lone Star em dezembro de 2017 para integrar o Conselho Geral e de Supervisao (num total de 9 membros). Desde então acompanhei através de reuniões mensais a atividade do banco e o seu plano de recuperação financeira, bem como de projectos comerciais. Teria que perguntar ao Byron Haynes (Chairman) ou ao Antonio Ramalho (CEO) qual é a minha mais valia, mas diria que talvez o facto de ser a única no Conselho com um cargo executivo noutro banco, a minha experiência internacional e o meu histórico de analista financeira. Acredito que a minha vivência atual e experiências passadas, possam ser uma mais valia. Também sou a que faz mais perguntas, espero que as corretas!

Do seu ponto de vista que aprendizagens tem feito com esta experiência?

Tem sido muito bom voltar a ter contacto profissional com Portugal, depois de tantos anos fora. É com imenso orgulho que vejo o desenvolvimento de um projeto que implica o renascer de um banco, como o Novo Banco, e ver que há uma enorme vontade de todos os colaboradores de prestarem o melhor serviço aos seus clientes, mesmo quando passaram por tantas mudanças e enfrentaram tantos desafios.

Além de fazer parte do Conselho Geral de Supervisão do Novo Banco, também é administradora não executiva na Social Finance Portugal e está ligada à Gulbenkian. Do seu contacto com Portugal, quais as principais diferenças que nota na forma de trabalhar entre os portugueses e os britânicos?

Nos meus 23 anos de experiência profissional, só trabalhei em Portugal durante um ano e meio, nos anos noventa, e por isso notei uma diferença enorme! Acho que há um nível de profissionalismo muito bom em Portugal e com uma energia positiva após um longo período de crise. Ao mesmo tempo, queremos muito aprender com outras culturas e formas de trabalhar e isso é muito positivo. Os britânicos têm um sentido de humor que eu adoro e apesar de parecerem muito formais, são pessoas com que é muito fácil trabalhar.

Qualquer experiência onde possamos aprender outras formas de trabalhar, outras culturas, só pode ser positiva em termos de crescimento profissional e também pessoal.

A presença das mulheres no mercado de trabalho e, sobretudo, em cargos de liderança é muito diferente nos dois países?

Acho que a grande diferença entre a presença de mulheres no mundo do trabalho se deve mais a motivos culturais do que outro factor. No Reino Unido, há menos apoio em termos familiares para famílias com crianças e mesmo em termos de horários de escola, que por vezes forçam certas mulheres a abdicarem das carreiras. A nível de cargos de liderança acho que tem havido um esforço enorme nos últimos anos para equilibrarem esses cargos, e acho que é aceite que a diversidade de opiniões é o melhor sistema para as empresas. O Lloyds foi pioneiro neste tema e tem feito ótimo progresso. Mas o progresso é lento e precisa de ter o sponsorhip de toda a empresa.

Do que conhece dos dois mercados, que conselhos deixaria a uma executiva portuguesa que tenha uma proposta para trabalhar em Londres?

Não me limitaria a dar o conselho sobre uma proposta internacional só para Londres. Acho que qualquer experiência onde possamos aprender outras formas de trabalhar, outras culturas só pode ser positiva em termos de crescimento profissional e também pessoal. Por isso, diria sempre para avançarem!

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