Inovação, transparência, compliance… para quem?

Por Manoel Marcondes Machado Neto, relações-públicas, professor associado da UERJ, doutor pela USP, cofundador do Observatório da Comunicação Institucional (OCI).

As três palavrinhas do título permeiam todos os discursos que ouvimos, atualmente. Das bocas de presidentes da República. De dirigentes esportivos. Do industrial, do sindicalista ou do dirigente de ONG. Do Papa aos paparazzi, passando pelos partidos políticos brasileiros que o OCI, aliás, em 2014, demonstrou que não se distinguem perante o eleitorado e não se comunicam devidamente com o cidadão. (*)

Temo que todos mintam, omitam, tergiversem, pois quando surge uma verdadeira inovação nos ambientes de trabalho em que tenho circulado – e não são poucos – o que observo é mais medo de mudança do status quo do que loas à inovação e à sua eventual contribuição.

O que mais encontro é a mesmice, infelizmente. A modorra, o enfado, o “cumprimento do horário”, sempre pelo mínimo, e o onipresente “me engana que eu gosto”.. nos corredores universitários, nas empresas “pontocom” mas, principalmente, nas organizações governamentais.

Transparência? Só nos discursos, porque nas práticas, nunca! Palavra tentadora, aparece nas promessas. De todos. Mas o que dizer sobre a “entrega” da tal transparência? Nada. Opacidade total.

Compliance – ou aderência a normas preestabelecidas – para quem? Para o seu fornecedor, talvez, chantageado pela exigência. Mas não para você mesmo, que sempre arranja um jeitinho de acomodar os ânimos, as coisas erradas e suas consequências.

Brasil: país do faz-de-conta

O presidente do Senado Federal discursa que “a Casa é a instituição mais transparente do país”. Não é! Montadoras, usinas, empreiteiras e mineradoras (dizem que) agem inteiramente “em conformidade” com “os mais altos padrões de conduta ética, pautadas pela legislação em vigor e segundo os regulamentos do setor” A petroleira – de práticas corruptas generalizadas em seu corpo há anos – sedia um seminário sobre excelência em governança corporativa! E o evento, por sua vez, “exclusivamente” coberto – a peso de ouro – pelo jornalão que diz primar por qualidade, entrega, de verdade, um diário cada vez mais mirrado após a enésima onda de demissões aplicada à sua redação.

Caríssimas faculdades – públicas, às custas de todos os cidadãos –, e particulares, as quais muito pesam no orçamento dos próprios estudantes e dos pais de família – “vendem” capacitação para inovar em seus outdoors, mas comprimem o pagamento das horas-aula e principalmente as demais horas que um professor precisa para bem realizar o seu ofício – preparação, correção de trabalhos e provas, orientação de trabalhos de conclusão de curso.

A cidadania tem que exigir mais ação, mais correção, menos discurso e menos desvios de conduta. A sociedade tem que escrutinar o trabalho dos governantes e parlamentares que elege. E estes, por sua vez, devem prestar contas de seus atos, periódica e sistematicamente. O consumidor tem que ser mais atento com o que compra e o que contrata.

Só assim, em um nível mais elevado de exigência de satisfações públicas por parte das organizações é que poderemos, no Brasil, atingir outro – mais elevado –, patamar de civilidade e de civilização. Riquezas, temos. Instituições idem, e arrecadação também. O que nos falta, então?

(*) Acesse a pesquisa sobre discurso institucional das siglas partidárias do Brasil emObservatório da Comunicacao